capivara branca

sem pretensão nem palavra difícil

Victor Hugo Liporage

Gosto de filme chato, livro mal escrito, pagode dos anos 90, visto sunga, samba canção com cueca por baixo e sou adepto da homeopatia. Não falo de mim na terceira pessoa porque já li o Bukowski dizendo que é besteira - e acho que devemos respeitar a opinião dos idosos

E se a maconha for da boa, que se foda a ideologia?

Em versos do rapper Criolo, reflexões sobre a corrupção ideológica da sociedade civil, maconha e maioridade penal.


Criolo visitou o Rio em maio de 2015 e estive presente no show. Kleber é o nome dele, e desde que atendia pela alcunha “doido”, Criolo pega pesado no que fala - mas sempre com admirável capacidade em manter o respeito, mesmo enquanto toca numa ferida à nível de fratura exposta.

O cantor estreou novo álbum há alguns anos atrás - “Convoque seu Buda” - e seu trabalho mais recente apresentou evolução musical para além das tradicionais batidas de rap. O som de Criolo tem vertente reggaeira, sambista e de música de terreiro. Criolo é brasileiríssimo. Mas não, este artigo não é uma análise do álbum, e sim da sensibilidade de Kleber ao fazer análises das estruturas e classes sociais.

Como já dito, seu trabalho é eclético. O artista já alcançou abrangência nacional, fato primordial para que sua mensagem chegue. Em seus vídeos no Youtube, a galera comenta em tom crítico: “tem muito boy escutando Criolo!” ou “os ‘cara’ mal sabem que a música critica eles e ainda aplaudem!”. É bem verdade, tem muito boy ouvindo a música do favelado Criolo. E isso é bonito demais. Da favela ao condomínio, Criolo faz a mensagem chegar.

Em alguns dos seus versos, Criolo canta bem alto:

“Mudar o mundo do sofá da sala, postar no Insta/ E se a maconha for da boa, que se foda a ideologia”

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Esses versos sempre chamam o público para cantar junto no show do músico. Ele grita. A plateia grita. O palavrão parece ter esse poder de libertação. Mandar “se foder” acalenta a alma e deixa eufórico. No entanto, as pessoas têm dito “que se foda” para coisas demais. E tem coisa que não dá para simplesmente “tacar o foda-se”. Se a maconha for da boa, que se foda a ideologia?

Eu lembro bem deste momento do show. Olhando a minha frente, tinha muita gente bem vestida, à moda do circuito alternativo, uma moda cara. Fumavam alguns Blacks, cigarros caros. Fumavam alguns beques, maconha cara.

Me veio à cabeça um discurso antes do show. A equipe da casa veio anunciar alguns parceiros que estavam na área, dentre eles, uma rapaziada do movimento contra a redução da maioridade penal. Era época em que se debatia o assunto fortemente. No Rio, muitos menores vinham cometendo delitos em grande volume. De um lado, o povo carioca pedia punição. Do outro, pedia-se reeducação. Grande parte da galera presente no evento pegou adesivos e tirou fotos estampando a mensagem “Redução Não é a Solução”.

Com a redução da maioridade penal, jovens de dezesseis anos já podem ir pra cadeia convencional e recebem pena convencional. Quais são seus crimes? Furtos, assaltos a mão armada e, principalmente, tráfico de drogas. A máfia do tráfico faz a molecada de soldado. Muitos desses moleques gostariam de fazer prova para o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, mas se contentam em serem aviõezinhos, aqueles que transportam a droga pela comunidade, ou então da favela pro asfalto.

O tráfico gosta do menor de idade porque sabe que o sistema vai botar ele na cadeia, e de lá, o menor vai sair ainda mais sedento por crime. O tráfico sabe que a cadeia brasileira é uma ótima oportunidade de estágio criminal. Já diria Sabotage, “tapa na orelha só deixa a criança mais nervosa”. A Fundação Casa ainda é uma iniciativa de essência progressista, com o intuito da reabilitação. Mas mesmo assim, fica refém da estrutura punitiva e acaba desanimando. Na cadeia convencional, reabilitar já virou sonho. Se da Fundação Casa o moleque já sai assistente de Boca, da cadeia regular ele sai com diploma do curso técnico de Dono do Morro.

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Criolo já sabia disso desde seu primeiro álbum, há mais de 10 anos atrás. Viver marginalizado, como o nome de sua música, é o teste:

“É o teste, é o teste, é a febre, é a glória/ Não se corromper pra nóis já é vitória/ É o teste, é o teste, é a febre, é a glória/ Procure ser feliz, pobreza não é derrota”. É o Teste, Criolo Doido

Uma das drogas mais lucrativas para as Linhas Aéreas CV e ADA é justamente a maconha. A maconha é uma droga? Certamente. Droga é qualquer substância que, em contato com o corpo, altera o estado físico ou o psíquico. Assim como álcool e a nicotina. A criminalização da cannabis sativa, por sua vez, é uma medida irritante. A bancada política conservadora não aguenta ouvir debate sobre a legalização da “demoníaca” maconha e, para relaxar, abandona reuniões nas Câmaras para tomar uma cervejinha. Aí eu te digo: nossos políticos não têm critério. São hipócritas.

Mas aí é que chega a parte que dói. A sociedade civil brasileira é a do “jeitinho” e do “você sabe com quem tá falando?”. É desta sociedade que saem os políticos. Nós somos nossos políticos. Nossas ideologias caem na contradição, tal qual a dos políticos. Os caras de terno em Brasília ou nas câmaras estaduais não são extraterrestres e sua hipocrisia é mero reflexo da nossa.

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A galera do show assume o verso que os ironiza. Pro usuário recreativo, se a maconha for da boa, que se foda a ideologia mesmo. E colar adesivo da campanha contra a redução da maioridade penal é ótimo para postar no Insta. O motor do tráfico certamente é o Estado, mas convenhamos que o óleo da sociedade civil o mantém bem potente.

“As criança daqui, tão de HK/ Leva no sarau e salva essa alma aí/ Os perreco vem, os perreco vão/ As mina quer, mas nunca vão subir/ Licença aqui patrão, eu cresci no mundão/ onde o filho chora, e a mãe não vê/ E covarde são, quem tem tudo de bom/ E fornece o mau, pra favela morrer.” Subirusdoistiozin, Criolo

É preciso desmistificar a maconha. A planta serve para tratamento psicológico e físico e é usada secularmente em rituais religiosos. O álcool é mais destrutivo que a maconha, sim. A nicotina faz mais mal que a maconha, sim. Uma sociedade que aceita níveis como 70% de álcool em bebidas e tira altíssimo lucro dos impostos do cigarro - também conhecido como câncer cilíndrico -, pode facilmente aceitar a legalização da cannabis.

O consumo recreativo é a principal fonte de renda do tráfico da maconha no Brasil. Em função da proibição, milhares de pessoas impedem-se de qualquer tratamento terapêutico - por vias legais - com doses controladas de cannabis sativa. Por outro lado, milhões são usuários recreativos. E não fazem a menor questão de respeitar a lei. O que nos faz pensar que, para a lei, o poder paralelo não é tão mau assim. Cada um com seu cartel, seja Ambev ou ADA.

“Alcoolismo é doença, mas a safadeza filho/ Da galera que apoia, você não acha esquisito?/ O governo libera porque lucra com isso/ E a gente toma cachaça até no aniversário de cristo” Vasilhame, Criolo

A problemática não é necessariamente a maconha, mas principalmente o financiamento inconsciente ao tráfico de drogas e a contraditoriedade da sociedade civil. Na real, todo mundo sabe que comprar maconha na boca de fumo financia o tráfico. Mas muita gente gosta de consumí-la e o único meio de adquirí-la é esse. O Estado restringe e o poder paralelo abraça. Todo mundo sabe que tem menor de idade por ali. Todo mundo sabe que esse negócio pode dar cadeia - para ambas as partes, inclusive. Mas quem é que sai ileso da transação? É fácil pedir o fim da PM, mas quando ela te pega com duas bitucas, ou tu chama pelo pai no Facetime, ou pergunta “se não dá pra resolver de uma forma melhor”, quiçá questiona com o saudoso “sabe com quem tá falando?”. Já o aviãozinho… Pra esse aí, tapa na orelha é só o começo. Ao que parece, o pensamento é de que se a maconha for da boa, que se foda a ideologia.

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“Fala pra mim qual das três é mais vendida:/ Cerveja, maconha ou cocaína?/ Fala mim quem recebe um pano dos pelego:/ Bebedor, cheirador, ou maconheiro?/ Aí depende, se é pobre ou se é rico/ Porque dinheiro é dinheiro e o poder tá corrompido” Vasilhame, Criolo

Mudar o mundo do sofá da sala, repetindo à esmo os versos de Criolo, não adianta de nada. Se o movimento é pela descriminalização da maconha, o caminho é protesto, argumentação e disseminação da ideia. Acesse o portal do “Se a Cidade Fosse Nossa” e deixe suas sugestões para políticas de drogas, por exemplo. Por outro lado, se queremos lutar por menores de dezesseis na escola e não na cadeia, façamos isso com a consciência limpa. Se a gente quer ouvir um bom som e se identificar com a ideologia passada, que se faça jus a ideologia.

“As pessoas não são más/ Elas só estão perdidas” Ainda Há Tempo, Criolo


Victor Hugo Liporage

Gosto de filme chato, livro mal escrito, pagode dos anos 90, visto sunga, samba canção com cueca por baixo e sou adepto da homeopatia. Não falo de mim na terceira pessoa porque já li o Bukowski dizendo que é besteira - e acho que devemos respeitar a opinião dos idosos.
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