carolina zimmer

Balaio de Epifanias

Carolina Zimmer

Mãe de gato e de cachorro. Meio hippie, meio chic. Amante das onze artes. Sonha em pisar em todos os continentes e em ser escritora de ficção. Ainda acredita no amor

Quero falar sobre o Novo Homem

O artigo discute o papel e a posição do homem na transição do patriarcado para uma sociedade de igualdade de gênero.


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É fato que o movimento feminista alcançou várias vitórias e beneficiou a sociedade de diversas formas. Também é claro que ainda não existe uma verdadeira igualdade entre os gêneros na sociedade, assim como não há a tão sonhada isonomia, no que tange a qualquer outra minoria como os negros, os gays, os deficientes e por aí vai. Acredito que os reflexos destas lutas terão seus resultados efetivos aplicados para as gerações futuras, talvez nossos netos e netas possam viver este legado na sua plenitude.

Portanto, não é do meu interesse levantar a bandeira feminista neste artigo, tampouco fazer um discurso que beira a misandria, num franco radicalismo, o que tenho visto com grande frequência nos espaços de discussão, no cinema, no teatro e na literatura. Quero apenas falar sobre a crise do patriarcado e os seus reflexos na construção do “novo homem”.

Afinal o que as mulheres querem?

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Crescemos bombardeadas por informações subliminares de que homens devem ser heróis: corajosos, guerreiros, salvadores, fortes, uma perfeição. Basta assistir algum filme da Disney das décadas de 70, 80 e 90 para perceber que inconscientemente as mulheres que tem hoje entre 20 e 40 anos tem no seu imaginário a figura sólida do príncipe salvador.

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Da mesma forma, a mesma geração feminina, em sua boa parte, cresceu em lares em que a mulher trabalhava e era uma feminista. O que se pregou nesta época é que para uma mulher conquistar o seu espaço no mundo masculino, deveria ser capaz de ganhar seu próprio sustento, desenvolver-se intelectualmente de forma superior a um homem para ser aceita num mercado de trabalho desigual e ainda não descuidar dos aspectos femininos como os cuidados com o lar, os filhos e o corpo. Em outras palavras, ser autossuficiente, perfeita, uma heroína.

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Entretanto, homens continuaram recebendo uma educação muito similar a dos seus pais e avós, não porque aquela mãe não pudesse ou não quisesse fazer diferente, mas sim porque o movimento feminista estava no início e a opressão do sistema sobre ela era muito mais evidente. Apenas para ressaltar, a Lei do Divórcio só foi introduzida no sistema jurídico brasileiro em 1976.

E aqui é o ponto onde quero chegar. Quem é o novo homem, o que ele espera dele mesmo e como ele se sente em relação à nova mulher?

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O novo homem é um sujeito que acredita que as mulheres têm direitos iguais e que sabe que o patriarcado está em franca decadência. Ele está disposto a dividir as tarefas domésticas e é um pai muito mais presente na criação dos filhos. Ele realmente quer ao seu lado uma mulher independente que o valorize pelo que ele é e não pelo que ele é capaz de prover. Todavia, esse novo homem está aterrorizado.

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Durante gerações e gerações esperou-se dele que fosse apenas um bom provedor, que fosse bem sucedido profissionalmente e que tivesse caráter. De repente surge a nova mulher com necessidades muito superiores a isso. Ela quer um “super homem”, pois se tornou a “super mulher”.

O novo homem sabe que para fazer jus a ter a nova mulher ao seu lado é necessário aumentar o seu leque de interesses. Entender de carros e futebol não é suficiente, agora é preciso ter conhecimentos em arte, cultura, viagens, gastronomia, enologia, filosofia, etc.

Sabe também que precisa conversar sobre seus sentimentos, praticamente uma atitude fora do repertório masculino por milênios e, quem sabe, seja até uma inaptidão biológica. Mas não basta conversar, terá que ser feito de tal forma que ao expor a sua vulnerabilidade não pareça fraco, pois fraquezas não são toleradas pelas mulheres.

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E quando o sucesso profissional dela for maior do que o dele? É neste campo que homens sempre foram exigidos, é prova de virilidade do patriarcado. Como esse homem lida com esse sentimento nunca experimentado pelos seus antecessores? Ele entra em competição com ela? Ele se sente um perdedor? Ele sente culpa por sentir?

Como o novo homem lida com a sexualidade? Ele sabe que a nova mulher é liberada sexualmente e que está disposta a ter tanto prazer quanto ele na relação. Como fica a questão da insegurança masculina neste ponto? Nas gerações anteriores, ser bom de cama não era pré-requisito.

Mas de todas as questões que possam ser levantadas, tem uma que acredito seja a mais complexa: como esse homem lida com o abandono?

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Historicamente quem abandonava o lar era o homem. Mulheres, por mais que quisessem se afastar do cônjuge, só o podiam fazer, caso tivessem um motivo justo para isso, tal qual violência doméstica, doença contagiosa, maus tratos, etc. Além disso, mesmo sendo vítima de agressões, ainda assim a mulher sempre teve uma tendência a não se afastar dada a cultura patriarcal opressora, lembrando, inclusive, que a Lei Maria da Penha só foi editada no país em 2006.

Acredito que o que mais aterroriza o novo homem é a possibilidade de ser deixado. Os sentimentos de impotência, abandono e ressentimento em relação a uma mulher não eram vivenciados tão intensamente e com tanta frequência pelos homens das gerações anteriores.

O novo homem tem medo da nova mulher porque sabe que o único motivo que a prende a ele é o fato dela efetivamente querer ficar.

Portanto, nós, homens e mulheres que estamos vivendo a transição do patriarcado para uma igualdade de gêneros, em franca crise social, temos o dever de nos conscientizarmos de que homens não são heróis e mulheres não são heroínas, somos apenas seres humanos cheios de falhas e capazes de qualquer adaptação, que é o que nos torna animais tão exóticos e emocionantes.

No Dia Internacional das Mulheres deste ano só quero jogar dois bumerangues ao universo, para que um dia as respostas retornem a mim: Mulheres e homens, o que nós queremos um dos outros? Como podemos conseguir isso em parceria?

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