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Sem medo de errar

Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento

As investidas contra a Educação

A possibilidade da educação sofrer um retrocesso é muito grande. O sistema atual de ensino é ruim, mas tende a piorar à medida em que surgem grupos interessados somente em administrar as verbas públicas destinadas a educação, e a interferência de grupos sectários em não permitir que o ensino avance rumo ao respeito humano e às suas diferenças.


Educação, segundo alguns dicionários, significa: "o ato ou efeito de educar; aperfeiçoamento das faculdades físicas, intelectuais e morais do ser humano; disciplinamento, instrução, ensino”. Enfim, educar é muito mais que receber uma mera instrução em instituições de ensino formal. A educação é a formação do indivíduo em e para sua totalidade. Deveria ser o direito de todos e todas capacitarem-se para o mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, desenvolverem-se em sua humanidade. E, ainda, ser um meio que incentivasse as pessoas a buscarem conhecimentos por si mesmas e desenvolvesse nelas um amor pelo saber, pela ciência (no sentido amplo da palavra).

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No entanto, a real situação da educação no Brasil e no mundo está longe deste ideal de ensino que promova o surgimento do “homem integral” – usando um termo marxista – , e sem a pretensão de discutir a educação do ponto de vista de Marx. Até porque a educação não ocupou um lugar central nos estudos deste pensador, apesar de fazer várias referências a ela. Uma “educação integral” deve ser analisada aqui como um conceito que venha a servir de diretriz para um modelo de ensino que pretendemos ter, ou não! Pois, temos uma concepção única e exclusiva de preparar indivíduos para atender aos interesses mercadológicos, não levando em conta a formação do cidadão.

Vemos uma maioria esmagadora de pessoas afirmar que a educação é a base de uma sociedade, e que esta garantirá o futuro promissor de uma nação. Contraditoriamente, insistem em eleger políticos que não dão a mínima para a qualidade do ensino, principalmente o público. Mesmo assim, continuam a dizer que a educação é a solução para melhorarmos o país. Inclusive, ouvimos e lemos declarações lindas de jornalistas e personalidades famosas sobre a educação como instrumento de transformação de um povo. Mas os mesmos, no passado, apoiaram grupos políticos que solaparam a educação brasileira. Sem falar que a grande mídia não explora... não se empenha, para ser mais exato, em trazer à tona os reais interesses em manter o estado precário, no qual se encontra o ensino público.

Como não bastasse o que ocorreu com a educação, em especial, durante o regime militar, levando às consequências termos, hoje, uma maioria de gente mal escolarizada, sem senso crítico, e ainda um bando enorme de analfabetos funcionais, que até mesmo conseguem um diploma, inicia-se uma ofensiva para terceirizar escolas públicas, o que pode levar a uma desvalorização maior dos profissionais da educação e dificultar o ensino-aprendizagem, uma vez que o quê se deverá preocupar é alcançar resultados (entenda-se: números que explicitem que tudo vai bem na educação, para favorecer a eleição de algum político). Há, ainda, os PEEs (Plano Estadual de Educação) e PMEs (Plano Municipal de Educação) que são válidos por 10 anos, cujo teor, além de apontar para o acesso/obrigatoriedade do ensino e valorização do profissional, direcionam para atingir determinadas metas, das quais foram propostas focar a importância de se cultivar o respeito à diversidade e a luta contra o machismo e a homofobia, além de outros preconceitos. Como resultado alguns estados e municípios vetaram em seus PEs (Plano de Educação) referências à “identidade de gênero”, à “discriminação racial”, à “orientação sexual” e até mesmo à “regionalidade”, num momento em que vem crescendo cada vez mais a intolerância àqueles que são considerados inferiores, por não atenderem um padrão.

Já falam em projetos de lei que evitem o “assédio ideológico”, que nada mais é do que evitar que professores emitam opiniões pessoais sobre determinados assuntos, pois, segundo alguns partidários desses projetos, o professor não pode "doutrinar" o estudante (acreditam que existe uma conspiração marxista para converter os jovens ao socialismo). É irônico tal proposta. Não seria uma forma de censurar um educador e ao mesmo tempo impor uma “ideologia” também?

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Não demorará muito, os conteúdos sobre o “evolucionismo” serão substituídos pelo “criacionismo”, pelo andar da carruagem. Nada contra a aplicação deste conteúdo em ensino religioso. O problema é que querem apresentá-lo como um conceito científico, o que não é.

A possibilidade da educação sofrer um retrocesso é muito grande. O sistema atual de ensino é ruim, mas tende a piorar à medida em que surgem grupos interessados somente em administrar as verbas públicas destinadas à educação, e a interferência de grupos sectários em não permitir que o ensino avance rumo a uma cultura do respeito humano e às suas diferenças.

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Na verdade, não podemos somente idealizar uma educação que contemple a formação do “ser humano integral”. É preciso buscar meios para atingirmos esse fim. Quem sabe no futuro desenvolver uma educação na qual Bakunin propôs:

“A razão, a verdade, a justiça, o respeito humano, a consciência da dignidade pessoal, solidária, inseparável do respeito humano de todos; o amor à liberdade para si mesmo e para os demais, o culto do trabalho como base e condição do direito, o desprezo pela demagogia, a mentira, a injustiça, a covardia, a preguiça, tais deveriam ser as bases fundamentais da educação pública. Deve antes de tudo, formar homens, depois trabalhadores especializados e cidadãos, e na medida que avance a idade das crianças, a autoridade será cada vez mais substituída pela liberdade, de modo que os adolescentes, ao chegar a maior idade e sendo emancipados de acordo com a norma geral, podem haver esquecido como em sua infância haviam sido criados e educados de outro modo que pela liberdade”.


Carlos Beloto

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