carpinteiros do universo

Fatias das delícias e insanidades do nosso cotidiano.

Bruna Girardi Dalmas

Não existe uma pílula para cada problema de nossas existências. Mas, ficar estacionado em nossas zonas de conforto não é a melhor saída. Vai ficar aí estacionado ou vai desenvolver algo criativo? Aqui você encontrará pílulas de inteligência embaladas em recortes dos mais variados temas para sacudir o cotidiano e preenche-lo de cores bonitas.

a garota dinamarquesa

Uma pequena resenha a respeito de um grande filme que deve ser sentido e não apenas assistido, um recorte a respeito do filme: A Garota Dinamarquesa.


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Triste olhar para o seu corpo no espelho e não se reconhecer. Ali tem um homem refletido, mas a essência é feminina. O homem deseja mesmo que de forma inconsciente dar voz, liberdade, corpo e vida a mulher que ali habita. Bem vindos ao mundo do pintor Einar Mogens Wegener, um talento para as artes, um casamento aparentemente feliz com a também pintora Gerda e tudo parecia bem. Se não fosse a negação de si mesmo, da sua essência e dos seus instintos. Não vou me deter a respeito do movimento transgênero. Quero escrever uma resenha a respeito de sermos e pertencermos a nós mesmos. Afinal nascemos livres e a medida do tempo vamos perdendo a liberdade. Talvez um dos piores tipos de prisão nunca pertencera a si mesmo pelo simples fato de não se reconhecerem em seus corpos.

O nosso corpo é como uma embalagem do qual estamos destinados a viver e com ele também fica subtendido que papel devemos ter na sociedade. Desta forma, o filme que se passa em meados da década de 20, quando os papéis dos homens e das mulheres ainda eram bem distintos e o preconceito imperava, o que fielmente acredito não ter mudado tanto assim. Einar, o protagonista, se casou, frequentava a alta sociedade, estava se tornando um artista promissor, tudo estava bem perante ao que ele representava. Ao seu lado, sua amiga e esposa Gerda que tentava se consagrar nos mundo das artes pintando retratos. Em uma tarde a sua modelo não vai poder pousar, ela sugere então que o marido possa encenar o papel da modelo. O que era para ser apenas uma brincadeira trouxe a tona a verdadeira essência e os verdadeiros valores do marido. Juntos deram vida a um personagem que sempre esteve entre eles, mas não podia ser vivida, Lili surge. Uma garota dinamarquesa de cabelos ruivos, olhos azuis vividos e uma beleza perturbadora. Muito mais do que apena um homem transvestido, o ator Eddie Redmayne consegue fazer o que poucos conseguem, transpor através do olhar todos os sentimentos que estão transbordando em seu personagem. O espectador que acompanha a história se sente presente ali dentro da cena, como se estivesse observando cada detalhe, sentimento e forma.

Um filme que não pode ser visto sem se ser sentido. Você sente o drama, a transformação e a liberdade do personagem tudo isso impresso em uma atuação vivida, real e humana. Sem usar muitos maneirismos, nem trejeitos, apenas retratar a humanidade como ela é, simples, porém profunda e complexa. Lili só pode ser tornar ela mesma por uma pessoa, existe um ingrediente fundamental que faz que a história tenha ganhado vida, Gerda. Através do seu amor incondicional, do seu cuidado sem medidas, da sua compaixão e da forma pelo qual compreendeu o marido sem preconceitos, ela permanece ao lado dele durante todos os momentos até mesmo durante a cirurgia que a faria se tornar o que sempre foi, uma dama. Ela é uma mulher forte que estava a frente da sua época, soube abrir mão de um casamento, do homem que amava a fim de dar vida ao sonho dele. Não foi por ele ter se transvestido para pousar nos seus quadros e nem mesmo pelo desgaste do casamento, quando estamos destinados a sermos alguma coisa, não adianta o tempo, os disfarces e os esforços para esconder, uma hora ou outra nos despimos e mostramos exatamente quem somos.

Entre diagnósticos preconceituosos, terapias evasivas, o pintor foi o primeiro homem a realizar cirurgia para realizar a mudança de sexo. Se foi bem sucedida ou não, pouco importa, ele entrou para história, se tornou um dos pioneiros pela mudança e pelos direitos das pessoas transgênero. Assisti ao filme com o coração, levei a minha alma a experienciar as dores e as delicias que viver nos proporciona. O quanto é duro, complexo a tarefa de amar, mas ali está um casal que se amou de forma incondicional afinal o combustível para uma relação perdurar não se trata apenas dos desejos carnais e sim de respeitar os valores e a essência de nossos companheiros. Gerda e Einar, Gerda e Lili , isso pouco importa, o essencial foi a coragem, os sentimentos e o respeito pelo outro. Gerda surpreende muitas mulheres, já que se colocou de lado, deixou seu papel de mulher para ser exatamente o que o marido precisava, alguém que o apoiasse, o amasse e o entendesse sem julgamentos ou preconceitos.

Se o filme irá levar a tão disputada estatueta, isso não se sabe. Mas se ele se tornar uma poderosa reflexão a respeito das diferenças, da igualdade e principalmente compreender os porquês de haver tabus a respeito dos diferentes tipos de sexualidade ainda, o filme já vai ser um merecedor. Convido a todos que se dispam de seus preconceitos, saiam de suas zonas de conforto e criem empatia para se colocar no papel das pessoas que não podem exercer um dos únicos direitos inatos, o de pertencer e poder ser quem somos, seja pela religião, pela opção sexual, pela cor da pele ou pelo tipo que for. Afinal pertencer ao que não somos é transvestir a nossa alma de vazios quem uma hora outra acabarão escapando e ganhando vida.


Bruna Girardi Dalmas

Não existe uma pílula para cada problema de nossas existências. Mas, ficar estacionado em nossas zonas de conforto não é a melhor saída. Vai ficar aí estacionado ou vai desenvolver algo criativo? Aqui você encontrará pílulas de inteligência embaladas em recortes dos mais variados temas para sacudir o cotidiano e preenche-lo de cores bonitas..
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