Mariana Sá Lemos Teixeira

Os «caixotes» em que vivemos...

Os «caixotes» em que vivemos, ou os chamados prédios, que contribuem para o corte das relações sociais, que nos levam a um maior individualismo, que tiram as recordações do triciclo no pátio da avó, ou no quintal do tia...São estes os «caixotes» em que vivemos!


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Vivemos em caixotes, não de papelão, não de madeira, não daqueles que vemos nos filmes de Hollywood, ou nos sem-abrigo numa madrugada gelada. Vivemos em caixotes sim, mas de betão, aço, cimento, vidro e tijolo. Construímos prédios cada vez maiores, 20, 30, 40 andares…e o que é isso? Nada porque há aqueles de 50,60, 70 andares.

Ao mesmo tempo as nossas relações sociais desmoronam-se, tal como baralhos de cartas empilhados. São frágeis, efémeras, corredias.

O ser humano tornou-se cada vez mais individualista, e acreditem, que o processo de urbanização das cidades é um dos maiores factores que leva a este individualismo. As cidades crescem, a vida intensifica-se, aumenta a rapidez do dia-a-dia. O «corre-corre» mais parece um «sprint» e todos temos de ter um pouquinho de Usain Bolt dentro de nós para acompanharmos estas mudanças.

Muitos sociólogos chamam a atenção para estas mudanças, e para a forma como elas influenciam os grupos, as famílias, as sociedades. Hoje cada vez mais assistimos a um aumento das taxas de divórcio. E não, não digam só que é a economia que está má. Não nos falta só dinheiro, falta-nos T-E-M-P-O. O precioso tempo, tempo para estar, amar, sorrir, abraçar, viver e conviver com aqueles que são importantes. Saímos de madrugada dos nossos «caixotes», aglomerados de pessoas dirigem-se para os seus transportes, trabalhamos, fazemos uma breve pausa (porque ainda não nos tornamos totalmente robôs e então necessitamos de nos alimentar). Voltamos a trabalhar, vamos buscar os nossos filhos à escola, onde eles também «trabalharam» todo o dia…E lá chegamos de novo aos nossos «caixotes», cansados, esgotados, sem baterias. E o tempo? E o convívio? Alguém dizia “cada vez mais os lares se tornaram dormitórios”.

Temos pouco tempo para as tarefas domésticas, ainda menos para conversas banais, para brincadeiras do momento, para parar no tempo enquanto observamos os nossos filhos a dormir. E dizem que é a economia? Não. É o tempo.

E ao fim de semana…vivemos nos nossos «caixotes» encafuados, dentro deles. Abatemos árvores e cortamos nos espaços verdes porque precisamos de espaço para mais «caixotes». Vivemos no e para o nosso lar. Não conhecemos o vizinho da frente, nem do lado, nem o que está no primeiro andar ou no rés-do-chão. E sinceramente também nem temos curiosidade em conhecer. Porque tal como vimos nas noticias, pode ser mais um «maluco», mais um «pedófilo», mais um «estranho». E então assim continuamos, a viver nas nossas gaiolas, a dispor de pouco tempo para respirarmos o ar da convivência com os outros.

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Trocámos os pátios, as noites de fogueira com os vizinhos, as festas de bairro «até às tantas», pelos «quadradinhos» amontoados que juntos perfazem grandes e espectaculares edifícios de cinquenta ou sessenta andares, merecedores de prémios de arquitectura.

E o tempo? Esse vai passando, assim como a família, os amigos e a vida…e rapidamente se transformam em cinza que o vento levou. Mas os «caixotes»? Esses continuam, firmes, de betão gelado, em pé…à espera das gerações seguintes.


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