carlos.alves

Sem medo de errar

Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento

Não precisamos do outro para sermos felizes

A felicidade só terá possibilidade de existir, mesmo de forma efêmera, quando aprendermos a ser autossuficientes, afetivamente falando. E isso não pode ser confundido com egoísmo, voltado pra si, apenas. Ser autossuficiente, do ponto de vista afetivo, quer dizer não esperar que um(a) outro(a) seja a sua meta. O fim último devemos ser nós mesmos. Assim, poderemos, inclusive conseguir amar o outro ou outra, de forma incondicional.


Amar é o desejo de estar no outro para encontrar a si mesmo. Amar é a vontade de sentir-se completo. Bom! Frases como estas, nada originais, apesar de terem sido escritas pelo autor deste texto sem a intenção de plagiar alguma personalidade famosa, representam o que há de pior na concepção daquilo que a maioria das pessoas pensam ser o amor: a necessidade, ou quase uma obrigação, de estar com alguém. felicidade 2.jpg

Na nossa língua, temos algumas definições, quase unânimes, do verbo “amar”, tais como “ter amor”, “afeição, “ternura”, “dedicação”, “devoção a”, “querer bem”, “estimar”, “gostar” etc. Até aí, tudo bem! Ou será que estou enganado? Seria o “amar” algo acima de todos esses sentimentos, dos quais se apresenta como sinônimo? Se houver, avisem-me. Não estou disposto a fazer uma pesquisa, neste momento, sobre o assunto. Até porque não sei se vale a pena tentar discorrer tanto sobre ele, uma vez que desejo muito mais falar de felicidade. Não “a felicidade”, mas “de felicidade”. Uma felicidade no sentido de estar bem consigo mesmo. De ter uma sensação tão boa que perpassa a si e chega a outros.

felicidade 1.jpg

Mas por que começar mencionando o amor? Ora, porque (não) simplesmente as pessoas se acostumaram – para não dizer que foram adestradas – a pensar que a felicidade só pode ser alcançada, de fato, se estiver ao lado de alguém que elas amam. E pior! Associam amar, mesmo reconhecendo os sinônimos que citei acima, como a possibilidade de se entregar a pelo menos um(a) parceiro(a), viver para ele(s) ou ela(s). Convenhamos, aprendemos que um homem ou mulher só pode estar realizado de verdade se estiver acompanhado.

felicidade 5.jpeg

Saímos, muitas vezes, em empreitadas frenéticas, na busca por alguém que vai trazer a nossa “suprema alegria”. Ficamos na expectativa de encontrar na virada de uma esquina aquele ou aquela que vai mudar nossas vidas, que nos conduzirá ao paraíso. Desejamos, como nos filmes que assistimos ou nos romances que lemos, dar de cara com a pessoa que nos complementará ou que, ao menos, contribuirá para nosso progresso humano, seja lá o que isso significa.

felicidade 3.jpg

Não estou afirmando que alguém não pode ser feliz ao lado de outro(a) que ame. O que quero dizer é que pensar que somente a felicidade será encontrada no outro pode tornar-se perigoso. Afinal, corre-se o risco de abandonar a si mesmo, ou melhor, deixar de alimentar-se de virtudes, de qualidades, que lhe confira autoestima. Sem essa percepção, o indivíduo pode se sentir dependente de terceiros, o que certamente não é bom. Ao contrário de amar, surge, então, o autodepreciar.

felicidade 4.jpg

A felicidade só terá possibilidade de existir, mesmo de forma efêmera, quando aprendermos a ser autossuficientes, afetivamente falando. E isso não pode ser confundido com egoísmo, voltado pra si, apenas. Ser autossuficiente, do ponto de vista afetivo, quer dizer não esperar que um(a) outro(a) seja a sua meta. O fim último devemos ser nós mesmos. Assim, poderemos, inclusive conseguir amar o outro ou outra, de forma incondicional. Seremos, acredito, até mais solidários e aprenderemos a cooperar com as pessoas, sem necessidade de competir para demonstrar que somos melhores (algo que nossa sociedade individualista tem nos ensinado a só ser). Talvez nos faça menos preconceituosos, pois aprenderemos a amar aqueles que julgamos ser tão diferentes de nós, caso passemos pelo estágio mais importante: amar a nós mesmos.


Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @obvious //Carlos Beloto