caminho entre devaneios

Um espaço para discutir sobre nossa contemporaneidade cotidiana

Adolfo Brás Sunderhus Filho

Entender a fluidez de nossa sociedade nos leva a entender nós mesmos como seres sociais.

ESPINHOS, SOCIEDADE, EDUCAÇÃO, LUTA

Posicionar-se em defesa da educação é fundamental! Sem educação, a sociedade padece!


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Quantos espinhos existem nos cactos? Quantos espinhos existem em nossa sociedade? A vivência em sociedade é um desafio tremendo, sempre foi. Pensadores desde a Antiguidade Clássica discutem sobre isso. Em seu livro “Ética a Nicômaco”, Aristóteles nos traz ensinamentos muito importantes, essenciais para a convivência social. No período da Idade Moderna, pensadores como Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, entre outros, debruçaram-se sobre as relações sociais e políticas, trazendo importantes contribuições para o entendimento do funcionamento da sociedade de sua época.

Assim como filósofos se preocupavam até o século XIX em compreender as estruturas de funcionamento da sociedade, a partir da fundação da sociologia, com Auguste Comte, essa área de conhecimento passou a ser a aquela que mais a fundo se dedica a compreender a sociedade, suas estruturas de funcionamento, suas formas de organização, etc. No que tange a sociologia brasileira, importantes intelectuais como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda (para citar apenas os basilares) se dispuseram a analisar o processo de formação da sociedade brasileira, buscando nas raízes coloniais e nas relações que essa forma de exploração trouxe, as bases da brasilidade. Não é de hoje que há dificuldade para o diálogo em nosso país. Desde o começo de nossa colonização houve uma dificuldade mais do que clara. A relação estabelecida entre nativos e colonizadores, a violência da escravidão sobre o negros que vieram para o Brasil. Se olharmos apenas a partir da proclamação da república, contexto histórico no qual se deu a produção científica dos sociólogos brasileiros veremos que “paz, tranquilidade, sossego e calmaria” nunca foi uma marca da nossa sociedade. Revoltas, rebeliões, guerras civis, ocorreram aos montes, pelo país inteiro.

Todo esse entendimento e essas informações sobre a sociedade só são possíveis com incentivos a produção científica, com a valorização de todas as áreas de conhecimento, com a atuação por parte de pesquisadores e intelectuais das ciências humanas. E, então, chegamos aos espinhos do início do texto. Nos últimos dias, alguns espinhos tem doído, machucado de maneira forte a sociedade brasileira. Esses espinhos tomaram forma em ataques feitos às áreas de ciências humanas e às universidades e institutos federais e estaduais de ensino superior, ataques esses feitos pelos governantes do país, por aquele que é responsável pelo ministério que comanda a educação de nossa nação. O corte de verbas anunciado é um ataque como há muito não se via em nosso país. São cortes em verbas que já estavam previstas, que já constavam em orçamentos para todo o ano de 2019, e que simplesmente foram suspensas, de maneira arbitrária, sem justificavas plausíveis. Na verdade, a justificativa dada era que haveria um foco maior em investimentos na educação básica (níveis fundamental e médio de ensino). Contudo, não demorou muito para que chegasse a público que verbas voltadas para a educação básica também foram cortadas de maneira sumária pelo governo federal.

Esses espinhos doem demais em quem dedica a sua vida à educação. Professores, coordenadores, diretores, alunos. Todos estão machucados por essas notícias, por essas ações. O clima é de consternação, de medo, de incerteza, de insegurança. Tem sido difícil entrar em sala de aula, como professor de história, filosofia e sociologia, ministrar minhas aulas, abordar meus conteúdos, em um país no qual governantes (e muitos governados) escancaram de maneira tosca e desrespeitosa a sua falta de consideração para com aqueles que estão em sala de aula, seja ministrando suas aulas, seja na função de alunos. Contudo, assim como não é de hoje a dificuldade de diálogo em nossa sociedade, também não é de hoje a desvalorização da educação em nosso país.

Educar é lutar, sempre! Um professor que admiro, o historiador Leandro Karnal, professor na Unicamp, diz que o otimismo deve ser uma característica presente em todo profissional da educação. Está difícil ser otimista frente a toda essa realidade, porém eu continuo a levantar todos os dias pela manhã, a sair do conforto de minha cama e vou até as escolas em que trabalho, ministro minhas aulas, aplico as atividades previstas em meus planejamentos, levo aos alunos o conhecimento, incentivo nos mesmos o desenvolvimento de uma consciência própria, crítica, com a esperança de que isso fará diferença, tendo em mente a fala do patrono nacional da educação, Paulo Freire, tão perseguido e tão incompreendido em sua importância no país no qual ele nasceu e pelo qual ele lutou, e tão respeitado fora dele: “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Dessa forma, mudando as pessoas, transformaremos esse mundo de espinhos.

Crédito da imagem: José Mario Gonçalves, professor e pastor presbiteriano


Adolfo Brás Sunderhus Filho

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