caótica serenidade

Em constante processo de construção e desconstrução

Aline Eva

Manuel Bandeira: o poeta da ternura, da simplicidade e da melancolia

É difícil definir com palavras quem foi Manuel Bandeira, escritor e poeta brilhante: alguma coisa importante sempre há de escapar. Mas a sua obra possui traços característicos absolutamente inconfundíveis e que merecem ser observados com muito mais atenção e carinho. Para entender a obra de um autor, muitas vezes o contexto é importante. Entender a história que é contada é tão relevante quanto saber quem está contando a história.


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Nascido em Recife, no dia 9 de abril de 1886, Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho ou simplesmente Manuel Bandeira foi um poeta que entendeu a dor e a melancolia como poucos e conseguiu transmitir seus sentimentos para os textos de maneira sublime. Também escreveu com muita propriedade sobre as coisas simples.

Passou parte da infância no Rio de Janeiro, mudando-se posteriormente para São Paulo. Já em São Paulo, fez sua matrícula na Escola Politécnica para tornar-se arquiteto. Estudava também desenho e pintura no Liceu de Artes e Ofícios.

No final do ano de 1904, contudo, ele descobre ser portador de tuberculose e volta para o Rio de Janeiro. A descoberta da tuberculose foi um divisor de águas em sua vida: passou a viver como se fosse morrer a qualquer instante. Ironicamente, não morreu rápido como previa. Deixou de lado a faculdade e outros planos e sonhos por acreditar que não viveria o suficiente e para tratar de sua sofrida doença. Viajou para vários lugares para tratar a tuberculose e para ter uma melhor sobrevida.

Mas em vez da morte vir ao seu encontro, o que ocorreu na realidade foi a perda de seus entes queridos: primeiramente sua mãe, Francelina, em 1916. Em 1917, ele publica seu primeiro livro: A cinza das horas. Em 1918 perde sua querida irmã, que se dedicava a cuidar dele em virtude da doença; e posteriormente também perde seu pai. Ele faleceu somente aos 82 anos, muito tempo depois de perder boa parte de seus familiares e amigos.

A obra toda do autor é permeada por algumas ideias principais: a nostalgia da infância, a vida que poderia ter sido e não foi, a melancolia da doença e da solidão, a beleza de valorizar cada pequeno sopro de vida, a ternura que não se consegue perceber à primeira vista, a humanização das pessoas marginalizadas e a poesia escondida no cotidiano.

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

— Diga trinta e três.

— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .

— Respire.

......................................................................................................

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

No poema Pneumotórax pode-se perceber claramente a influência da tuberculose nos textos escritos por Bandeira e também a ideia – frequentemente presente na obra do autor – da vida que poderia ter sido extraordinária (e que, na visão dele, não foi).

O impossível carinho

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo

Quero apenas contar-te a minha ternura

Ah se em troca de tanta felicidade que me dás

Eu te pudesse repor

- Eu soubesse repor -

No coração despedaçado

As mais puras alegrias de tua infância!

No poema O impossível carinho, o escritor demonstra outra de suas facetas: a ternura e a nostalgia da infância. Em muitos outros poemas essas características se repetem e a suavidade com que escolhe as palavras muitas vezes nos remete às nossas próprias experiências, causando uma delicada comoção: não exagerada, mas ainda assim profunda.

Poética

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário

o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbados

O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

No poema Poética o autor contesta a rigidez de regras para a escrita, defendendo um lirismo livre, libertador e mais humano, sem burocracia e mais próximo da proposta do modernismo: um lirismo mais visceral e menos purista, mais autêntico e menos técnico. Demonstra também outra de suas características: a afeição por aqueles que normalmente não são considerados dignos de atenção, como os bêbados. Em outros textos, ele também demonstra sutilmente sua afeição por tipos suburbanos, por prostitutas, por suicidas e outros entes marginalizados. Bandeira parecia compreender e nutrir alguma afeição por estas pessoas e possivelmente isso se devia ao fato dele próprio em certo sentido viver à margem em razão da doença e dos preconceitos que vêm junto com ela.

O último poema

Assim eu quereria meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Por fim, em O último poema vemos a valorização e a exaltação da beleza que existe nas coisas simples e também mais uma demonstração de como este tema da sutileza e da ternura do cotidiano é caro para Bandeira.

De acordo com o poema, o que ele mais queria era finalizar sua obra com um poema que transmitisse enorme riqueza de sensações em poucas palavras, que passasse a intensidade dos sentimentos sem soar exagerado e que transmitisse a sua dolorosa tristeza transformando-a em algo bonito.

Não apenas no último poema, mas em toda a obra de Manuel Bandeira, o objetivo parece ter sido plenamente atingido: são livros repletos de beleza, melancolia e sutileza, que emocionam e fazem brotar sorrisos em leitores de todas as idades.


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