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Algumas observações sobre literatura, cinema e fotografia

Rodrigo Villela Pereira

Alguém que considera profundamente triste uma vida sem jazz, livros e torta de limão

Uma Questão Pessoal: a polêmica obra de Kenzaburo Oe

Somos desafiados pelo destino em algum momento de nossas vidas. Nessas horas, em que o irreversível ou o assustador ocorre, o que você faz? Abraça a tentadora fuga ou enfrenta seus problemas de frente? O perturbador e polêmico livro "Uma questão pessoal", do escritor japonês e nobel de literatura Kenzaburo Oe, trata justamente dessa difícil situação.


ken.jpg Kenzaburo Oe em Paris, no Salon du livre 2012 (Fonte: Wikimedia Commons / Thesupermat)

Alguma vez você já se pegou pensando em como seria sua vida se algo drástico acontecesse? Algo que, com absoluta certeza, modificaria seu modo de viver até então? Muitos de nós já fizemos isso, mas cabe ainda refletir: como reagiríamos diante da tal situação? Faríamos ou não o que é socialmente aceito? Não nego que seja algo doloroso de se pensar e que a grande maioria prefira ficar na zona de conforto. Talvez alguns até já tenham passado por momentos irreversíveis e decidam não refletir ou falar sobre. No entanto, essa não é a postura do escritor japonês e Nobel de Literatura (1994) Kenzaburo Oe, autor de "Uma questão pessoal" (Companhia das Letras, 2003). Sem dúvida essa é uma das obras mais corajosas que tive a oportunidade de ler nos últimos tempos.

Uma situação incontornável já ocorreu na vida desse autor: em 1963, seu filho Hikari Oe nasceu com problemas físicos e autismo. Os médicos tentaram convencer seus pais de que deixassem o filho falecer pois, devido suas condições, ao longo do tempo a criança não resistiria. Essa hipótese foi ignorada após uma cirurgia, contudo Hikari permaneceu com problemas de visão, epilepsia, baixa coordenação motora, além de praticamente não falar. Descobriu-se, algum tempo depois, que Hikari tinha dom para música, pois conseguia imitar o som dos pássaros com precisão. Hoje é um compositor com trabalhos já publicados. Seu pai, Kenzaburo Oe, faz questão de abordar essa relação de pai e filho em suas obras.

O cenário do livro é muito semelhante, mas tratando do tema sob a ótica do egoísmo e da covardia. O protagonista, chamado Bird (apelidado com esse nome aos 15 anos pois lembrava, fisicamente, um pássaro), é um professor de cursinho de vestibular, apaixonado por mapas e sonhador, sempre imaginando e planejando sua viagem para o continente africano, onde viveria grandes aventuras. Infeliz em seu relacionamento e vida profissional, Bird recebe a notícia de que terá um filho. Apenas isso foi suficiente para desencadear preocupações, já que seus planos e desejos seriam deixados de lado.

img076.jpg Uma questão pessoal (Companhia das Letras, 2003)

O egoísmo do protagonista é tamanho que, enquanto sua esposa está na sala de parto, ele está comprando um novo mapa para sua coleção. Quando descobre que seu filho nasceu com uma anomalia cerebral e que terá uma vida vegetativa, Bird passa não apenas a desejar a morte da pobre criança, como também retorna ao seu problema de alcoolismo. Em certos momentos, os pensamentos imaturos do protagonista chegam a provocar angústia no leitor. O anseio pela morte de seu filho é, inicialmente, uma vergonha pessoal. Com o tempo o egoísmo se sobrepõe, pois o recém nascido é visto como um impedimento para sua fútil e infantil felicidade. Um trecho da obra mostra bem essa situação:

“- Uma vida vegetativa... O médico se calava sem ir direto à resposta, que Bird aguardava em silêncio. De repente, Bird teve a clara consciência do desejo vergonhoso que surgira nas entranhas de sua mente no momento em que tomara conhecimento, na recepção da pediatria, de que a criança estava viva. O desejo crescera com a espantosa rapidez de um bando abjeto de moscas negras e desde então vinha ganhando contornos nítidos. Ai de mim e de minha mulher com essa criatura vegetal, esse bebê-monstro atrelado a nossas vidas! Preciso fugir dele. Do contrário, o que será de minha viagem à África? Aflito, Bird se encolhia, como se o bebê-monstro estivesse para atacá-lo da incubadora através da parede envidraçada. Mas que vergonha! O egoísmo o infestara como verme intestinal, o rubor lhe vinha à face, transpirava por todos os poros.” (p.105)

A obra afetará para mais ou ou para menos o leitor conforme sua própria experiência de vida. Além disso, é um livro duro de ler. Não pela técnica em si, que por sinal é magnífica (básico para um Nobel de Literatura, né?), mas pelo tema que toca. Sendo assim, não se trata de uma obra para leitura descompromissada, apenas por lazer ou hobbie. Kenzaburo Oe nos faz imaginar como reagiríamos se estivéssemos no lugar de Bird, colocando à prova nossa hipocrisia.

O que mais vale ressaltar é o seguinte: Uma questão pessoal não é apenas como um toque na ferida ou um texto que simplesmente quer causar um momentâneo incomodo. Esse pequeno livro seria melhor descrito como uma espécie de tratamento de choque. Existe nele uma lição muito clara e, inclusive, bela. Temos duas direções que podemos seguir quando uma situação drástica ocorre: a da negação, onde o indivíduo fica sonhando com seu passado e recusa-se a aceitar a nova condição; e a do amadurecimento, onde se aprende a lidar com aquele novo horizonte da melhor maneira possível. Kenzaburo Oe deseja mostrar ao leitor que toda crise é também uma oportunidade para rever seus conceitos e melhorar como pessoa.

Para finalizar, uma bela composição de Hikari Oe:


Rodrigo Villela Pereira

Alguém que considera profundamente triste uma vida sem jazz, livros e torta de limão.
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