capivara branca

sem pretensão nem palavra difícil

Victor Hugo Liporage

Gosto de filme chato, livro mal escrito, pagode dos anos 90, visto sunga, samba canção com cueca por baixo e sou adepto da homeopatia. Não falo de mim na terceira pessoa porque já li o Bukowski dizendo que é besteira - e acho que devemos respeitar a opinião dos idosos

As discussões olímpicas para além da crise econômica

Simbolismos marcantes da Rio-2016 no povo brasileiro, no esporte, na política nacional, nos tabus internacionais e na minha vida.


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Eu e a galera do meu colégio tivemos que ir à escola durante as olimpíadas, como forma de punição por termos ocupado. As ocupações por si só mostravam que o Rio não tinha clima pras olimpíadas. Não o tipo de clima que o prefeito Eduardo Paes gostaria de mostrar na campanha dele. Até que, voltando da aula, parei pra comer uma coxinha e uma torta de limão na padaria e vi a Rafaela Silva ganhar o ouro na TV. Cercado por pães e mortadelas.

Subi a rua, cheguei em casa e descobri que Rafaela Silva é da Cidade de Deus. Vi que tinha sido chamada de macaco. Não tardou pra descobrirem que a mina também é lésbica.  Já era. Todo mundo adora uma história de superação. Era dia 8, segunda. Naquele momento, Rafaela me botou num clima olímpico.

Decidi viver os jogos, mas à minha maneira. Nada de ingresso, arena ou estádio. Levei minha vó pro Boulevard Olímpico, torcemos pelas meninas da ginástica, comemos pizza superfaturada e assistimos Johnny Hooker e Elza Soares cantarem. Ela olhava pro lado e via um casal de homens se beijando; do outro, um casal de mulheres. Atrás, um beque sendo enrolado.

“Victor, nunca vi isso na minha vida!”. Primeiro legado olímpico.

1-qMGIjjL5GZfaKOU4RvUg1g.jpegEla repetiu o mesmo “nunca vi isso na minha vida!” pro navio do time americano de basquete.

Depois da choque cultural da minha vó, notei que o evento tinha vários simbolismos. Pro bem ou pro mal. Já era dia 9. Resolvi anotar tudo de simbólico que acontecia nas olimpíadas.

Elas

O poder de Karol Conka e MC Soffia chegou na abertura em música de empoderamento feminino. Lá no Boulevard, Elza Soares fez questão de repetir o nome de Rafaela Silva no palco — quantas vezes fosse necessário. “A carne mais barata do mercado é a carne negra”. A carne que deu nosso primeiro ouro na Rio-2016 também é negra e carrega todas as mazelas históricas de sua etnia. Lea T. foi a primeira transexual a ter destaque na história da abertura dos jogos. Em campo, um pedido de casamento da voluntária Marjorie Enya à Isadora Cerullo, do rúgbi, simbolizando a olimpíada mais a mais gay da história, e logo na multigênero Rio de Janeiro. Que carnaval delicioso. 

Várias minas tiveram sua primeira vez. Poliana Okimoto foi a primeira nadadora a dar uma medalha olímpica ao Brasil, enquanto Simone Manuel ganhava a primeira medalha de uma nadadora negra. Esta, ainda mais simbólica. Há alguns anos, negros não podiam dividir piscinas com brancos nos EUA. Não se constroem piscinas públicas em bairros onde predominam residentes negros, mostrando o quanto os EUA ainda segregam. A representatividade de Simone é importante para que a natação não seja um esporte segregado a brancos. Em entrevista, ela disse: “espero que, no futuro, haja mais de nós e não apenas a ‘Simone, a nadadora negra’”.

“Eu não sou o próximo Usain Bolt ou Michael Phelps. Sou a primeira Simone Biles”. As primeiras Simones defendem a representativade negra e feminina. Uma na água, outra no ginásio. A Biles levou 4 ouros e 1 bronze pra casa. Um tapa na orelha de narradores que insistem em definir mulheres como “Neymar de saia” ou “versão feminina do Pelé”.

Outro caso de exemplo foi Fabiana Murer, uma das maiores atletas do salto com vara. Thiago Braz, que viria ganhar o ouro na modalidade (batendo o recorde mundial) é fã declarado dela e começou a treinar com seu marido. Fabiana é muitas vezes criticada por não ter conseguido trazer medalha olímpica, mas não fosse por ela, talvez outras não viriam.

Algumas tiveram seu momento ofuscado. Alexa Moreno, única mulher a representar o México na ginástica olímpica, foi chamada de gorda nas redes sociais. He Zi foi pedida em casamento enquanto recebia a medalha, romantismo ou pressão masculina? Diferente da cena do rúgbi, aquele momento, o do pódio, era só dela. Caso dissesse “não”, quem seria vilão? 

Por outro lado, Fu Yuanhui fez questão de dar holofotes a um tema necessário. Ela competiu menstruada. Sua performance foi afetada e discutiu-se o tabu do absorvente interno na conservadora China — apenas 2% das chinesas o usam, por preconceito gerado pela falta de informação.

14100537_933270400131686_7459174845835517_n.jpgChoque cultural entre mulheres

Nas arquibancadas, a iraniana Darya Safai protestava contra a lei do país que impede mulheres de frequentarem estádios. Seguranças ameaçaram retirá-la, mas ela resistiu. Competindo ou não, as olimpíadas foram delas.

1-FgYkS5yGVUeCVsczYz8zAg.jpegDarya antes e depois de ser aboradada pela segurança do COI

Política e politicagem

O COI tem uma lei, a Regra 50 da Carta Olímpica, que impede manifestação política dentro do evento. Lei que puniu o protesto dos medalhistas negros em 68, os quais estavam em defesa da causa étnica, e lei que pune os cartazes como os da iraniana Darya. Ou os “Fora Temer”.

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Segundo o diretor de comunicação da Rio-2016, Mario Andrada, o COI quer “arenas limpas”. Mario demonstrou entrosamento ideológico com a política estadual e municipal do Rio, podendo aproveitar as eleições desse ano.

Pelo lado bom, o time de refugiados foi uma estreia simbólica nos jogos. As irmãs Yusra e Sarah Mardini salvaram 20 num bote que fugia da Síria. Na Rio-2016, Yusra nadou pelo times de refugiados, representando sua nação.

Nos cofres, o COI faturou mais de 1 bilhão em ingressos, mas mantém os voluntários em más condições de trabalho. Segundo o Ministério do Trabalho, 3.500 trabalham na precariedade, sem conforto, com jornadas excessivas e mau alimentados.

Apesar do prefeito Eduardo Paes fazer questão de dizer que o munícipio quase não gasta, foi anuciado pelo menos 150 milhões de verba pública para garantir que as Paraolimpíadas aconteçam. Isso porque, há uma semana do evento, o financiamento não existia. Faltou planejamento? A CPI das Olimpíadas se faz cada dia mais necessária — isso se permitirem que ela aconteça.

Leonardo Picciani (PMDB), Ministro de Esportes, cortou o edital assinado no último dia do mandato Dilma, que dava 150 milhões em recursos aos atletas olímpicos. As confederações ficaram boladas, e com razão.

É de editais como esses que surgiu a caridade militar. Com medo de fiasco nos jogos militares de 2011, o segmento fechou parceria com o governo Lula para poder abrigar atletas (já destacados em suas modalidades) nas áreas esportivas dos quartéis. Os sargentos olímpicos ganham 3.200 reais brutos para tentar ouro olímpico. Pro militarismo, ótima politicagem.

Olimpíada pro carioca?

A elogiada abertura das olímpiadas mostrou a diversidade brasileira, diversidade essa que não se via tanto assim na platéia. No cerimônia de abertura, momento mais representativo do evento, não houve doação de ingressos aos representados nas encenações no gramado do Maracanã.

13891796_529960070522629_6193828160580106958_n.jpgÍndio detido pela PM do Rio e índio pintado no mural do Boulevard Olímpico

Os ingressos que sobram, o COI doa. Na verdade, redistribui a patrocinadores e repassa para que o governo dê a população carente. A estratégia do “enfia uma cota em algum lugar pra dizer que é pra todos”. 

As varas de infância receberam ingressos e, com isso, os denominados “menores infratores” da Fundação CASA foram ao Maria Lenk. “Não entendemos muito de saltos ornamentais, mas gostamos muito de vir”. 1471381317_374941_1471398272_album_normal.jpgLinda fotorreportagem do El País: http://bit.ly/2bEND7Z

Erlon Couto, professor deles, os acompanhou e comentou: “nossos adolescentes viveram um dia único que pode provocar importantes transformações em suas opções de vida, provocando um sentimento pela vida, longe do tráfico de drogas e da violência social”.

Robson Conceição, boxeador brasileiro que ganhou ouro, criticou a redução da maioridade penal, a mesma que colocaria estes jovens aí de cima em cadeias convencionais. “Não acho justo punir crianças. Deveríamos é investir mais em projetos sociais e fazer crianças e adolescentes praticarem esportes”, disse Robson. Ele e Rafaela Silva são oriundos de projetos sociais.

Agora um pouco de vivência. Quando fui com amigos ao Boulevard, não queríamos gastar 30 reais num hambúrguer dos food-trucks credencidados. Nos distanciamos um pouco da área pra comprarmos um rango a 6 reais no podrão. Enquanto servia, a tia pedia pro cara ao lado olhar a fiscalização. Ela, teoricamente, não podia estar ali, por não ter condições pra pagar as altas taxas de credenciamento — ogoverno nunca foi de dar condição ao ambulante. É irônico, porque enquanto a gente se sente seguro com a presença dos guardas municipais, evitando assaltos, a tia tem que fugir do mesmo guarda municipal pra poder trabalhar.

O Porto Maravilha símbolo do pensar político corrompido e da tradição renegada

Eduardo Paes é 171 de carteirinha. Faz o bom moço, carioca malandro. Um verdadeiro faxineiro às avessas. Seu símbolo de campanha, a Zona Portuária, nasceu de Odebrecht e OAS, empreiteiras investigadas na Lava Jato. Paes gosta de dizer que não gastou dinheiro público. As obras são financiadas pelo setor privado, é bem verdade, mas o projeto é dinheiro do FGTS, da Caixa Econômica. Dinheiro público. Uma soma que gira em torno de 3,5 bilhões de reais, segundo apurou a reportagem do Nexo.

1-nSv4N8VnA2CBKXawkP_sIw.pngRetirado da reportagem do Nexo: http://bit.ly/2bFrWFz

O subtítulo da excelente matéria da Pública não poderia ser mais claro em sua denúncia: “construído na região que abrigou o maior porto negreiro das Américas, projeto da prefeitura “lembra pra esquecer” essa herança; debaixo da atração turística há milhares de ossos de escravos traficados, dizem especialistas”. Mais um exemplo do pensar político brasileiro que, à todo custo, tenta esconder seu passado vergonhoso.

Nunca foi intenção do faxineiro Paes embelezar a cidade, mas sim maquiar a sujeira. A tia do rango a 6 reais é exemplo disso. Ela nunca vai sair dali, mas o que aparece pro turista é o food-truck.

Ademar também foi vítima da gentrificação. Ele trabalhou na Travessa do Liceu, próxima a Praça Mauá, por 42 anos. Pra não dizer que ficou sem local de trabalho, foi transferido para uma zona morta. Ademar diz que a mensagem que passa ao “seu prefeito”, no qual votou duas vezes, é a seguinte: “não desejo nenhum mal pra ele”. Para. Chora. Volta a falar: “eu sobrevivo daquilo ali. O recado que eu dou ao meu prefeito é que ele aceite a gente de volta. Que ele fizesse, ou até nós mesmos, uns quiosques bonitinhos, compatíveis com a Praça Mauá. Nós, que trabalhamos muitos anos ali, não tão aceitando. Mas você vai na praça e tem barracas. Por que não deram preferência pra gente?”.

Ângelo Assumpção

Só há um negro na seleção de ginástica artística masculina do Brasil, é o Ângelo Assumpção. Arthur Mariano (que mudou pra Nory a fim de não ser lembrado por episódio de racismo) fez piada racista com Ângelo há alguns anos. Foi punido, mas ainda está na seleção. Apesar de ser reprodutor do racismo, hoje figura como orgulho nacional por sua medalha de bronze na Rio-2016. Vendo o título pela TV e conversando no Whatsapp, li um colega dizendo “primeiro ele traz a medalha, depois a gente pune ele”. É nesse ritmo que costumamos lidar com racismo. O pódio de Nory, enquanto Assumpção vê pela TV, é símbolo de como funciona o espaço de fala das minorias no país. Ângelo não guarda rancor, mas deseja que seu colega de equipe também seja medalhista fora do tablado.

“Somos atletas e temos que aproveitar o espaço que temos para dar recados e exemplos”. Ângelo Assumpção em entrevista.

Vaias, zika e imperialismo cultural

Renaud Lavillenie perdeu o salto com vara pra Thiago Braz e resolveu comparar as vaias do público brasileiro a atitude de nazistas nas olimpíadas de 1936. Não precisa ser sociólogo pra saber que aí está mais uma visão euro/etnocêntrica de “bons costumes” e “selvageria”. Boas ou não, as vaias são traço cultural do brasileiro, assim como o carinho por zebras, como as angolanas. Foi muita arrogância do atleta botar a culpa na torcida. No entanto, na entrega das medalhas, a torcida o vaiou de novo, perdendo uma ótima oportunidade de retribuir o rancor de Renaud com o perdão. Certamente seria uma ótima lição ao atleta.

Hope Solo, goleira da seleção feminina de futebol americana, também caprichou no preconceito.

530f148e9e6f12fc1d85bf276ea0a0ed.jpgNo instagram, zombou do país citando o mosquito transmissor do zika vírus.

Mas descobriu que zoar brasileiro não é jogo. A cada vez que pegava na bola, vaia. E quando chutava, ouvia o sonoro “ZIKAAA”. A orquestra dos estádios brasileiros não perdoa. Voltou pro seu País das Maravilhas sem medalha e com alguns frangos tomados.

Já o Lochte, cometou erro crasso. No país do jeitinho, do “sabe com quem tá falando?", quis meter de 171. O cara desrespeitou as autoridades, mentiu e tá quase saindo impune. O americano branco, medalhista, bonito e “exemplo” pediu desculpas e, ao que parece, vai ficar por isso mesmo. Enquanto isso, Rafael Braga, preso injustamente nos protestos de julho de 2013, segue encarcerado.

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A comparação entre ambos os casos escancara o imperialismo cultural no próprio país. A influência do branco “civilizado” na mídia e na opinião pública ainda o livra de seus vários atos errôneos. Enquanto isso, com o preto favelado, não tem conversa.

Quem diria que as Olimpíadas iriam trazer à tona tantas discussões para além dos escandâlos de corrupção e da crise econômica?

. . .

Neymar bateu o pênalti do título ainda agora e eu vim pro quarto meio bolado, sem saber no que pensar. Dois minutinhos depois, meu amigo Ademilson ligou do interfone. Ele é zelador (vez ou outra porteiro) aqui no prédio onde moro. Já chegou falando “que que eu falei pra tu?”. Segundo Ademilson, aquele 7x1 na Copa foi comprado, em troca do ouro em 2016. Em cima da mesma Alemanha. “Isso é tudo roubado, Vitão!”, ele faz sempre questão de lembrar. Ademilson viu o ouro na TV do celular, há pouco menos de 5 km do Maracanã. Tá trampando hoje.

Eu falei desde o início pros meus colegas: “tamô a poucos dias do ouro feminino no futebol e do fracasso masculino”. Porra, não deu. Ia ser simbólico. País em transição, evolução. O esporte símbolo da nação tendo como fonte de orgulho as minas, numa década de tantos empoderamentos das minorias etc. Ia ficar maneiro de botar no texto. Mas o destino quis assim.

É claro que, na euforia do ouro masculino, essa imagem já virou peça de zoação. Agora até o nome da Marta já foi cortado. Nós da torcida brasileira somos bipolares mesmo. Mas que não seja esquecida, afinal, o Brasil tem buscado novas representatividades.

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Legado

13924972_10157364731345352_4516788202313352009_n.jpgCopacabana, Rio de Janeiro, agosto de 2016. Imagem meramente ilustrativa.

Escrevo dia 20/08/2016, nosso presidente é o Michel Temer, o Rio é gerenciado pelos PPP: Paes, Pezão e, se bobear, Pedro Paulo — ou então PPP de “Parceria Público Privada”. As olimpíadas foram um sucesso e o futebol vai bem, coroado com ouro.

Nesses dias, li uma resenha linda do Xico Sá falando sobre um país em terapia.

"Se na festa de abertura respiramos aliviados por escapar da viralatice, no dia seguinte já estávamos lá, resfolegantes, cães de rua farejando alguma derrota à guisa de humilhação. É do jogo ou talvez da eterna nostalgia do subdesenvolvimento."

Pra fechar, ele cita “Ouro de Tolo”, do Raul Seixas. Eu não conhecia a música, mas achei conveniente. O país do futebol finalmente ganhou ouro olímpico, em casa, no seu tão amado esporte. Isso tudo enquanto vive uma de suas maiores crises da história. Os cronistas agradecem.

Restam das olimpíadas vários legados. Minha vó sentiu pela primeira vez o cheiro de maconha, vi Elza ao vivo, as mulheres asseguraram de vez uma década que é delas, menores “infratores" vão poder dizer que viram as olimpíadas, a política tá longe de parar de fazer politicagem, descobri a história da zona portuária que o meu prefeito insiste em esconder e aprendi que vaia é, de certa forma, um símbolo de resistência. Pra fechar, vi que a voz do povo é a voz de Deus. Eu devia ter acreditado no Ademilson. Queria uma derrota dos caras no futebol pra deixar um simbolismo marcante por aqui, mas Ademilson já tinha me avisado: “isso é tudo roubado, Vitão!”

. . .

Em tempo: menção honrosa a todos os nossos atletas, medalhistas e não medalhistas, que tiram leite de pedra. Em especial à Formiga. Cacete, Formiga, era só bote certo. Na tua entrevista, eu chorei quando você chorou. Qualquer bom volante que aparecer no mengão, vou fazer questão de falar: “é a Formiga de cueca!”.


Victor Hugo Liporage

Gosto de filme chato, livro mal escrito, pagode dos anos 90, visto sunga, samba canção com cueca por baixo e sou adepto da homeopatia. Não falo de mim na terceira pessoa porque já li o Bukowski dizendo que é besteira - e acho que devemos respeitar a opinião dos idosos.
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