campo de visão

Algumas observações sobre literatura, cinema e fotografia

Rodrigo Villela Pereira

Alguém que considera profundamente triste uma vida sem jazz, livros e torta de limão

Por um mundo de Filo-Sofia

Há quem diga que filosofia não serve para nada. Outros jamais demonstraram qualquer espécie de curiosidade nesse sentido. Já alguns simplesmente não tiveram oportunidade de conhecer ou possuem interesse mas não sabem como se aprofundar. Caso você, felizmente, faça parte deste último grupo, existe uma solução: um romance chamado "O Mundo de Sofia", de Jostein Gaarder.


Sophie's world.jpg Cena do filme Sofies verden ("O Mundo de Sofia", 1999)

Certa vez, um filósofo francês (com nome de russo) chamado Vladimir Jankélévitch escreveu: “Filosofar é comportar-se perante o universo como se nada fosse evidente”. Não tenho como afirmar que o escritor norueguês Jostein Gaarder, autor da famosa obra "O Mundo de Sofia", conhecia o trabalho deste pensador. No entanto, se seu livro possui alguma meta ou objetivo para com seus leitores, creio que seja o de mostrar que NADA é evidente. Mas fique calmo! Não deixe nenhuma crise existencial tomar conta da sua alma agora. Você não acha que, sendo tudo evidente, tudo com uma resposta certa e única, talvez a vida não tivesse graça? Nosso nível de curiosidade, por exemplo, seria drasticamente menor. Devemos levar em conta que esse cenário confuso onde vivemos possui uma grande vantagem: é um local que permite a criação de diversos questionamentos, promovendo o aprendizado no lugar do ócio. Mesmo perguntas clichês como “quem somos?”, “de onde viemos?” ou “para onde vamos?” são de suma importância, já que o papel do filósofo na sociedade é o de perguntar e aprender constantemente. Nesse aspecto, pode-se dizer que "O Mundo de Sofia" é um dos guias de como filosofar mais democráticos que você poderá encontrar.

Assim como muitos, meu primeiro contato com a filosofia aconteceu no ensino médio. Lá aprendi algo sobre quem eram os pré-socráticos; que Sócrates talvez não tenha existido; que Platão talvez tenha inventado Sócrates; que Kant é muito difícil de ler e que Nietzsche é o filósofo da moda. Entrei na faculdade e cursei uma disciplina de introdução à filosofia, onde estudei o mesmo que antes e um pouco mais. A conclusão sobre o conhecimento adquirido foi a seguinte: não absorvi grande coisa. Por incrível que pareça não desanimei com esse ensino um tanto quanto precário. Comecei a gostar especificamente de história da filosofia, mas confesso que nunca havia parado para pensar em seu funcionamento na prática e no mundo contemporâneo. Isso, de certo modo, mudou quando terminei de ler o livro deste escritor norueguês. Claro que não virei nenhum Schopenhauer, mas foi a melhor introdução que tive até então.

O Mundo de Sofia Selo Seguinte.jpg Capa do livro "O Mundo de Sofia", da editora Companhia das Letras (Selo Seguinte, 2012)

O livro conta a história de Sofia Amundsen, uma jovem norueguesa de 15 anos que recebe cartas e cartões-postais com conteúdos esquisitos e curiosos. No início as cartas possuem perguntas como “quem é você?” ou “de onde vem o mundo?”. Posteriormente, as informações vão ficando mais complexas, até se tornarem um verdadeiro curso intensivo de filosofia. Todas são enviadas por uma pessoa misteriosa, alguém que deseja transmitir esse conhecimento de qualquer maneira. Enquanto isso, Sofia também recebe estranhos cartões-postais com mensagens referentes ao aniversário de uma menina chamada Hilde, cujo remetente é um major da ONU. A trama se torna um thriller que impede qualquer leitor de largar o livro, fazendo-nos questionar sobre o que pode estar acontecendo.

Na minha visão, a escrita de Jostein Gaarder é deliciosa e flui maravilhosamente bem. Sofia é uma protagonista cativante, além de absurdamente inteligente para uma criança de 15 anos. Se você não tiver um professor fantástico, talvez este livro seja uma boa maneira de mergulhar pela primeira vez neste universo. Não é um livro de especialização ou para usar como base teórica na sua tese de doutorado, mas sim para despertar ao menos um mísero interesse naqueles que tiveram pouco / nenhum contato com a área. Acho, inclusive, que essa é a proposta de Gaarder. Contudo, também ressalto que, em alguns momentos, a obra pode ser um pouco cansativa, pois fala de muitos filósofos, teorias e pensamentos num curto espaço. Talvez o leitor iniciante, com uma bagagem de leitura menor, tenha alguma dificuldade. De qualquer modo isso é facilmente compensado pela fantástica história paralela.

Jostein Gaarder foto.JPG Jostein Gaarder (Foto de Jarle Vines / Fonte: Wikimedia Commons)

Resenhas sobre O Mundo de Sofia não faltam. São mais de 1 milhão de exemplares vendidos apenas no Brasil... imagine no mundo. Por consequência dessa grande exposição, temos vários pontos de vista disponíveis a partir de poucos cliques. No geral, como em inúmeros casos, tratam-se de críticas diversas, seja para o livro, seja para o autor. A discussão faz parte, apesar de não ser nenhum livro polêmico. Já diria um outro pensador: "Para evitar críticas, não faça nada, não diga nada, não seja nada". Alguns adoram a história, consideram-na uma verdadeira obra-prima. Do outro lado, acredito que em menor quantidade, temos os mais críticos em relação à proposta introdutória de Gaarder. Geralmente são os que acharam o livro maçante, mas também os estudiosos da área, que podem argumentar que o ensinado na obra não condiz com o aprendido no curso superior. A verdade é que isso sempre acontece com qualquer área do conhecimento. Por exemplo: um jornalista que escreve sobre história de maneira que seu livro abrace um maior público costuma ser criticado por historiadores; um escritor que simplifique algum livro clássico para alcançar mais pessoas é geralmente crucificado por críticos literários; entre outros.

Possuo uma visão bem mais otimista, já que considero uma leitura que tem muito para oferecer. Melhor ainda se você é daqueles que tem o saudável hábito de pesquisar sobre os autores ou pensamentos citados nos livros, tendo em vista que neste você encontrará vários. Sempre fui tentado a admirar pessoas que busquem expandir e tornar acessível determinadas áreas do conhecimento. Esse tipo de atitude, a mesma que Gaarder tem com a filosofia, beneficia muito mais o mundo do que limitando a "sabedoria" para o meio acadêmico ou para um determinado número de privilegiados. Aconselho e indico para todos que quiserem ler uma boa história e, ao mesmo tempo, obter um nova maneira de enxergar a realidade, mesmo que este seja ainda o primeiro passo. Afinal, você não tem nada a perder e muito a ganhar neste Mundo de Filo-Sofia.


Rodrigo Villela Pereira

Alguém que considera profundamente triste uma vida sem jazz, livros e torta de limão.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Rodrigo Villela Pereira