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Sem medo de errar

Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento

O dia em que me apaixonei perdidamente pela Beyoncé

Beyoncé, certamente, não será lembrada só pelo seu talento e beleza. A sua coragem e compromisso na luta contra o racismo, nos Estados Unidos, vai lhe render elogios, mas também críticas de uma sociedade que insiste em manter um espírito fascista disfarçado de democracia.


Para iniciar este singelo artigo que, talvez, não interessará a muitos, desejo afirmar que me defino como homem negro, meio machista e meio feminista, com fortes tendências, dia após dia, a pensar que o mundo feminino é mais interessante que o mundo masculino. Ainda não me acostumei com a ideia de ser feminista, se é possível isso acontecer. Mas tenho me esforçado. Sabe como é, nascer numa sociedade onde você é privilegiado por fazer parte de um grupo que a domina é tentador.

beyoncé 1.png Fonte: http://sobrepop.com/pharrell-williams-revela-que-novo-album-de-beyonce-esta-quase-pronto/

A questão é que, quando se propõe a ser um indivíduo que acha que pode adquirir muito conhecimento, e sai por aí devorando livros, conversando com pessoas que são verdadeiras ou pseudointelectuais, assistindo filmes de várias nacionalidades, indo apreciar peças teatrais ou grandes espetáculos, ouvir palestrantes com altos títulos acadêmicos ou alguma personalidade famosa, torna-se difícil pensar que se faz parte do suprassumo social, uma vez que se descobre que é um baita de um ignorante. Na verdade, torna-se vergonhoso, quando se entende que na realidade é um opressor. Assim, é como me sinto enquanto homem heterossexual, que, como não bastasse é homofóbico, mas que também tenho me esforçado para eliminar essa postura também tão ruim (na minha opinião, pois tem gente que achará normal a homofobia).

Beyonce-dancing-GIF.gif Fonte: desconhecida

O que me permitiu questionar a minha posição, como disse privilegiada, nesta sociedade patriarcal? Não foi apenas o fato de me interessar pelo conhecimento. Não! Isso foi bom, mas não seria possível fazer uma autocrítica. Há algo de que dispomos e muitos ignoram: a diversidade de ideias e o confronto delas em algum debate qualquer, o qual podemos nos propor a fazer, sem a intenção de promover nossas opiniões como verdades absolutas. Debater para conhecer o que o outro pensa e refletir sobre o que foi dito. Eis, no meu caso, o que está me fazendo rever os meus conceitos e preconceitos. A importância da alteridade é vital se quisermos desconstruir um mundo fechado em que vivemos.

Quanto a minha negritude, a qual tenho feito questão de que as pessoas saibam que eu me reconheço enquanto tal, é uma história à parte. Diferente da posição homem-hétero, Ser negro não é algo fácil para mim, pois estou e vivo em desvantagem. Motivo: negro, num país racista como é o Brasil, é o mesmo que lidar com uma subespécie. Somos tidos como os mais burros, os mais feios, os mais desonestos, os mais incompetentes. E quando um de nós se destaca em algum campo de atividade humana, é considerado uma "anomalia da raça", uma exceção. Em outras palavras, demonstra que tudo não passa de um esteriótipo imposto por um mundo social, cujas bases são eurocêntricas. E mesmo quando a ciência (biologia, sociologia, antropologia, psicologia) comprova que não existe superioridade racial, predomina o senso comum de que somos inferiores. É tão forte, que muitos dos nossos irmãos negros acreditaram, e ainda acreditam, nesta falácia. De uma certa forma, a eugenia, cujo significado literal é "bem nascido", afirmava a importância de purificar a raça e para isso era necessário branquear o povo brasileiro, atingiu seu objetivo. Quantas vezes ouvi amigos, de ascendência negra, comentarem que um avô ou bisavô aconselhava a "melhorar a raça" se relacionando com um branco! Muitos dirão: "Está vendo? É uma prova de que o negro é mais racista que o branco, pois não tem orgulho da própria raça". Sinceramente, como exigir orgulho de indivíduos que constantemente sofreram bombardeios de adjetivos negativos? Fizeram lavagem cerebral em nosso povo. Felizmente, não existe uma ideia ou opinião que seja aceita por todos. E foi desta maneira que muitos negros perceberam a importância de ter autoestima e valorizar a própria cultura.

beyonce-knowles-19779-2880x1800.jpg Fonte: desconhecida

Nos dias atuais, com o advento das redes sociais, a divulgação de nossa luta é grande. É verdade que os racistas também propagam ainda mais o seu veneno. Porém, a reação do povo negro e daqueles que são contra o racismo é maior.

Foi o que presenciamos, recentemente, nos Estados Unidos, um país odiado por uma série de brasileiros inconsequentes, um grande exemplo de luta contra o racismo. Na verdade mais um dos grandes exemplos que por lá existe. Beyoncé Knowles, mais que uma cantora, uma mega star, que além de seus milhões em dólares, é uma das mulheres mais desejadas do mundo, expor de maneira corajosa a face cruel do racismo em seu país. E pensemos: gritar para uma enorme quantidade de espectadores e telespectadores, através de figurinos e coreografias, que é preciso dar um "basta" às mortes contra a população negra. Mortes que, ao meu ver, não é só física, mas também emocional. Pois, o racista não quer só destruir o corpo negro. Ele quer também extinguir o amor próprio e a autoaprovação que o negro possa ter de si mesmo.

crianças-negras.jpg Fonte: Desconhecida

Desta maneira, após ver os americanos-brancos-conservadores-fascistas reclamarem de que aquilo não deveria ser feito por uma cantora tão considerada, mudo minha perspectiva sobre Beyoncé. Acreditava que era uma artista fútil, sem nenhum compromisso com as questões sociais. Agora vejo a força e a coragem de aproveitar de sua fama para servir de instrumento contra mazelas de uma sociedade. Que tenhamos outras como ela. Que nossos jovens negros e negras possam ter um maior número de personalidades negras para se espelhar e ter orgulho de nossa ancestralidade, de nossa cor, de nossa cultura. Viva Beyoncé!


Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento.
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