caminho entre devaneios

Um espaço para discutir sobre nossa contemporaneidade cotidiana

Adolfo Brás Sunderhus Filho

Entender a fluidez de nossa sociedade nos leva a entender nós mesmos como seres sociais.

PRESSÃO, COBRANÇA, FELICIDADE, VIDA

A vida nos traz cobranças das mais inúmeras. Sofremos pressões das mais diversas, passamos por instantes de tensão que nos fazem desanimar por completo. Muitas vezes, acabamos colocando a nossa felicidade em segundo plano, invertemos prioridades e não vivemos de forma plena e satisfatória. A felicidade, como já nos disse Spinoza, está em nós mesmos, "é a passagem de um estado mais potente do próprio ser." Que essa felicidade em nós mesmos prevaleça e seja enxergada, sempre!


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Tudo passa em uma velocidade extremamente rápida, cada vez mais veloz, que muitas vezes sentimo-nos tontos, como que recém saídos de uma jogo de rodar com a testa grudada em um cabo de vassoura. Levantamos a cabeça, olhamos tentando mirar uma direção e saímos, cambaleando, sem norte, como numa crise de labirintite. Esse é o mundo cada vez mais insano em que nos encontramos.

Cobranças são das mais diversas sobre todos nós. É a vida de adulto, sem dúvida alguma. Mas, caramba! Precisava ser tão louca, tão rápida, tão, tão, tão? Acorda de madrugada, troca de roupa correndo, desce escadas correndo, pega um ônibus (ou metrô), outro e mais outro, para só então começar a trabalhar. A vida já começa veloz, mesmo antes do sol dar as caras. E a gente nem pode achar que nós que começamos cedo, porque ao chegar nos terminais rodoviários ou pontos de ônibus, muitas vezes vemos que tem pessoas que já chegaram lá antes de você.

Mas, essa correria diária é apenas parte da insanidade. Cobranças, metas, objetivos. Empresa, cliente, empresa, cliente. Vendas, vendas, vendas. Planejamentos, planejamentos, planejamentos. Alunos, alunos, alunos. Independente de qual seja a sua profissão, o que é uma constante é que sempre você será pressionado, sempre será cobrado, não só pelo seu chefe, supervisões, coordenador e cliente. Será cobrado, e muito, principalmente por você mesmo.

Nessa sociedade insana e louca, somos levados e ter um nível de auto-cobrança que, se pararmos para analisar, chega a ser desumano com nós mesmos. Minha aula nunca está boa, minha meta pessoal sempre é maior do que a imposta pela empresa, o texto que eu escrevo aqui nunca está bom o suficiente. E, dessa forma, aumentamos pressões, vivemos em um clima de tensão constante.

Nessas horas, entendo muito bem porque J.M. Barrie criou o personagem Peter Pan e o que ele queria trazer a tona, criticar, questionar. O mundo adulto é cruel, vive uma constante pressão do "tic-tac", que come nossa vontade de viver, nossa vontade de criar, nossa alegria de ser. O relógio regula o tempo de todos nós, somos orientados pelas horas, regulados pelos minutos, pressionados pelos segundos. Corremos atrás de tempo, corremos do tempo.

Nesse correr, colocamos tudo em prioridade, e esquecemos daquilo que deve ser, sempre, prioritário para nós: nosso bem estar. Devemos parar um pouco nessa correria louca, e pensar no quanto estamos dedicando e priorizando um pouco do nosso tempo, dos nossos minutos e segundos, para que possamos ter uma vida verdadeiramente saudável, não no sentido de praticar exercícios físicos ou de deixar de comer isso ou aquilo, mas saudável no sentido da vida que nos faz bem, da vida que nos traz uma verdadeira sensação e satisfação e felicidade.

Mas, não devemos encarar essa mudança de prioridade como mais uma pressão. Não estou falando de mais pressão, por favor, não entenda dessa forma. Já temos pressões demais, não precisamos ficar loucos, cobrando-nos a ideia e a obrigação de sermos felizes o tempo todo, pois isso é uma verdadeira falácia. Ninguém é feliz o tempo todo, graças a Deus! Momentos de infelicidade, de tristeza, convivem com momentos de felicidade e alegria. São sempre momentos, rápidos, que passam num instante, e são os momentos de rápida felicidade que precisamos colocar na nossa lista de prioridades, para que não deixemos os mesmos passarem de maneira desapercebida, sem que os aproveitemos. Pode ser um simples "obrigado" sincero da parte de um cliente. Pode ser o aluno fazer aquela conexão do conteúdo explicado com a realidade. Pode ser fechar aquela nota que estava dando tanta dor de cabeça. Mas, não deposite sua felicidade apenas no dia do pagamento, ou apenas no sábado ou no domingo, porque, se assim você fizer, isso vai gerar ainda mais ansiedade para você.

A felicidade, de forma simples e direta, está naquilo que nós mesmos fazemos, naquilo que nós mesmos vivemos. A felicidade não está fora de mim, mas está em mim, está nas nossas mãos. Desse modo, também a tristeza está em nossas mãos. Não estou com isso falando que toda a felicidade e toda a tristeza são culpa nossa, pois não é. Tem sempre momentos em que elas vêm de fora. O que estou querendo dizer é que cabe a nós mesmos estarmos prontos, aptos para enxergamos e vivenciarmos esses momentos de felicidade que se colocam a nosso dispor, que se apresentam em nossa vida.

Olhe com atenção para todos os momentos de sua vida. Enxergue a beleza que existe na simplicidade do dia. Deixe-se aberto, propenso a viver os momentos de felicidade que surgirem em sua existência. Eles são únicos e importantíssimos para que nossa vida tenha um sentido verdadeiro e não seja apenas uma sucessão de obrigações, metas, pressões e resultados.


Adolfo Brás Sunderhus Filho

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