carpinteiros do universo

Fatias das delícias e insanidades do nosso cotidiano.

Bruna Girardi Dalmas

Não existe uma pílula para cada problema de nossas existências. Mas, ficar estacionado em nossas zonas de conforto não é a melhor saída. Vai ficar aí estacionado ou vai desenvolver algo criativo? Aqui você encontrará pílulas de inteligência embaladas em recortes dos mais variados temas para sacudir o cotidiano e preenche-lo de cores bonitas.

Nise no Coração da Loucura

O filme Nise no Coração da Loucura em cartaz nos cinemas brasileiros, retrata a magnitude da carreira da psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999) que revolucionou para sempre o sistema psiquiátrico brasileiro. Através da arte há o despertar para a humanização nos processos, redescobre-se potenciais criativos e impulsiona a coragem para entrar na história.


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Nise da Silveira ( 1905-1999) foi uma psiquiatra brasileira que revolucionou os procedimentos médicos brasileiros de sua época. A medicina era formada basicamente por homens, com este detalhe já dá para imaginar o quanto uma presença feminina era contrastante. Ainda mais uma médica que não concordava com os métodos vigentes na época que utilizam de terapias de eletrochoque, lobotomia para “ajudar” em diversos distúrbios mentais.

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Sem conseguir um espaço dentro da psiquiatria, já que confrontou os métodos utilizados ao afirmar que a sua ferramenta de trabalho eras os pinceis e não o picador de gelo, foi deslocada para uma área do hospital pouco conhecida, pouco utilizada, a terapia ocupacional. “Foi ali que ela descobriu que através da arte as pessoas que eram vistas como incuráveis, que sofriam de maus tratos e por vezes eram torturadas como forma de “serem “ curadas”, produziam de forma brilhante verdadeiras obras de arte que poderiam muito bem ter sido pintada por grandes artistas renomados. Os ditos incuráveis pouco tiveram acesso ao mundo externo, as escolas de arte e muitos nunca tinha tido nenhum contato com arte, mas Nise sabia que eles retravam eram fotografias de seu mundo interno. Ou seja, através da arte abra-se uma fresta, inaugura-se uma porta para que possamos adentrar em um universo repleto de sentimentos e emoções que pouco eram percebidos de forma positiva pela medicina vigente da época. Nise nos recordar do humano contido em cada uma daquelas pessoas que viviam a mercê de métodos agressivos, tratamentos hostis que pouco tinham a pretensão de beneficiar uma qualidade de vida, as casas de saúde viravam apenas depósitos de gente, gente que incomodava, gente que era abandonada pelas família, ou seja gente trancada e altamente medicada, era gente que não incomodava. O filme mostra que resgatar o lado humano, dar vazão aos sentimentos através da arte é algo poderoso e notável.

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O filme se passa no Engenho de Dentro, um centro psiquiátrico que é retratado no filme em cores em sépia, para que se possa verdadeiramente transportar o telespectador para aquele momento. Dr Nise retorna a instituição depois de anos afastada, se assusta com o descaso em que o hospital se encontra e se depara com médicos orgulhosos de seus métodos agressivos, invasivos e altamente questionáveis. Com isso, quando lhe dão a ala da terapia ocupacional, ela é tomada por uma vontade revolucionar o ambiente, com uma abordagem mais humanizada e começa a chamar os pacientes de clientes. Ou seja, ela entende que se os chamassem de clientes, os médicos e enfermeiros estariam a serviço daquelas pessoas e assim retira a conotação passiva daquelas pessoas que eram submetidas a todo e qualquer tipo de invasão sem serem perguntadas, escutadas e muito menos atendidas da forma que mereciam. Nise sofre resistência de muitos, mas acaba por conseguir apoio de alguns. Uma figura importa é a de Almir, um simpatizante das belas artes, ele traz para a terapia ocupacional tintas e pinceis e deixa de que forma livre, sem nenhum estímulo àquelas pessoas ditas incuráveis pudessem por sua vontade representar o que bem entendessem e sentissem nas telas brancas. Com o tempo surge todo o tipo de beleza: mandalas, paisagens, retratos de lugares onde os internos moravam, fragmentos de suas histórias, uma coleção de detalhes impressionantes surgidos aparentemente do nada. Outro elemento essencial que revolucionou foi à presença de cães no tratamento dessas pessoas, já que os animais possuem uma função de coo terapia, ajudam de forma terapêutica a estabelecer vinculo comunicação, noções de cuidados e tantas outras ferramentas.

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Na parte técnica do filme, ele traz umas boas fotografias, uma direção que não perde tempo e conta a história de uma forma direta e de modo correto, sem se privar dos detalhes e da sensibilidade. É possível quase sentir a empatia transmitida por Nise, a sua luta e a sua revolução, levando o espectador em muitos momentos as lágrimas. O grande destaque vai para o som, a música cantada, as melodias que embalam as cenas e a forma como tudo isso interage na história. A emoção que o som nos transmite não é óbvia, mas ela é inserida de uma forma delicada que a cada cena se transpõem causando um efeito peculiar. A essência do filme é arte como instrumento para o melhor desenvolvimento humano. Os momentos de descoberta são sublimes, a cada quadro exposto um encaminhamento e uma grata surpresa. Passar através da arte o que está dentro do inconsciente, dentro do mundo interno de cada uma daquelas pessoas é um ato não só de coragem, mas um ato de amor. Nise se comunica com um dos maiores pensadores de sua época, um psiquiatra, um pesquisador e também um revolucionário de sua época Jung. São notáveis as influências e a forma com Jung embasou todo o trabalho de Nise, ela encontra ali naquela teórica uma forma de sentir acolhida, de se sentir mais forte e poder seguir adiante com sua descoberta, por mais que tenha sido censurada, compreendida e por vezes sofreu duras repressões, mesmo assim consegue ir à frente do seu tempo, usando a empatia, a escuta incondicional, o amor, paixão e tantos outros ingredientes que só podem estar contidos em um profissional que não se acomoda não se conforme e tem a capacidade de se chocar com os absurdos empregados pela força e não pela vontade ajudar.

Este drama biográfico é um convite à alteridade, ou seja, nos mostra que nem sempre se colocar no lugar do outro é uma tarefa fácil, mas como a própria Nise nos ensina “há dez mil modos de percorrer a vida e de lutar pela sua época”.


Bruna Girardi Dalmas

Não existe uma pílula para cada problema de nossas existências. Mas, ficar estacionado em nossas zonas de conforto não é a melhor saída. Vai ficar aí estacionado ou vai desenvolver algo criativo? Aqui você encontrará pílulas de inteligência embaladas em recortes dos mais variados temas para sacudir o cotidiano e preenche-lo de cores bonitas..
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