carpinteiros do universo

Fatias das delícias e insanidades do nosso cotidiano.

Bruna Girardi Dalmas

Não existe uma pílula para cada problema de nossas existências. Mas, ficar estacionado em nossas zonas de conforto não é a melhor saída. Vai ficar aí estacionado ou vai desenvolver algo criativo? Aqui você encontrará pílulas de inteligência embaladas em recortes dos mais variados temas para sacudir o cotidiano e preenche-lo de cores bonitas.

Escolhi minha diva pop, Adele me representa

Um recorte musical a respeito da entrevista da cantora Adele, um pouco sobre sua perfomance no Grammy e uma reflexão a respeito do que é considerado normal.


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Estava passando de canal e resolvi deixar no Fantástico, e fui surpreendida por uma entrevista totalmente honesta e humana. Sem aqueles retoques de perfeição ou vendendo uma ideia de vida perfeita, da qual tantos artistas tentam passar. Faz tempo que admiro uma cantora que, modéstia à parte, me ajudou muito no período que estava na fossa, me encontrava literalmente enterrada em minhas mágoas e quase dormindo de conchinha com as minhas angústias. E aí, tinha ganhado um dos melhores presentes - costumo dizer que certas pessoas têm uma capacidade quase mágica de nós presentear com algo que é como um kit de sobrevivência para aquele momento que estamos passando - e, ao invés de me afundar de vez nas minhas tristezas, coloquei para tocar sem parar o álbum chamado 21, da Adele. Cantei, chorei, me identifiquei, me inspirei, enfim, superei, ufa.

Voltando à entrevista, lá estava a diva pop em mais uma apresentação ao vivo, com seu vestido deslumbrante, acompanhada de um piano e cantando a pleno pulmões. Mas, ela foi sendo tomada por um pânico de estar desafinando, de não estar conseguindo acompanhar e ali estava se pondo o famoso bichinho da perfeição. Afinal, todo arista que se preze quer dar o seu máximo e se coloca de alma no palco, não admite deslizes e desafinar no Grammy não era o que Adele almejava. Após o incidente, a cantora disse que chorou muito, acabou por afogar as mágoas tomando uma cerveja, devorando um hambúrguer duplo acompanhado de batatas fritas. Sim, assim como acontece com muitas mulheres, de vez em quando encontram refúgio em seus alimentos prediletos. Tenho uma queda fatal por doces, já afoguei muitas mágoas em uma fatia de torta de chocolate branco, quanto mais doce, melhor. E nada melhor do que estar munida de uma lata de leite condensado, os problemas parecem sumir.

Admitir suas fraquezas e seus desapontamentos em público e abrir o jogo quanto ao seu lado imperfeito, é um dom para poucos. Exige doses de coragem acompanhada de muita autenticidade. Legal seria se as pessoas famosas adquirissem o hábito de demonstrar mais vezes ao vivo o seu lado humano, ao invés de tentarem, todo tempo, parecer felizes, magras e confiantes o tempo todo. Adele também falou do seu bloqueio criativo que perdurou quase cinco anos, do trabalho que teve de escrever novas canções, tirar inspiração e conseguir produzir um novo disco. Falou também de ser mãe, da alegria de poder tem uma vida relativamente normal, já que disse ser até pacata, adora poder sair por aí sem estar munida de maquiagem. A alegria de poder sair sem muitas produções e se sentir bem com isso. De estar tentando seguir um regime rigoroso para se manter saudável, mas se permitir alguns deslizes de vez em quando, sabendo que isso é totalmente aceitável.

Senti-me compreendida, respeitada como mulher, e fui tomada por uma enorme necessidade de termos mais cantoras, atrizes, modelos, entre outras pessoas da mídia, que tenham a coragem de desafinar, cometer deslizes e admitir que surtam de vez em quando, sofrem com a TPM, lutam para entrar numa calça 38 e nem sempre tem paciência para se maquiar. Um mundo de mulheres famosas simplesmente por admitirem suas manias, estranhezas, devaneios e o que mais for acompanhado ou não de boas doses de glicose e, talvez, um drink de vez em quando.

Talvez, um dia possamos dar adeus à ditadura da beleza, dar boas-vindas à ditadura da “normalidade". Parafraseando Caetano, se de perto ninguém é normal, deveríamos perder a mania de bancar a perfeição o tempo todo e começar a expor mais nossa humanidades por ai.

Quem sabe desafinar, escorregar do salto de vez em quando, cometer algumas orgias gastronômicas sem transformar isso numa tempestade em tampinha de refrigerante. Sejamos mais Adele, admitamos nossas fraquezas ao vivo e à cores. Aprendamos a ser nós mesmos tanto no escuro quanto à luz do dia.

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Bruna Girardi Dalmas

Não existe uma pílula para cada problema de nossas existências. Mas, ficar estacionado em nossas zonas de conforto não é a melhor saída. Vai ficar aí estacionado ou vai desenvolver algo criativo? Aqui você encontrará pílulas de inteligência embaladas em recortes dos mais variados temas para sacudir o cotidiano e preenche-lo de cores bonitas..
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