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Sem medo de errar

Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento

QUE TENHAMOS A CORAGEM DE DEMONSTRAR AMOR AOS OUTROS!

Não percebi, de verdade, a beleza do instante de ter um amigo que não mediu esforços em ser amigo: aquele que, num gesto de coragem, se opõe contra os que querem seu mal, mas que, com a mesma coragem, não hesitaria em me censurar diante algum erro que eu pudesse cometer.


No meio de uma viagem de ônibus bem curta, entre minha cidade e outra a poucos quilômetros, peguei-me fazendo uma reflexão sobre pessoas que passaram em minha vida, o quanto elas me influenciaram e o quão impactante foram esses encontros com algumas delas. Muitas tornaram-se grandes amigas, enquanto outras, infelizmente ou felizmente, personae non gratae.

amizade iii.jpg Foto: autor desconhecido

Houve uma dessas pessoas, em especial, que me veio à memória: um amigo e líder religioso que me ensinou uma série de coisas. Era um homem honesto, temperamental, um pouco explosivo. Mas que carregava no peito um grande amor pelas pessoas. Morreu há pouco tempo. Soube que estava na UTI de um hospital. Pedi a seu primo, outro grande amigo, que me desse notícias, e, se algo pior ocorresse, não deixasse de avisar-me. Não demorou muito, recebi o comunicado de sua morte.

Mesmo não gostando de ir a velórios, estive presente ao dele. Cumprimentei a viúva, mas não quis aproximar-me de seu caixão. Não queria ver, como última imagem dele, um corpo frio, inerte, ali estendido, exposto para que todos pudessem contemplar. Não fiquei muito tempo, pois aquela sensação pesada e triste, própria de funerais, me angustiava. Portanto, nem acompanhei o cortejo fúnebre e o enterro.

Foi-se um grande homem, um grande pai, um amigo-irmão, uma figura modesta e muito franca. E talvez tenha sido essa franqueza que me fez ter muita admiração por ele. Sabia que, quando ele se empenhava em ajudar alguém, não era exibicionismo, não era farisaísmo e muito menos atitude de gente hipócrita. Até porque nunca temeu dizer o que pensava, quando percebia que havia algo errado ou injusto.

Por ser duro às vezes, muitos interpretavam de uma maneira equivocada a sua maneira de ser. Evidentemente, aqueles que o conheciam bem ou os que, antes de fazer um julgamento precipitado, observavam e percebiam que ali, por trás daquela “braveza”, tinha um ser humano de um coração imenso.

Amizade ii.jpg Foto: autor desconhecido

E, voltando ao ponto de onde comecei a me recordar dele, lamentei não ter mencionado e não ter agradecido por sua amizade; por ele ter me defendido de comentários maldosos e por acreditar no meu potencial. Senti-me um ingrato, insensível, que não percebeu, naquele instante, um gesto de alguém que se propôs a ser um irmão. Não percebi, de verdade, a beleza do instante de ter um amigo que não mediu esforços em ser amigo: aquele que, num gesto de coragem, se opõe contra os que querem seu mal, mas que, com a mesma coragem, não hesitaria em me censurar diante algum erro que eu pudesse cometer.

Restou-me a lição que se resume em uma parte de um refrão da música do Renato Russo que fala de relacionamento entre pais e filhos, mas que deveria servir para quaisquer relações humanas: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há”.

amizade i.jpg Foto: autor desconhecido

Que amemos pais, filhos(as), irmãos(as), amigos(as), cônjuges, namorados(as), amantes etc., e que demonstremos, seja através de palavras ou gestos, o quanto elas são importantes pra nós, porque depois não teremos outra chance de dizer mais nada.


Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento.
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