Tarciso Galli

Dormir e acordar tarde. Prefiro Stones a Beatles

Queria não estar

O sentimento de não pertencer não se refere a viver em uma metrópole, mas a um conjunto de irracionalidades e de consequências doentias.


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São Paulo. Rua Augusta. Cerca de meia-noite. Um grupo de amigos bebe tranquilamente em uma esquina e o que acontece é o de sempre: cerveja, cigarro, garçons engraçadinhos, crianças vendendo chiclete, gente pedindo dinheiro, viaturas etc. Até que algo sai da regularidade. Um homem, possivelmente bêbado ou drogado, aborda o grupo, fala algumas coisas que não se pode entender e é imediatamente interrompido pelo segurança do estabelecimento. Tensão, intenções de empurrões e, de repente, um soco. Um único soco forte o suficiente para fazer o homem cair desacordado e bater a nuca na calçada. O segurança, com ar vitorioso, insiste em tentar reanimar o homem, é ajudado por um garçom a carregá-lo ainda entorpecido pelo golpe para um local distante dos clientes e a noite continua, pelo menos para a maioria.

Se antes pouca coisa parecia certa, agora quase tudo parecia errado. É incrível como nos acostumamos a tudo, inclusive ao que não deveria fazer sentido. Compramos o chiclete da criança, damos dinheiro a quem pede e nossas consciências ficam tranquilas. Isso não é um discurso pacifista ou baseado no “politicamente correto amante dos fracos e oprimidos”, é um relato e uma reflexão sobre nossa tendência de nos desumanizar sem perceber.

Não conheço e não vou conhecer as vidas dos homens envolvidos na cena descrita. Pode ser que o que apanhou seja um um viciado, um ex-vendedor de chiclete ou um encrenqueiro. Pode ser também que o que bateu seja um revoltado sedento por alguma espécie de vingança ou uma daquelas pessoas que odeiam viciados. As possibilidades são inúmeras, mas absolutamente irrelevantes. O que aconteceu foi um exemplo de como a irracionalidade pode ser traduzida em violência, foi uma demonstração de total incapacidade de lidar com outro ser humano e de como a brutalidade e a selvageria podem se manifestar em decorrência de um motivo banal.

Outro ponto a ser destacado é o da relação com o poder. Entender o outro como menor, mais fraco e menos importante é um dos argumentos para determinar que se tem poder e direito sobre a vida alheia. O agressor se sentiu superior e detentor de um poder irreal e arbitrário, considerou que deveria dominar a situação, que tinha direito de fazê-lo com agressividade, julgou o agredido como incômodo e agiu de forma ilegítima, descabida e inconsequente.

Tão assustadora quanto a própria barbárie é a facilidade com que a aceitamos e incorporamos ao cotidiano. “As coisas são assim mesmo” e “Deixa isso pra lá” são algumas das reações e conceitos que nos guiam. A sensação é de que o problema não é nosso, de que não há nada a ser feito e não há opção a não ser compactuar.

Viver em uma metrópole é como estar em uma panela de pressão e quando a válvula libera o vapor é que entendemos o perigo que está ali, mas como o equilíbrio de uma forma ou de outra se mantém, não nos preocupamos. Temos certeza de que não vai explodir e seguimos.

O que queria mesmo era não estar, pois pertencer já não pertenço. Não é que não pertenço mais às buzinas, às enchentes e à urgência, não pertenço a esse ciclo de intolerância, passividade e falta de empatia justificado sempre de forma tão ignóbil.


Tarciso Galli

Dormir e acordar tarde. Prefiro Stones a Beatles.
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