caminho entre devaneios

Um espaço para discutir sobre nossa contemporaneidade cotidiana

Adolfo Brás Sunderhus Filho

Entender a fluidez de nossa sociedade nos leva a entender nós mesmos como seres sociais.

SENTIMENTO, ENTENDIMENTO, NARCISO, OUTRO

E quando chegamos em um ponto que não conseguimos enxergar mais o outro? Quando não entendemos coisas simples? Que não nos dispomos a ver a dor alheia e não conseguimos entender e perceber pedidos de socorro que muitas vezes são claros, mas que não nos comovem? Quais são os monstros que carregamos dentro de nós e que precisamos batalha contra eles?


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Vivemos uma realidade na qual a individualidade vem se estendo de uma forma nunca antes vista. É simplesmente assustador. Mas, a todo instante somos incentivados a uma individualidade extremada, a um pensar apenas em si, em deixar o outro em segundo plano, onde pensar na coletividade é visto com um pensamento jocoso, irônico. Pior, pensar no coletivo, no outro, naquele que necessita de ajuda é desvalorizado e ligado primeiro a pensamentos políticos. "É coisa de comunista", "Isso é pensamento esquerdista". "Tá com dó, leva pra casa!". Cada vez mais é isso que temos lido nas redes sociais. E como as redes sociais tem contribuído para a proliferação de uma imbecilidade completa, quase absoluta, como bem nos disse Umberto Eco.

Não imaginemos erroneamente que esse tipo de discurso ultra individualista, que esse preconceito social, político não existia antes. Existia sim e sempre existiu. Mas, antes ele ficava em locais mais específicos. Saía apenas das bocas daqueles que eram vistos (também de forma preconceituosa, importante frisar) como "mal-amados", sozinhos vociferando em balcões de botecos, já com alguns copos a mais de cerveja a influenciar seus pensamentos e a soltar suas línguas. Ou então saiam de bocas que resmungavam alguma coisa nos pontos de ônibus, que indignados por um ônibus lotado que passava ou então por um motorista que não parava no ponto, começavam a falar pelos cotovelos, aos berros, conseguindo a atenção de alguns poucos e vendo outros se distanciarem e balançarem a cabeça negativamente. Mas, poucos os escutavam, o espaço era restrito, era algo momentâneo.

Agora, com as redes sociais, esse comportamento vem ganhando mais adeptos, ouvintes. As pessoas vêm se tornando cada vez mais corajosas, protegidas pela distância que existe entre o que fala e aquele que lê. Afinal, a pessoa que lê muitas vezes está a quilômetros de distância. E, mesmo que não esteja, o vociferador sempre terá a desculpa de que "no Facebook ele não é ele mesmo, é apenas uma brincadeira aquilo tudo", e muita gente acreditará. E não duvido que existem muitas pessoas que sofram dessa espécie de "transtorno psiquiátrico moderno" de dupla personalidade, existindo um "eu" para as redes sociais e um outro "eu" para a vida fora das redes sociais. Afinal de contas, não podemos duvidar de mais nada ultimamente.

Contudo, o ponto em questão e principal que tem assustado a alguns (eu incluso) é ver como a dor alheia não está mais sendo levada em conta. Assusta ver que nesse nível de individualismo em que estamos chegando, e nesse ponto de polarização extremada que estamos vivenciando em nossa sociedade (e nem vou comentar a respeito do soerguimento do extremo conservadorismo na sociedade mundial, que é outra coisa que me assusta deveras). O outro pouco importa, ouvir o outro pouco importa, pensar no outro pouco importa. Importa apenas mostrar a si mesmo, numa busca incessante e incontrolável de satisfazer ao "Narciso" que existe em cada um de nós, justamente aquele que precisamos de maneira cada vez mais forte nos dedicarmos a controlar dentro de nós mesmos, esvaziando-nos de nós mesmos e buscando enchermo-nos do outro, daquele que é diferente de nós, daquele que nos torna melhores, que nos ajuda a crescer, pois o verdadeiro crescimento se dá com aquele que é diferente de nós, pois ele tem algo a contribuir, e não apenas com nós mesmos.

Busquemos então, cada vez mais, ouvir o outro, ver o outro, pensar no outro. Ouvir menos nossas próprias palavras, nossos próprios pensamentos, nos levará a conhecer uma infinidade de novas possibilidades, de novas ideias. Ver com os olhos do outro e não apenas com os nossos olhos. É um desafio constante lutar contra si mesmo, contra o "monstrinho" que existe dentro de cada um de nós. Mas, todos temos "monstros" para lutarmos contra, todos temos batalhas internas as quais nos dedicar. Façamos isso! Lutemos contra nós mesmos!


Adolfo Brás Sunderhus Filho

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