carlos.alves

Sem medo de errar

Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento

Um pequeno esboço sobre o que é o anarquismo

Há um preconceito, que se fortaleceu após o surgimento das redes sociais e dos debates que passaram a ter nelas, de que pessoas adeptas às ideias de direita são ignorantes, que não entendem conceitos básicos tais como "socialismo", "bolivarianismo", "comunismo" e até mesmo "liberalismo". Já, as de esquerda, detém perfeito domínio de tais conceitos, dentro outros. No entanto, ao ver certas opiniões emitidas por algumas pessoas sobre o pensamento esquerdista, percebi que a tal "ignorância" não é próprio somente de indivíduos da direita (lembrando que tem muitas pessoas de direita altamente inteligentes). Muita gente que defende a esquerda equivoca-se ao tentar definir conceitos tais como o anarquismo e suas várias correntes. O que me deixou perplexo e indignado diante da falta de informações simples. Diante disso, decidi publicar esse texto que escrevi há alguns anos, um pouco incompleto, mas que pode elucidar um pouco o que é o anarquismo e seus objetivos. Ele não é imparcial, mas, em nenhum momento, pretende ser doutrinador. Muito pelo contrário, deseja levar ao debate uma corrente pouco conhecida, mas que vem influenciando uma parcela de jovens que não concordam com o neoliberalismo, mas que se recusam a aceitar princípios autoritários de grupos de esquerda. Então, vamos lá!


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O coletivismo é uma corrente do anarquismo de grande relevância por trazer em seu conteúdo o pensamento daquele que é considerado um dos grandes nomes do meio libertário e ser um dos primeiros (se não o primeiro) a esquematizar e propor a prática do anarquismo numa sociedade: Bakunin

Diferentemente de Marx, com quem teve um longo contato e fora companheiro na época da AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), Bakunin acreditava que para se ter uma sociedade justa e igualitária, não dependia única e exclusivamente na eliminação da propriedade privada. Era preciso também que se extinguisse o Estado, pois este sempre representara os interesses daqueles que estavam no poder. Uma revolução para ser completa teria que eliminar quaisquer espécie de hierarquias, e manter o Estado significava dar continuidade a elas, que por sua vez justificaria a dominação de uma minoria sobre a maioria.

Entretanto, apesar dos argumentos apresentados por Bakunin, e aqueles que compartilhavam de suas ideias, o anarquismo não conseguiu ter uma grande influência como o pensamento socialista-marxista, que proliferou, especialmente nas academias, fazendo com que qualquer corrente do pensamento libertário fosse posto em segundo plano e, infelizmente, mal interpretado.

Torna-se importante ressaltar que as ideias de Bakunin teve primazia, em relação ao marxismo, durante muito tempo. Mas, após a Revolução Russa um novo cenário se fez, contribuindo para que o pensamento marxista passasse a ser considerado uma alternativa mais viável e melhor que o socialismo libertário proposto pelos anarquistas (em especial, o coletivismo-bakuninista). Infelizmente, a necessidade do Estado na transição do socialismo para o comunismo ganhou maiores simpatias. O que a História, mais tarde, mostraria ser um grande equívoco no processo revolucionário russo e também em outras nações. Pois, como se viu, ao invés do poder estatal perder força gradativamente, como teorizou Marx, acabou por se tornar extremamente forte, procurando manter seu poder e influência através da coerção brutal e sangrenta que perdurou por mais de 70 anos em vários países, e que perdura ainda em outros, os quais, segundo muitos estudiosos já não se pôde mais falar em regime socialista, mas sim num capitalismo estatal e/ou ditatorial. Não se pode acusar unicamente as investidas de pensadores, adeptos do marxismo, como contribuição para o desmerecimento do anarquismo. Na verdade, com o passar do tempo, surgiram muitas vertentes das ideias anarquistas: já não era somente o coletivismo. Ter-se-ia o anarco-comunismo, que fazia sérias críticas ao bakuninismo (coletivismo), o anarquismo individualista, o anarco-sindicalismo, etc. Enfim, várias correntes, que, se por um lado, puderam contribuir para a formação do pensamento anarquista; por outro, rechaçaram conteúdos importantes do coletivismo, que visavam a participação das massas, não como dirigidos por minorias “iluminadas”, mas como protagonistas de uma profunda transformação social.

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As diversas distorções do anarquismo, provocadas por seus inimigos e, ainda pior, por aqueles que professavam segui-lo, causaram, ao longo dos anos, uma certa antipatia e preconceito em relação às ideias libertárias. Ao se falar de anarquia sempre vem à mente das pessoas os termos baderna, bagunça, desorganização, descompromisso, irresponsabilidade. Coisas que, se fizer uma pesquisa sincera sobre o início de uma proposta de sociedade anarquista, ver-se-á que não cabem no ideal libertário (pelo menos em relação ao coletivismo) proposto por Bakunin.

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Além disso, viu-se um anarquismo muito mais voltado para um espontaneísmo e individualismo (totalmente avesso à sociedade, encarando qualquer espécie de organização como autoritária) que necessariamente o produto de uma teoria, alicerçado nas experiências do proletariado e outros setores oprimidos da sociedade, que buscavam alcançar um mundo sem desigualdades e sem qualquer tipo de opressão. Também se originou uma espécie de anarquismo intelectualista, cujos objetivos estavam fora de qualquer transformação social, via revolução. Surgiu até mesmo uma elite mais preocupada em entender o anarquismo e propagandeá-lo que necessariamente lutar pela extinção do capitalismo, dando um fim a todos os pilares que mantêm esse sistema.

Não se pretende, aqui, desvalorizar estas outras formas de anarquismo, pois, ainda que tenham tomado um caminho diferente do anarquismo coletivista, foram de muita importância para manter viva a chama daqueles que não se conformavam com o capitalismo, mas que, ao mesmo tempo, entendiam que a solução não estava na implantação de um regime autoritário, como sugeria o socialismo-marxista. Entretanto, é muito importante ressaltar que há inúmeras falhas que essas várias correntes possuem no seio de suas ideias. É necessário analisar bem e verificar o que pode ser adequado à sociedade que se almeja.

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Logicamente, ao se posicionar em favor do coletivismo proposto por Bakunin, não se quer aderir a uma espécie de purismo anárquico ou associá-lo como única forma de anarquismo. Para isso é importante esclarecer que além de verificar as outras correntes do anarquismo e tirar delas conceitos importantes, que contribua para a formação do pensamento anarquista atual, torna-se vital fazer uma igual análise do coletivismo bakuninista, retirando dele a essência que direcione aqueles que tem em vista uma transformação da sociedade, sem hierarquias, onde o povo possa tomar suas próprias decisões, sem que exista um “intermediário” entre ele e o poder, ou, em outras palavras, a intervenção direta do povo como protagonista de sua própria história.

Tendo em vista explicitar ideias e posições acerca do anarquismo, torna-se necessário deixar bem nítido que neste texto não há intenções de se criar um tipo de cartilha ou mesmo uma visão esclarecedora de como adotar o “verdadeiro anarquismo”. É, dentre outras coisas, uma maneira de contribuir para a discussão e ajudar nas práticas que visam uma revolução em nossa sociedade, e, ao mesmo tempo, estar aberto às sugestões e críticas em relação ao seu conteúdo.

No entanto, cabe aqui dizer que apesar do respeito que se tem por todas as correntes anarquistas e suas muitas formas de ação na sociedade, é de suma importância se posicionar em favor da organização de anarquistas, tendo como estratégia (e pode ser considerado também um princípio) a inserção social. Inserção essa que visa estimular a participação daqueles que são oprimidos, ou seja, as classes menos favorecidas, não como um conjunto de pessoas guiadas por aqueles que julgam ter a solução para os problemas deles, mas como um corpo vivo, atuante, que busquem por si só promover sua própria libertação deste sistema que favorece a uns poucos privilegiados, deixando à margem uma maioria de suas necessidades. Requer também uma luta, em que se prime a igualdade entre todos, sem o Estado e a inexistência da propriedade privada, constituir a horizontalidade do poder, além da aniquilação de outras formas de desigualdades, oriundas de uma cultura cujos principais alicerces é a competição e a ideias de superioridade de alguns sobre os demais, nas mais variadas esferas da sociedade.

Ao longo deste pequeno texto, procurou-se expor em linhas gerais e concisas, o que é o anarquismo, suas várias correntes e, especialmente, tentado enfocar mais o coletivismo bakuninista.

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É claro que tal intenção não é e nem será suficiente para elucidar o pensamento anarquista. Seria muita pretensão e ingenuidade achar que em breves palavras e num texto um pouco superficial poder atingir esse objetivo.

Porém o grande mérito pode ser, se possível, provocar e estimular o desejo de se criar um debate acerca deste assunto, proporcionando a cada indivíduo ou grupo, que tem em mente uma transformação social visando a destruição do capitalismo, a oportunidade de expor suas ideias e contribuir para que se elabore uma teoria que, acima de tudo, seja gestada também nas práticas cotidianas e que considere como importante a necessidade de organização dos anarquistas e dos movimentos sociais.

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Espera-se que em outras oportunidades se possa ter outros textos abordando melhor o que foi o anarquismo coletivista bakuninista, discutir outras correntes, mas especialmente pensar em estratégias e táticas que possam ser cabíveis na luta de se atingir o objetivo final de chegar a uma sociedade sobre novas bases. O que não se poderia deixar de propor também uma teoria anarquista própria, pensada para buscar formas de como agir em nossa sociedade nos dias de hoje.


Carlos Beloto

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