caminho andado

A alma é nômade, o espírito é livre e a busca é a cura.

Marcio Flavio

Um curitibano, geminiano que escreve para o Meio Caminho Andado e para a Obvious. Gosto de cinema, séries, solidão, livros e café solúvel

Ainda moço pra tanta tristeza

Canteiros de Fagner, me recorda que as choronices que me faziam rir na infância, hoje são o meu vício mais amargo.


Com 08 anos de idade, eu abria a janela do quarto aos domingos de manhã e acordava minha prima com a luz do sol. Ela reclamava aos gritos enquanto eu saia correndo pela casa. Naquela época aquele menino de óculos, realmente sabia incomodar. Porém, para mim, as pessoas que desprendiam energia para reclamar, nada mais eram que seres irritantes, criaturas chatas e implicantes. Para mim, era como se a vida fosse muito curta para choronices.

Hoje porém sigo, viciado em ficar triste, de casa ao trabalho. Como num insulto a vida, sem nunca planejar me divertir, sempre dizendo que a falta de muito dinheiro, é quem deve ser a responsável pela minha solidão. Ou queixando-me de ter sido abandonado por entes queridos ou antigas companheiras.

Amigos são aos meus olhos, nessa fase, todos uns falsos, invejosos, manipuladores e inaptos a me dizer uma palavra sequer de motivação. Como se cada um deles tivesse a santíssima obrigação de preparar-me uma palestra de coaching ou uma dinâmica de grupo, o grupo no caso, do eu sozinho. E veja você que cada vez eu danço menos, sorrio menos e quando me dão espaço tagarelo como um narrador de partida de futebol. Temendo que em breve volte a ficar só, por culpa de tudo, menos de mim. Que me enxergo mutas vezes como uma triste vitima, de um destino emocional perverso.

A influencia da musica nessa fase de tanta tristeza solidão e amargura é gritante. Posso considerar que meus ouvidos rabugentos conseguem apenas deleitarem-se quando se sentem tocados pelos arranjos calmos, pelo marasmo de um violão acústico e pelas letras de quem espreguiça-se em um cama de saudade, remorso ou ainda solidão. E como não identificar-me com a frase que diz "Em versos tristes que invento" ou "Pra correr entre os canteiros e esconder minha tristeza".

Canteiros de Raimundo Fagner é uma ode a solidão, ainda que vestida de cult, tem seu jeitão sertanejo. Jeitão de quem, emprestando a expressão de novelistas, "molha o pão no café". Remete a infância, TV preto e branco e caderno de caligrafia. Quando me recordo que fui cercado de amigos sorrio, logo depois me lembro a causa de não os ter por perto e desfaço meu breve sorriso. Nesse momento eu ligo Canteiros do Fagner, sento-me no escuro e choro sozinho. Aquele choro de quem sabe que tem jogado a vida fora. Em poucas palavras, a vida me arrastou moço. E que eu deixe de coisa e cuide da vida, pois tenho sentido de tudo, menos a felicidade. Boat.jpg


Marcio Flavio

Um curitibano, geminiano que escreve para o Meio Caminho Andado e para a Obvious. Gosto de cinema, séries, solidão, livros e café solúvel.
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