capivara branca

sem pretensão nem palavra difícil

Victor Hugo Liporage

Gosto de filme chato, livro mal escrito, pagode dos anos 90, visto sunga, samba canção com cueca por baixo e sou adepto da homeopatia. Não falo de mim na terceira pessoa porque já li o Bukowski dizendo que é besteira - e acho que devemos respeitar a opinião dos idosos

Pente e Rala: síndrome de Don Juanismo

O vazio do homem sedutor no cinema, na tevê e na literatura.


Cuidado com qualquer cara que te lembre o Louis Garrel.

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Homens com síndrome de don juanismo são os que gostam de seduzir e se envolver superficialmente em seus relacionamentos íntimos. Fazem da vida um Pente e Rala, ou seja: pegam, pra depois jogarem fora. São frios, insensíveis, egoístas, narcisistas, egocêntricos e arrogantes. Vários já passaram pela sua cabeça, né? Pois é, mas vamos chegar lá. Agora:

Quem é Don Juan?

Ele representa um arquétipo antigo da literatura, mas ficou famoso depois que o poema do Vida Loka Lorde Byron foi adaptado para o cinema. Don Juan DeMarco, o protagonista, foi interpretado pelo “charmoso” Johnny Depp, algo que, por si só, já é sintomático.

Johnny Depp é um dos galãs de Hollywood, mas não tão galã depois que foi denunciado pela ex-mulher por agressão. “O que houve com meu Don Juan?”, você se pergunta. Bom, ele deu as caras.

A tendência da cultura comercial é romantizar o personagem do Don Juan. Bonitos, charmosos, conquistadores e românticos são interessantes, mas o que será que há por trás?

Sequela. Várias sequelas.

Don Draper

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Olha bem pra esse rapaz. Reconheceu? Famoso Don Draper. Detalhe no cigarrinho. Tá na beca, também.

Ó, Deus, quantas vezes eu quis imitar o cabelo desse cara. Sente o olhar de “tô ligado”. Que homão da porra, né? É, mais ou menos.

Don é o protagonista de Mad Men. Pra quem não conhece a série, ele é rico, tem uma família bacana e é o publicitário mais importante de Nova Iorque nos anos 50.

Um cara desse é, no mínimo, interessante. Seu trabalho pede que seja sedutor. Seu prestígio faz com que seja confiante. Aí, já viu, né. Don pula a cerca direto. Por causa disso, sua mulher adquiriu uma séria depressão. Seus filhos são carentes. Don tenta fingir que não vê, mas sabe disso. O pai batia nele e, inconscientemente, ele bate na família todo dia. Se ele não recebeu o afeto, então, teoricamente, ninguém precisa de afeto.

Sabe pra quem faltou afeto quando criança, também?

Charles Bukowski

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Charles Bukowski. Na minha estante tem três livros dele. Um eu peguei emprestado, o outro eu li na internet. Esse último, em 7 horas. Foi meu primeiro dele, paixão à primeira vista.

Percebe?

Eu já quis ser Bukowski. Eu e vários amigos. Eu e vários caras mundo a fora. Conheço várias minas que adoram o cara.

Que perigo.

Henry Chinaski, personagem alter ego de Bukowski e protagonista em seus livros, é um cara sem grana e depressivo. Na infância, apanhava do pai e na escola. Gostava da mãe mas a achava uma “vadia” porque não o protegia. Chinaski sempre foi feio e mau aluno. Uma negação para a sociedade.

Mas aí, fez 18, saiu de casa e começou a “tacar o foda-se”. A vida não prestava e ele não tinha nada a perder. Sua rebeldia o deu confiança. Sua confiança o deixou, quem diria, charmoso. Chinaski virou pegador. Daqueles que não ligam pras minas. E por alguma outra razão psicológica, o desprezo é atraente. Bukowski e Chinaski tem um livro chamado “Mulheres”. Ambos e suas desventuras machistas e misóginas com o sexo feminino. Mas sabe o mais curioso: o cara ainda consegue contar com uma base de fãs femininas enorme.

Mas antes que eu me esqueça:

Brandon e a vergonha

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O homem branco, hétero e moderno de classe média é isso aí. Tem sua casa, trabalha no escritório, se exercita, se masturba e transa casualmente.

Mas tem um porém.

Esse homem, às vezes, quando não muito solitário, tem transtornos e inseguranças sérios.

No caso de Brandon, é a compulsão por sexo. + solidão; + monotonia; + carência afetiva.

Quando sua irmã o visita, ele perde o controle. Brandon não consegue lidar com a vida que deixou pra trás, nem com lembranças infelizes ou com relacionamentos mau resolvidos.

O sedutor de bar, bem vestido e empregado, passa noites sozinho e, na presença de uma companhia familiar, agoniza.

Aos poucos, Brandon se desfaz das suas mulheres, da sua irmã e de si.

Segundo a psicologia, o Transtorno de Personalidade Anti-Social se caracteriza pelo seguinte:

  1. fracasso em conformar-se às normas sociais com relação a comportamentos legais, indicado pela execução repetida de atos que constituem motivo de detenção
  2. propensão para enganar, indicada por mentir repetidamente, usar nomes falsos ou ludibriar os outros para obter vantagens pessoais ou prazer
  3. impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro
  4. irritabilidade e agressividade, indicadas por repetidas lutas corporais ou agressões físicas
  5. desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia
  6. irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em manter um comportamento laboral consistente ou honrar obrigações financeiras
  7. ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter ferido, maltratado ou roubado outra pessoa.

Os homens, tomados por sua masculinidade tóxica, criam uma complexa síndrome de don juanismo, a qual não apenas destrói suas parceiras, como a si mesmos. Ainda por cima, vez ou outra surgem Christian Greys surgem para romantizarem a situação. Isso é perigoso.

Mais ainda por este motivo: apesar de todas essas percepções, eu ainda sinto nostalgia escrevendo sobre o Bukowski e o Don Draper. Talvez você, leitor, se encante com eles. Eles são, sim, romantizados no nosso inconsciente. Pra quem os vê ou os lê, são quase que heróis. Mas isso é ilusão.

Don Draper é um personagem que desmorona aos poucos e se reconstrói; Bukowski é um ser humano frustrado, e não um príncipe literário às avessas; Brandon, por fim, é o protagonista de um filme que representa o estudo do masculinidades tóxicas no homem moderno. Há vários Brandons, Don Drapers e Chinaskis por aí. Se a gente não parar de romantizá-los, criaremos uma geração de Don Juans sequelados.

Por fim, tenho que ser justo. Os Hawaianos já previam esse fenômeno há anos.


Victor Hugo Liporage

Gosto de filme chato, livro mal escrito, pagode dos anos 90, visto sunga, samba canção com cueca por baixo e sou adepto da homeopatia. Não falo de mim na terceira pessoa porque já li o Bukowski dizendo que é besteira - e acho que devemos respeitar a opinião dos idosos.
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