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Sem medo de errar

Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento

A onda, a escola, a mídia e o fascismo

A escola e a mídia podem tornar-se instrumentos na formação de uma sociedade nazifascista, num contexto em que não existe um diálogo que leve os indivíduos à reflexão e à crítica.


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Lembro-me como se fosse ontem, quando assisti pela primeira vez ao filme A onda, 1981. Ocasionalmente, era exibido na televisão nas tardes do meio de semana. Não era um filme muito longo e, por isso, não era muito sofrimento vê-lo tantas vezes. Como eu gostava mais de filmes de ação, ver algo daquele gênero era um pouco complicado para um garoto que iniciava sua adolescência e que vivia num bairro da periferia de Goiânia, nos anos de 1980. Mesmo não sendo um filme que mexia com meus desejos de aventura, “A onda” me impressionou muito, e causou-me surpresa. Primeiro, pelo método pouco ortodoxo de como um certo professor ensinou uma lição aos seus(suas) alunos(as) sobre o nazismo. Segundo, como aqueles estudantes não perceberam que suas práticas, a partir de uma proposta do tal professor, eram de cunho fascista. E, por último, saber que era uma obra baseada em fato reais.

Tornei-me adulto e acabei me graduando em Filosofia, com habilitação em licenciatura, ou seja, virei professor. Um professor, inclusive, cheio de sonhos, que achava que faria a revolução através de minhas aulas, fazendo com que a juventude fosse levada a ser mais reflexiva e autônoma, como o professor de “A onda” fizera. Não foi bem assim que aconteceu. Não porque era mau professor ou as condições do ensino público eram difíceis. Era mais profunda e terrível a situação com a qual me deparei: se no filme os jovens queriam aprender, na vida real não acontecia o mesmo. Estava diante, infelizmente, de jovens que não queriam estudar, adquirir conhecimento. Tinham aqueles que se esforçavam e tinham afã pelo saber, mas eram uma minoria. E a coisa é pior quando se tenta ensinar disciplinas na área de humanidades e Filosofia. Nem mesmo História e Geografia são valorizadas, uma vez que criou-se uma tradição de que esta ou aquela disciplina é menos importante. No caso o que interessa é saber matemática e português. O resto é o resto.

Para minha agradável surpresa, os alemães resolvem fazer um remake de “A onda” (2008). Aliás, mais longo e melhor que a versão que eu assistira. Até porque sua abordagem tem como referência os dias de hoje. Traz à tona um problema que vem crescendo há anos na Europa: a simpatia cada vez maior das pessoas por doutrinas de extrema-direita. A nova versão, contudo, mantém o mesmo clima que a versão original (americana) possui, a qual demonstra os perigos de termos uma dominação nazifascista, sem que tenhamos a percepção imediata de que tal corrente ideológica está entre nós ou de que nós mesmos somos fascistas.

a onda 3.jpg A versão alemã supera a americana, no meu ponto de vista, num detalhe que me chamou muito a atenção ao comparar as duas. Enquanto que na produção americana o professor tem pleno controle do que está fazendo e no objetivo que espera atingir, a versão mais recente, a alemã, o professor acaba envolvido pelo próprio projeto que idealizou. Chega a se iludir que é um grande líder e gosta de ser admirado como tal. A narrativa fílmica estabelece uma ironia, ainda maior, pois, ele, desde o início da história, dá os ares de ser um anarquista. Justamente uma corrente política que abomina qualquer tipo de poder e controle; que defende a aniquilação do Estado e é antiautoritária. Totalmente contrária ao movimento autocrático que se desenvolve, durante a semana do projeto sugerido pelo professor, que, certamente, queria mostrar os males da ditadura e do totalitarismo. Estaria o diretor do filme nos dizendo que existe uma linha tênue entre os pensamentos libertário e autoritário? Talvez!

Trazendo isso para o mundo real, fora do cinema, onde nem sempre a vida imita a arte, se num ambiente que proporciona uma educação que ensina as pessoas a pensarem por si só, corre-se o risco de serem engolidas por doutrinas nefastas que levam ao desejo de dominar, uniformizar aqueles que pensam diferente, o que dizer de lugares que não permitem o desenvolvimento de gente reflexiva?

Penso em tal coisa ocorrendo no Brasil, onde, como falei anteriormente, existe um desincentivo do jovem em aprender. E, podem até condenar-me, com o rótulo de “exagerado”, mas acredito que há uma campanha para fazer com que as pessoas aprendam o menos possível. Para ser mais exato, somente o necessário para que uma sociedade possa funcionar de forma “harmônica”. Ou em outras palavras, não dão condições para que o indivíduo reflita sobre o mundo em torno de si, que não o deixe pensar o que ainda não se pensou, que não o estimule a criar novos paradigmas (seja na política, na religião, na arte, na ciência). A mídia e a escola formal contribuem, e muito, para isso. Inclusive, temos uma cultura de não adquirir cultura. Como disse um certo aluno meu há alguns anos: “Pra que estudar, professor? Estudar faz o cara ficar doido”.

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“Estudar faz a pessoa enlouquecer”, é uma expressão que ouço muito. Ter conhecimento é pedir para ficar louco, é o que querem afirmar. Com isso, pagamos um preço altíssimo. Não somente pela má formação de indivíduos para o mercado de trabalho, mas também pela má formação crítica que esses acabam adquirindo. Se bem que estou sendo otimista. Alguns não têm senso crítico nenhum!

É, a partir daí, que vemos o crescimento crescente de ideias fascistas avançando cada vez mais em nossa sociedade. Se com formação capaz de identificar elementos totalitários (da direita e da esquerda) a democracia corre o risco de ser extinta, fico imaginando o estrago que podemos ter, num país onde a democracia não foi consolidada, cuja educação não ensina o sujeito a ver o que tem pela frente.

Na realidade, é um prato cheio para aqueles que controlam as massas (nossa, tô parecendo marxista de araque) imporem ideologias nefastas, que vão desde o controle sobre os corpos das pessoas até o tipo de educação que deve imperar sobre uma população.

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O interessante é que alguns se apresentam como democratas-liberais no interesse velado de coagir o povo a se comportar conforme à sua vontade. Âncoras de telejornais, religiosos, articulistas da grande mídia, professores, intelectuais, dentre outros, ávidos por controlar a população. Não sei se esperando fazer o bem (risos, muitos risos) ou agindo de má-fé com o propósito de conquistar algo.

Seja como for, devemos fazer o seguinte - como digo aos meus estudantes interessados em aprender de verdade: nunca acreditem de imediato no que as pessoas falam. Antes, é preciso elaborar algumas perguntas quando lemos ou ouvimos alguém tecer comentários: “Quem está falando?”, “Para quem está dirigindo o discurso?”, “Por que está comentando tais coisas?”, “Que objetivo quer alcançar com esse discurso?”.

Muito primário o que proponho. Porém, é um bom início para adquirir um mínimo de criticidade possível. Inclusive espero que minhas palavras não sejam aceitas como verdades absolutas e que haja uma capacidade de analisá-las, acima de tudo. Afinal, não sou dono da verdade e, como digo, não tenho medo de errar, pois também há “beleza no erro e no engano”, como bem cantou Zeca Baleiro, no sentido de que errando também aprendo muito.


Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento.
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