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Balaio de Epifanias

Carolina Zimmer

Mãe de gato e de cachorro. Meio hippie, meio chic. Amante das onze artes. Sonha em pisar em todos os continentes e em ser escritora de ficção. Ainda acredita no amor

Ron Mueck - A fascinação e o mistério do corpo humano

Reflexões breves sobre o corpo humano retratado na arte, principalmente na escultura.


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Passamos a maior parte da vida contemplando o corpo humano, num misto de fascinação e reverência perante o mistério da criação.

Todas as formas de arte, da pré-história aos tempos contemporâneos, retratam a figura humana, mas é na escultura que essa obsessão se manifesta com todo o seu estupor.

Diante disso, não há como não mencionar Ron Mueck, escultor australiano que em quatro exposições (Paris, Buenos Aires, Rio de Janeiro e São Paulo) já atraiu mais de um milhão de visitantes em menos de um ano.

No momento a obra pode ser apreciada na Pinacoteca de São Paulo até o dia 22/02/2015 e filas imensas, com média de quatro horas de permanência, dão o tom da exposição. Apenas nove esculturas e um documentário produzido totalmente sem som são o alvo das multidões.

O moto da mostra é “do tamanho da sua expectativa”, ao que posso afirmar, após passar pela via crucis e contemplar o legado do artista: “bem maior do que a sua expectativa”.

A pergunta que fica é: por que alguém se submeteria a um processo desconfortável de espera, pelo menos quatro vezes maior do que o tempo de prazer, apenas para apreciar o corpo humano reproduzido de forma hiper-realista?

O fato é que o corpo humano, essa máquina perfeita e complexa, é um dos grandes mistérios do universo.

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Por mais que a ciência tenha evoluído, ainda não há como responder, de forma completa e integral, as grandes questões existenciais que afligem a humanidade: de onde viemos e para onde vamos? Por isso o fascínio pelo enigma da criação: o corpo, esse escafandro no qual todos se sentem, de alguma forma, presos e escravizados.

Sobre isso já dizia Frida Kahlo: “(E o que mais me dói) é viver num corpo que é um sepulcro que nos aprisiona (segundo Platão), do mesmo modo como a concha aprisiona a ostra.”

O que nos deixa boquiabertos, no entanto, é não só ver o corpo humano magnificamente retratado em dimensões não esperadas pela razão, mas principalmente as emoções que vivem e habitam cada uma das esculturas.

É tão assombroso que a sensação é de que há nove almas humanas aprisionadas dentro de nove estátuas, como se cumprissem uma sentença divina, de expiação dos seus pecados e seus erros.

O filho que não encontra o olhar da mãe depressiva. O sono plácido e amorfo da grande cabeça. O casal de idosos, demonstrando intimidade e o alheamento da idade. O olhar de interrogação e calma do homem no barco.

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Como se não bastasse isso, o documentário retrata um artista que produz em silêncio, com a ajuda de dois assistentes, e que tem como característica não só criar obras hiper-realistas, mas de forma hiper-perfeccionista, ao ponto de inserir os cabelos e pelos nas estátuas, um a um.

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Um trabalho minucioso, demorado e refeito, diversas vezes, até atingir tal perfeição, que se não fosse pelos tamanhos inesperados, as estátuas poderiam facilmente ser confundidas com seres humanos vivos.

Ron Mueck, hiperbólico.


Carolina Zimmer

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