caminho entre devaneios

Um espaço para discutir sobre nossa contemporaneidade cotidiana

Adolfo Brás Sunderhus Filho

Entender a fluidez de nossa sociedade nos leva a entender nós mesmos como seres sociais.

EDUCAÇÃO, PARTIDO, DOUTRINAÇÃO, PERSEGUIÇÃO

Vivemos tempos difíceis para aqueles que são professores em nosso país. Um verdadeiro clima de perseguição à educação se mostra visível em nossa sociedade. A pergunta que fica é: "Qual a função do professor?". Para Rubem Alves a função de um professor é instigar o estudante a ter gosto e vontade de aprender, de abraçar o conhecimento. Agora, como fazer isso quando temos nossa liberdade de atuação em sala limitada, censurada, coibida?


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Vivemos tempos difíceis na educação brasileira. Não! Essa dificuldade não vem de agora, mas chegou nesse instante em um nível que beira o absurdo. A dificuldade disciplinar sempre existiu em sala de aula. A falta de recursos, principalmente nas escolas públicas, é uma constante. A desvalorização do profissional da educação, que vive uma realidade de baixos salários e jornadas extensas e extenuantes, é algo praticamente inerente à profissão. Contudo, nos últimos meses tem se discutido, de forma cada vez mais forte, questões que mexem com algo muito mais complexo, denso, difícil.

Ganham força cada vez maior discursos que defendem uma limitação didática-pedagógica sobre a atuação dos professores em sala de aula. Projetos de lei conhecido como “Escola Livre” ou “Escola sem partido”, abrem possibilidades de uma verdadeira “caça às bruxas”, uma reedição do “macarthismo” sobre os professores. A premissa básica desses projetos é impedir o professor de emitir opinião em sala de aula sobre os assuntos que estão sendo ensinados por eles. A ideia, com isso, é evitar que ocorra uma espécie de “doutrinação” ideológica em sala de aula. Agora, conceitos precisam ser estabelecidos de forma bem clara para que um projeto tão complexo seja plenamente entendido.

O que é opinião? O que é doutrinação? O que é ideologia? A resposta dessas três perguntas se faz essencial para o entendimento dos propósitos do projeto de lei e da aplicabilidade do mesmo. Se eu disser que os índios foram praticamente exterminados pelos colonizadores portugueses que invadiram o Brasil no final do século XV para frente, só aí já emiti diversas opiniões a respeito do início do processo de colonização do Brasil na Idade Moderna. Essa simples frase pode ser interpretada como uma forma de doutrinar os alunos a enxergarem os portugueses daquele período histórico de uma determinada maneira. Essa simples opinião traz nela uma ideologia específica a respeito do assunto tratado. Algumas disciplinas que fazem parte dos componentes curriculares obrigatórios, como História, Filosofia e Sociologia tem em sua metodologia de ensino a construção de um indivíduo que discuta os assuntos por eles estudos e que venha a construir e emitir opiniões sobre os mesmos. Desta feita, apresentar diferentes opiniões e ideias sobre os assuntos faz-se necessário para a construção de um pensamento próprio do aluno. Da mesma maneira, o professor torna-se, inevitavelmente, um emissor da sua própria opinião em algum momento da dinâmica da aula.

Agora, algumas outras perguntas precisam ser pensadas: O que será feito para que essas medidas, essa ideia de uma “Escola sem partido”, sejam atingidas? Não seria uma postura ideológica buscar impedir que opiniões sejam emitidas e, consequentemente, construídas em sala de aula? A quem interessa tal projeto? Será que teremos “patrulhas” dentro da sala de aula? Câmeras filmando nossas aulas e analisadas por censores? Qual será o conhecimento didático-pedagógico que esses censores terão? Serão os censores complemente isentos da influência de um discurso ideológico? Os conteúdos trabalhados em sala serão previamente analisados? Teremos censura prévia? Alunos serão entrevistados a respeito dos conteúdos e da didática dos professores? Quais professores serão alvo da censura? Os componentes curriculares serão reelaborados? Haverá a elaboração de uma lista de assuntos proibidos de serem abordados em sala de aula? Livros serão banidos das bibliotecas? Conteúdos serão reelaborados? Planejamentos serão confiscados para análise? Disciplinas serão excluídas?

Realmente, vivemos tempos difíceis, tempos em que cresce cada vez mais o temor de ser professor, principalmente na área de humanas.


Adolfo Brás Sunderhus Filho

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