Tarciso Galli

Dormir e acordar tarde. Prefiro Stones a Beatles

O indivíduo capaz

A principal luta, a que realmente é corajosa, é aquela a favor do pleno respeito, entendimento e disposição à contribuição ao ser humano em sua subjetividade independente do grupo ao qual pertence, o que é possível através de uma ligação efetiva com o próximo.


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Vivemos em competições permanentes, não só para saber quem é o mais rico ou bonito, mas para saber quem é o mais inteligente, mais culto, mais interessante, para saber quem se diverte mais e até para saber quem é o mais diferente.

São competições totalmente estúpidas e nas quais já entramos derrotados, pois sempre haverá alguém melhor que nós. Admitir a sociedade como parâmetro faz os indivíduos inseguros e enfraquecidos em relação às próprias características e inconscientes das reproduções e disputas às quais são estimulados. O parâmetro deveria ser o indivíduo, não por ser um modelo intocável, mas por ser o ponto de partida. Ele, por sua vez, deveria se aprimorar não pela exposição, mas para ser verdadeiramente melhor do que era.

Colocar o indivíduo como parâmetro e evidenciar a necessidade de desenvolvimento de suas capacidades não tem relação com individualismo ou egoísmo e nem os justifica, é justamente o contrário. Indivíduos capacitados são mais equilibrados e mais preparados para o convívio social. São mais preparados por terem maior compreensão e maior poder de aceitação, o que está diretamente ligado ao respeito e a evitar conflitos imaturos ao ponto de torná-los insignificantes.

O desenvolvimento individual é na prática o que permite que o ser se liberte da redoma do individualismo e da covardia, pois é a partir dele que se compreende como parte ativa no coletivo. Temos inclinação maior a nos ligar a causas sociais muitas vezes propagadoras de estereótipos do que de nos ligar efetivamente às pessoas. Carregamos alguma espécie de culpa que precisa ser compensada através da defesa de determinados grupos ou minorias sociais presumidas como frágeis e necessitadas de proteção.

Sentimo-nos culpados pela pobreza, mas não dividimos nossa riqueza. Sentimo-nos culpados pela fome, mas não dividimos nosso almoço. Levantar bandeiras de partidos políticos e movimentos sociais ou fazer postagens gigantescas em redes sociais podem parecer meios eficazes de transformação, mas acabam servindo mais para nossa própria satisfação.

Sentimo-nos satisfeitos por entender que colaboramos e fortalecidos por fazer parte de grandes blocos massificados de defesa do outro. Lutamos pelos direitos dos oprimidos e nem nos damos conta da opressão da qual somos responsáveis e poderíamos evitar. Nos sensibilizamos com causas sociais pelo conforto de ser uma relação impessoal. A base do convívio social é anterior ao coletivo e para que haja harmonia temos de ser justos e honestos em todos os âmbitos e proporções.

A principal luta, a que realmente é corajosa, é aquela a favor do pleno respeito, entendimento e disposição à contribuição ao ser humano em sua subjetividade independente do grupo ao qual pertence, o que é possível através de uma ligação efetiva com o próximo. Não sugiro que tenha de ser uma ligação íntima e duradoura ou que tenhamos de gostar de todo mundo.

A ligação deve ser dissociada de preferências e preconceitos e deve ser uma prática contínua e habitual. A ação de se ligar a uma pessoa pode acontecer de várias maneiras: ouvindo-a, sabendo interpretá-la ou valorizando sua presença, pensamentos, medos e anseios. Acontece quando a relação passa a ser pessoal, de um ser humano para o outro, em termos de igualdade de direitos e preferencialmente de forma incondicional. Grandes conflitos surgem de deturpações no âmbito das relações pessoais e é através delas que podemos melhorar nosso convívio social.


Tarciso Galli

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