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Sem medo de errar

Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento

"Cada um em seu lugar": a Europa e os refugiados

Certa vez, ao ler uma reportagem num site de um grande jornal sobre a França dificultar a entrada de tunisianos em seu território, causando sérios problemas, comecei a ler as opiniões dos leitores. Diga-se de passagem, amo (e odeio) fazer tais leituras, pois é ali que se conhece o que as pessoas realmente pensam. E foi num comentário que percebi o quanto deve ser difícil ser um refugiado. Explico: alguém havia comentado que se as pessoas querem obter uma vida melhor, devem fazer isso em seus próprios países, "cada um no seu lugar". E o comentário recebeu muitas curtidas. Achei interessante e quis opinar também. Todo mundo gosta de dizer algo, mas a maioria nunca reflete antes de falar ou escrever. Infelizmente, eu não estava cadastrado para comentar também. Daí, fiquei com um nó atravessado na garganta.


O que eu poderia dizer a respeito do que vem acontecendo em relação aos diversos grupos de refugiados que tentam entrar na Europa, com o objetivo de fugirem de conflitos que se instalaram na África e no Oriente Médio? Afinal, não é de hoje que várias pessoas desses lugares estão à procura de condições melhores para se viver. Não raro, notícias sobre imigrantes árabes ou africanos serem barrados nas fronteiras de nações europeias e, em seguida, enviados de volta aos seus países de origem chegam até nós por meio da grande imprensa, ou pelas redes sociais.

A questão é que esse tema ganhou maiores repercussões depois de um naufrágio envolvendo imigrantes na costa da Turquia, gerando muitas vítimas, inclusive crianças. O mundo se sensibilizou e deixou muita gente chocada quando uma foto de um pequeno garoto sírio foi divulgada amplamente. Tornou-se símbolo, como os meios de comunicação têm dito, das dificuldades que diversos refugiados têm sofrido, ao longo dos anos, na tentativa de encontrar algum território que os acolham.

O que me chama atenção, no entanto, é ver a mídia explorando fatalidades como essa, sem fazer uma reflexão mais séria sobre o assunto. Salvo algumas exceções que, ainda assim, divulgam episódios semelhantes, mas que não se atém às causas que levam tantos estrangeiros a fugir de suas casas. Alguém pode prontamente dizer que as motivações foram a busca por condições mais dignas e seguras (trabalho, segurança, paz). Neste caso, a grande mídia cumpre seu papel. E aí eu pergunto: será mesmo?

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Certa vez, ao ler uma reportagem num site de um grande jornal sobre a França dificultar a entrada de tunisinos em seu território, causando sérios problemas, comecei a ler as opiniões dos leitores. Diga-se de passagem, amo (e odeio) fazer tais leituras, pois é ali que se conhece o que as pessoas realmente pensam. E foi num comentário que percebi o quanto deve ser difícil ser um refugiado. Explico: alguém havia comentado que se as pessoas querem obter uma vida melhor, devem fazer isso em seus próprios países, "cada um no seu lugar". E o comentário recebeu muitas curtidas. Achei interessante e quis opinar também. Todo mundo gosta de dizer algo, mas a maioria nunca reflete antes de falar ou escrever. Infelizmente, eu não estava cadastrado para comentar também. Daí, fiquei com um nó atravessado na garganta.

Eu queria dizer para o autor deste comentário que gostaria de ver internet em pleno século XVI, melhor ainda se fosse no século XIX, para confirmar se “gente sábia” como ele escreveria um comentário daquele, aconselhando a todos a "ficarem sem seus lugares". Quem sabe assim, a França, a Inglaterra, a Holanda, a Espanha, a Itália e tantas outras potências europeias não explorariam e não saqueariam os recursos naturais e culturais de outros povos.

“Cada um no seu lugar”. Tal frase até hoje me aflige ao perceber que cenas como aquelas podem se repetir - e vão se repetir, pois não acredito na possibilidade das pessoas superarem seus preconceitos de imediato. E quando alguém diz que o outro deve “ficar no seu lugar”, na sua terra de origem, não importando se há dificuldades provocadas pela guerra e pela fome, ele quer dizer que não quer saber dos problemas daquele refugiado, o qual será um estorvo, na sua forma de pensar, uma vez que pode disputar com ele o mesmo emprego. Por ter que andar com ele nas mesmas ruas. Dividir espaços que se conhece, desde a infância, com um refugiado.

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Agora, o “Cada um no seu lugar” não é válido quando o europeu ou norte-americano sai de seu território para provocar uma guerra com o objetivo de vender armas ou controlar áreas ricas em petróleo ou minérios e pedras preciosas. Causar intrigas entre etnias, já rivais, deixá-las num mesmo espaço geográfico chamado país e favorecer esse ou aquele grupo para garantir o controle e depois sair da região, a qual se tornará um campo de guerra. Basta lembrar, como exemplo, a tragédia que ocorreu em Ruanda, em 1994, fruto de dominações europeias que duraram até o início dos anos 1960.

Acredito que o discurso de que "cada um deve ficar no seu lugar" é o que impulsiona uma política que pretende manter grupos que outrora foram duramente prejudicados pela ação daqueles que os exploraram, por achar que sua raça, nacionalidade, religião e cultura são inferiores.

Pelo visto, as lições sobre a perseguição de judeus pelos nazistas não foram suficientes para que aprendêssemos que a ganância e o preconceito não podem prevalecer sobre uma sociedade que espera aniquilar a barbárie. Continuamos a repetir os mesmos erros. Cabe lembrar o que Theodor Adorno nos diz em EDUCAÇÃO APÓS AUSCHWITZ:

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“A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação. Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a regressão; a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. E isto que apavora. Apesar da não-visibilidade atual dos infortúnios, a pressão social continua se impondo. Ela impele as pessoas em direção ao que é indescritível e que, nos termos da história mundial, culminaria em Auschwitz. Dentre os conhecimentos proporcionados por Freud, efetivamente relacionados inclusive à cultura e à sociologia, um dos mais perspicazes parece-me ser aquele de que a civilização, por seu turno, origina e fortalece progressivamente o que é anticivilizatório. Justamente no que diz respeito a Auschwitz, os seus ensaios O mal-estar na cultura e Psicologia de massas e análise do eu mereceriam a mais ampla divulgação. Se a barbárie encontra-se no próprio principio civilizatório, então pretender se opor a isso tem algo de desesperador.”


Carlos Beloto

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