carlos.alves

Sem medo de errar

Carlos Beloto

Cinéfilo sem cura, amante da indústria cultural e apaixonado pelo conhecimento

Brasil e sua berlinda moral

A solução só pode vir quando o povo entender que ele deve ser o protagonista de sua história. Será possível que um dia o povo possa ter esse grau de consciência?


Não queria tocar no assunto. Certamente a maioria das pessoas já estão saturadas de tanto ouvir (ler) sobre o episódio da votação do impeachment que ocorreu recentemente. São postagens e mais postagens nas redes sociais a fazer críticas, a debochar e até mesmo apoiar posturas de alguns parlamentares. Acredito que pelas circunstâncias e pela relevância para o país, quem não gosta de política terá de aguentar por mais um tempo as discussões acaloradas se é justa ou injusta a permanência da presidenta. Digo "justa" ou "injusta" muito mais num tom jocoso. Afinal, na minha honesta opinião, seja qual fosse, ou for, o resultado final não se fará justiça para a população, em sua maioria.

Tudo bem! Nunca antes na história tivemos tantos avanços na área social. Por causa do bolsa-família as evasões escolares diminuíram e a taxa de mortalidade infantil reduziu; criaram novas instituições públicas de ensino superior e tecnológico, mas que, devido às demandas, o Estado também teve que financiar os estudos de muita gente nas universidades privadas, e, como consequência abriram-se as portas para que pessoas de baixa renda tivessem a oportunidade de cursar uma faculdade; ações afirmativas fizeram com que uma porcentagem maior da população negra ingressasse nas universidades. Isso foi bom? Ao meu ver, excelente! Entretanto, nunca antes na história os banqueiros ganharam tanto. Assim como na época de Jango, o presidente deposto pela ditadura que se instaurou em 1964, os sindicatos ficaram atrelados ao governo, tirando dos trabalhadores o poder de mobilização. Em outras palavras, estavam sob o controle estatal. Vários segmentos dos movimentos sociais também ficaram a reboque do governo. E o que vemos hoje é o poder de mobilização dessas entidades não conseguir superar a capacidade de grupos financiados pela iniciativa privada que conseguem levar milhões às ruas. Neste caso, não quero entrar no mérito se os motivos são corretos ou não. O que eu quero apontar é que o Brasil parou de crescer e mesmo as classes menos favorecidas tendo obtido alguns ganhos, começaram a perder em outros.

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É nítido, para mim, que a oposição não tem interesse em alavancar o Brasil socialmente. A história recente diz muito. As práticas políticas e os discursos desses grupos de oposição deixam transparecer que é preciso aplicar princípios neoliberais na economia, ou seja, não cabe ao Estado intervir na forma como o mercado deve agir. Por outro lado, ao mesmo tempo que defende um Estado mínimo na economia, prega-se um discurso de controle sob a vida dos cidadãos. Não querem legalizar o aborto, do qual sou contra, mas entendo que as mulheres devem ter o direito de decidir se querem ou não levar avante uma gravidez. Trabalha ferozmente para eliminar (o termo é esse mesmo) as relações homo-afetivas e a conquista do direito de união civil entre homossexuais. Deseja controlar professores nas escolas, sob o pretexto de impedir que doutrinem as mentes em formação dos jovens. Fala-se em retirar direitos trabalhistas dos proletários, pois os patrões, tão injustiçados, não estão obtendo grandes lucros... e por aí, vai.

Em relação ao ainda governo petista, percebe-se que, com o controle dos movimentos sociais, como sugeri acima, que vem ocorrendo, estagnou várias lutas populares e com isso, um governo pretensamente de esquerda realiza aquilo que nenhum partido da direito havia conseguido fazer tão bem: diminuiu a resistência dos trabalhadores contra o avanço das perdas de direitos trabalhistas, que ainda não aconteceu. No entanto, há possibilidade disto ocorrer. Nota-se também que a questão indígena tem sido ignorada pelo governo, pois tem feito vistas grossas sobre a invasão de terras indígenas e o massacre destes povos. Poderia citar o caso do Código Florestal que permite uma maior extensão legal de desmatamento, para favorecer o agronegócio, que foi alterado na gestão do governo Dilma Rousseff. Mas deixa pra lá, por enquanto!

Isto tudo só me faz pensar na letra de uma música do MV Bill, Brado Retumbante, que afirma que, em relação aos mais pobres, a "esquerda não contemplou, direita ignorou". E continua, fazendo a seguinte proposta ao povo: "Acorda, lava a cara que o gigante acordou E que não durma! E forme muito mais do que uma turma Uma corrente, Brasil pra frente, tá no cartaz Tolerância zero pra quem Faz a guerra e fala de paz Descobrimos a trama muita grana nessa lama Formando o negro drama Pique osama Que tem gana Pra detonar quem engana A rua clama e o povo chama".

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Uma música composta há mais de 10 anos, deixava explícito que não adiantava acreditar no sistema político. A solução só pode vir quando o povo entender que ele deve ser o protagonista de sua história. Sem partidos, sem manipulação de grupos que se dizem apartidários, é o que precisamos agora. Será possível que um dia o povo possa ter esse grau de consciência?


Carlos Beloto

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