caminho entre devaneios

Um espaço para discutir sobre nossa contemporaneidade cotidiana

Adolfo Brás Sunderhus Filho

Entender a fluidez de nossa sociedade nos leva a entender nós mesmos como seres sociais.

AMIZADE, RELAÇÕES, INDIVIDUALIDADE, PARTICULARIDADE

Verdadeiramente, o que é a amizade? Quando esse sentimento é genuíno? Michel de Montaigne, ao falar sobre a amizade dele com Ethienne de La Boetie, resumiu de maneira excepcional o sentimento que ele nutria pelo amigo: “Porque era ele, porque era eu.”


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Em tempos de relações tão fugazes, tão rápidas, muitas vezes as amizades duram um tempo que não conseguimos direito ter noção, tamanha a velocidade em que elas são feitas e desfeitas. Em tempos de Facebook e demais redes sociais, nos quais o que importa é a quantidade e não a qualidade, a amizade apresenta um outro significado, e não tem mais a profundidade, nem dura tanto tempo quanto seria interessante.

Em tempos de uma liquidez absurdamente grande das relações sociais, como bem nos diz Zygmunt Bauman, tudo se torna passageiro. Relações começam e terminam num simples “click”, ao acionar um botão de “fazer” ou “desfazer” amizade. Pessoas se orgulham de ter milhares de amigos, centenas de curtidas e compartilhamentos nas redes sociais, mas não param para olhar e pensar no quanto essas amizades são reais, no quanto elas existem no muito “face a face”.

Será que podemos dizer que uma amizade é verdadeira quando facilmente limitamos nosso número de amigos e temos em nossas páginas apenas aqueles que pensam igual a gente? Será que podemos dizer que existe amizade quando não sabemos respeitar a opinião diferente? Será que podemos dizer que existe amizade quando não paramos para ouvir o outro, independente de seu pensamento concordar com o meu?

Ser amigo é não apenas se preocupar, não é apenas ir em festas de aniversário, não é apenas dar abraços e tapinhas nas costas. Ser amigo é respeitar a individualidade, e permitir que o outro seja ele mesmo e ter respeitado o seu direito de ser você mesmo. Amigos pensam de forma diferente, tem ideias diferentes. São duas pessoas que tiveram toda uma história de vida própria, criações diferentes, com realidades completamente diversas. Um amigo não é um espelho, que mostra nosso reflexo. Um amigo é uma pessoa que está ao nosso lado para que possamos crescer como pessoas, para que nos apoie e nos faça ser o melhor de nós mesmos, mas não deixando de sermos nós mesmos. O amigo é ele, com suas particularidades, seus pensamentos, suas ideias, seu modo de agir, sua história, sua bagagem. Se não soubermos respeitar as particularidades do outro, não é um amigo que buscamos, mas simplesmente alguém que se molde e nossa vontade e que pense como nós. E, aí, respeito deixa de existir e a amizade morre.

Tenha amigos e permita que eles sejam eles mesmos. Respeite a individualidade de seus amigos, respeite o pensamento deles, as ideias deles. Por mais que você não concorde. Amizade não se constrói, não se estabelece em uma relação de imposição, mas de tolerância, de respeito. Antes de buscar ouvir a si mesmo em seu amigo, busque ouvir a ele. Antes de querer um “eco” no outro, queira uma fala diferente, e a aproveite para enriquecer sua vivência.

Somos, cada um de nós, indivíduos, únicos, particulares. Que não percamos isso jamais!


Adolfo Brás Sunderhus Filho

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