Tarciso Galli

Dormir e acordar tarde. Prefiro Stones a Beatles

O desassossego de Otto

Assistir a um show do Otto é confirmar que a música pode ser autêntica, insubordinada e redentora. É uma incursão frenética por ritmos, textos e comentários de alguém que tem compreensão e interesses peculiares.


OTTO

Descendente de holandeses, pernambucano de Belo Jardim, percussionista, cantor, compositor, carismático e inquieto, Otto participou da gênese do mangue beat ao lado de Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. O disco de estreia da carreira solo, Samba pra burro, permeado por uma fusão de regionalismos e música eletrônica, deixava explícitas sua ampla capacidade criativa e personalidade indomesticável. Desde então, ciranda, drum’n’bass, samba, Candomblé, Umbanda, cinema, literatura, psicodelia, música popular, cotidiano, amores e perdas são alguns dos elementos que compõem sua obra.

Os discos seguintes, Condom Black, Sem Gravidade, Certa Amanhã Acordei de Sonhos Intranquilos e Moon 1111, além de Changez Tout - Samba pra Burro Dissecado (remix do Samba pra Burro) e MTV apresenta Otto (ao vivo), surgem como resultados de uma carreira dinâmica e em constante amadurecimento.

As entrevistas nos dão a ideia de ser uma daquelas pessoas que estão sempre pensando em uma infinidade de coisas ao mesmo tempo, duvidando, descobrindo e fazendo conexões que, embora possam parecer ilógicas aos intelectualmente menos dispostos e atentos, são carregadas de sentido e sutilezas que fazem com que seu universo interior seja agitado e tenha frequente necessidade de ser revelado.

Ao vivo essa intensidade é potencializada e aflora sem ressalvas. Numa época de letras, harmonias e performances previsíveis e insossas endossadas por uma mercado oportunista e um público cada dia mais apático, assistir a um show do Otto é como se deparar com um oásis de autenticidade, emoção, sublevação e grandeza artística. O palco é o local onde tudo que fervilha por dentro é finalmente manifestado em sua plenitude. Canta, toca, dança, joga água na cabeça, anda pela platéia, conversa e proporciona uma celebração espontânea, envolvente e sem frescura. Imerso na arte e em comunhão com a banda e o público, faz do show algo sinérgico e catártico.

A música parece ser a melhor solução para concatenar e equilibrar o fluxo de seus sentimentos, reflexões e referências.


Tarciso Galli

Dormir e acordar tarde. Prefiro Stones a Beatles.
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