carlos.alves

Sem medo de errar

Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento

A mulher de preto: outra maldição na forma feminina

“Culpa”, a base do sentimento que, nas religiões ocidentais, pode nos conduzir ao paraíso, por meio do arrependimento, ou a danação eterna (não só da própria pessoa, como também de outros). E, no caso das mulheres, elas são mais destacadas. Mesmo quando sabemos que todos são submetidos a isso, no sexo feminino é dado uma maior ênfase a essa culpa.


womaninblack2.jpg

Fui ao cinema um dia desses, assistir “A mulher de Preto 2 – Anjo da Morte”. Um daqueles filmes que não tem muita relevância, se comparado a uma grande obra dirigida e/ou escrita por um Woody Allen ou um Pedro Almodóvar. Mas pouco me importava! O que eu queria mesmo era me divertir, sem preocupar-me em entender a mensagem que uma história poderia proporcionar a nós, pobres mortais carentes de entendimento. Além disso, tratava-se de uma produção do estúdio Hammer Films que, durante minha infância e início da adolescência, havia me assombrado com seus filmes de terror. Depois que passei por essa fase e o próprio cinema desenvolveu efeitos especiais avançados, pude perceber o quão ridículo eram aquelas produções, apesar de muitos grandes atores e atrizes terem por ali passado. Peter Cushing e Christopher Lee são alguns deles.

A-Mulher-De-Preto-2-Anjo-Da-Morte-5.jpg

A Hammer havia parado de produzir filmes, mas nos últimos anos ela ressurgiu apresentando, como não poderia deixar de ser, obras fantasmagóricas e assombrosas. A diferença é que a qualidade melhorou muito. Eu tomei conhecimento de seu retorno justamente quando vi “A mulher de preto”, estrelado por Daniel Radcliffe, o protagonista de Harry Potter. Era um filme de terror como outros tantos do gênero, atualmente. Bem comum mesmo!

Quando verifiquei a sinopse e assisti ao trailer pela internet, além de ler comentários de pessoas que disseram que iam assisti-lo, comecei a fazer uma relação dele com aquele primeiro que havia visto. Imediatamente me veio à mente algo, um insight, para ser mais exato. Assim como o outro, este trazia a história de uma morta que não descansa por viver atormentada pelo fato de seu filho morrer, vítima de uma fatalidade, sem ter tido a chance de estar ao lado dele, quando mais queria. Um sentimento de culpa. E nesse caso, a mulher vive uma espécie de maldição e, simultaneamente, torna-se uma maldição para as pessoas que residem numa casa velha e nos seus arredores.

Ao longo dos séculos o mito, a religião e a literatura colocaram a mulher numa posição injusta de portadora do pecado e responsável por introduzir o mal no mundo. Portanto, digna de ser tratada como inferior ao homem, e que deve ser submissa a ele, por ser fraca, não só fisicamente mas de caráter também. É no cinema, entretanto, que essas conotações ganharam mais força. E, mesmo ideias, como as de Simone de Beauvoir difundidas e, mais tarde, a revolução sexual nos anos de 1960, que veio para questionar os valores morais e o papel da mulher na sociedade ocidental, os diversos personagens femininos apresentados no cinema, em sua maioria, reforçaram, e ainda reforçam, o esteriótipo de mulheres fatais, prontas para atender as necessidades sexuais dos homens, ou que necessitam do apoio e proteção deles. Com raríssimas exceções, vê-se a mulher heroína, protagonista de seu próprio destino. Um exemplo desse tipo de filme é Tomates Verdes Fritos, cujas personagens demonstram a importância da amizade, da solidariedade e da capacidade de superar problemas. Infelizmente, este faz parte daqueles poucos filmes que mostram a mulher de forma positiva.

O mesmo não acontece num outro filme que vi, ou melhor, que revi dias atrás: Godzilla, versão de 1998. Estava acompanhado de um amigo, o qual tive a oportunidade de comentar determinados momentos da história, que exemplifica bem o que afirmo. Como em muitos filmes que havia assistido, ocorre uma situação muito comum com os personagens femininos: em meio a um perigo iminente começam a gritar histericamente. Só elas. Os homens se assustam, mas não dão escândalos. Em outra cena, quatro pessoas são perseguidas pela criatura, uma delas tropeça, cai e é ajudada por outra para que não seja destruída pelo monstro. No caso, era mulher. A única mulher no grupo! A cena, por ser sutil, não se percebe imediatamente nada demais nesta ação. Porém, se observar os detalhes, verá mais uma vez a repetição do imaginário masculino: uma amostra da fraqueza da mulher diante situações críticas, das quais elas precisam ser socorridas pelos homens, que com sua coragem e ousadia, podem defendê-las das maiores dificuldades existentes.

WomanInBlack21_zpsa50582af.jpg

Em “A Mulher de Preto – Anjo da Morte”, o problema é um pouco pior, pois, durante toda a narrativa, percebe-se o mal e desgraça de um grupo de pessoas dentro de uma casa, em especial crianças, provocados pela alma atormentada de uma mãe que perdeu seu filho num acidente e que culpou a irmã pelo o que ocorreu. Ao mesmo tempo, há outra personagem. Uma professora das crianças, aparentemente a heroína, que enfrenta o espírito maligno disposta a salvá-las, mas que também apresenta um passado de culpa por ter abandonado o filho.

“Culpa”, a base do sentimento que, nas religiões ocidentais, pode nos conduzir ao paraíso, por meio do arrependimento, ou a danação eterna (não só da própria pessoa, como também de outros). E, no caso das mulheres, elas são mais destacadas. Mesmo quando sabemos que todos são submetidos a isso, no sexo feminino é dado uma maior ênfase a essa culpa. Inclusive um personagem secundário diz à professora que foi por causa dela que o espírito retornou para assombrá-los. Justo ela, que abandonou seu bebê, abriu mão de sua maternidade para viver sua vida. Um pecado que nenhuma mulher pode cometer. Afinal, a maternidade é uma ordem natural das coisas e qualquer mulher que a negue, traz sobre a humanidade uma maldição. Mesmo que não seja capaz de gerar filhos, é culpada por não cumprir a responsabilidade que a natureza ou alguma divindade lhe concedeu.

womaninblack24_zps9e8e6341.jpg

Certamente, a condenação social é maior para aquelas que, sabe-se lá o que aconteceu em suas vidas, geraram filhos, mas não puderam criá-los. Paralelamente a isso, lembrei que o homem quase sempre é visto como um redentor ou salvador, algo que se apresenta neste filme também. Aliás, quantos filmes, livros, mitos, dentre outros, apontam a culpa de homens por abandonarem sua prole? E, no mundo real, costuma-se recriminar as mulheres por abandono de seus filhos, mas, aos homens, existe pouca pressão. Há críticas, mas não tão contundentes quanto contra às mulheres.

Enfim, apesar da sociedade ter começado a mudar sua mentalidade, acredito que verei muitas sequências de “A Mulher de Preto”. Não só porque a bilheteria pode ser grande, mas também pela necessidade que o mundo patriarcal tem de lembrar as mulheres que elas devem ser submissas aos homens, em função da maldição que carregam em suas almas.


Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Carlos Beloto