caminho andado

A alma é nômade, o espírito é livre e a busca é a cura.

Marcio Flavio

Um curitibano, geminiano que escreve para o Meio Caminho Andado e para a Obvious. Gosto de cinema, séries, solidão, livros e café solúvel

A saudade é uma colcha velha

De como a saudade passou a ter os trejeitos de Brigitte Bardot, desde o dia em que ouvimos a canção homônima de Zeca Baleiro.


Creio que todo mundo sente a mesma saudade, quando se vira para o lado, ou mesmo olha para trás e revê pedaços de histórias que poderiam ter mais significado se soubesse quanto durariam. Se soubesse que teriam fim e seriam como um filme antigo na memória. É em domingos de inverno, que quase que por força maior, se põem a dar ouvidos a essas poesias melódicas e introspectivas, tais quais Brigitte Bardot de Zeca Baleiro. O autor maranhense de 49 anos é músico, compositor e letrista. A música faz parte do terceiro álbum de sua carreira, intitulado Líricas, que foi lançado em 2000. Este álbum lhe rendeu um disco de ouro e uma indicação ao Grammy latino. Brigitte Bardot (Brigitte Anne-Marie Bardot), 80 anos, atriz cantora e ativista, natural de Paris França. Teve seu sucesso e visibilidade despontados em 1957 com o filme E Deus criou a mulher. Em 1973, anunciou o fim de sua carreira. Brigitte Bardot foi a musa inspiradora de diversos ídolos da música mundial. Além de atriz e mais tarde ativista, Brigitte gozou do status de intérprete em alguns discos, em sua maioria, singles lançados pela gravadora Philips. Superficialmente entendemos que a metáfora da saudade está sendo atribuída a um filme antigo de Brigitte Bardot, remetendo ao passado e a nostalgia. Acredito que a cena pede uma visão mais aprofundada, tal como se nuances estivessem escapando aos nossos olhos, ou melhor dizendo aos nossos ouvidos.

Entender as nuances dessa metáfora é para muitos uma tarefa simples, mas a leitura que faço é mais distante, sobre a forma que o objeto Brigitte Bardot se mostra saudade em meio a essa história caótica, de amor e medo. Primeiramente amor pela figura que faz falta ao autor e em um segundo momento podemos fazer a leitura de medo de morrer sem mais ver a figura amada pela qual sente-se saudade, é possível também traçar o paralelo de que a figura amada venha a morrer, encerrando de vez a dúvida de um retorno.

“A saudade vem chegando A tristeza me acompanha! /Só porque... só porque.../ O meu amor morreu/Na virada da montanha”

Aparentemente ligados o amor e o medo surgem nos 45 minutos do segundo tempo fazendo essa reviravolta, de uma tristeza tão agradável aos ouvidos.

Brigitte Bardot é uma sobreposição de metáforas e analogias que visam trazer o pano de fundo da falta que a outra pessoa faz, a falta que a pessoa amada faz. É possível visualizar um cenário montado, um dos elementos poderia ser eu ou você, posicionado ao centro, a música ambiente ao fundo é como que a deixa para a saudade entrar em cena, como uma linda, porém desagradável personagem de um filme muito antigo. Vislumbrar a sede da presença que o enredo desperta é, como que, observar um entardecer da varanda de sua casa em um inverno aconchegante e solitário, é como buscar no íntimo uma tristezinha boa e se rebuscar de suspiros ao perceber que a época em que deixou-se cativar ficou para trás, como que em outra vida.

De uma doçura inigualável os versos que formam essa obra da música popular brasileira, remetem possivelmente ao filme que ambos assistiram e a colcha velha que cobrira o amor em brasas. Melancólico, nostálgico, poético e diria também trágico. Afinal de contas o encontro jamais acontece, entre a figura homenageada com juras de saudade e o interprete saudosista que lamenta sua triste história de amor. É como diria, um convite a melancolia e também aos mais românticos uma espécie de saudade do amor da infância, aquele sem malicia, aquele “pegar na mão” e sair correndo. Conduzindo até o momento em que o impulso da carne traga o “amor em brasa” citado na letra.

Creio que combine com tardes de domingo, e com quem acredita que esse dia tem certo clima introspectivo. Serve para pensar em entes queridos que jamais serão vistos a cores novamente, e nos momentos em preto e branco que passamos juntos aos mesmo. Há de se lembrar de uma pessoa que significou algo, alguém que um dia lhe rendeu juras de amor e ainda daquela ou daquele que feriram seu ego, seu espirito ou ainda feriram seu corpo. Podemos sentir mesmo uma atmosfera densa e de suspiros, quando na cadencia descemos de montanha russa, ao ouvir a pronuncia, “a saudade”. Levados por esse efeito da gravidade passamos por um momento de angustia mínimo, o da falta de quem nos marcou muito, alguém que poderia ser bem-vinda ou bem-vindo, em um domingo de inverno.

“a saudade é uma colcha velha/que cobriu um dia/numa noite fria nosso amor em brasa/ a saudade é Brigitte Bardot acenando com a mão num filme muito antigo”

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Por fim imagino que a saudade está fazendo-se valer em muitos solitários e solitárias, estes incansáveis em seu objetivo de acreditar que estão bem melhores sós, que na falta da companhia ideal encontram, quase que por desespero, um aparelho de DVD empoeirado em uma caixa na garagem. Nesse mesmo aparelho pode ser inserido aquele disco do Zeca Baleiro, com aquela música que fala que o amor morreu na virada da montanha. Em um caso mais raro, porém não impossível, encontrar por uma bagatela em algum sebo uma cópia em VHS de Viva Maria! (1965) estrelando, a saudade ou Brigitte Bardot.


Marcio Flavio

Um curitibano, geminiano que escreve para o Meio Caminho Andado e para a Obvious. Gosto de cinema, séries, solidão, livros e café solúvel.
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