carpinteiros do universo

Fatias das delícias e insanidades do nosso cotidiano.

Bruna Girardi Dalmas

Não existe uma pílula para cada problema de nossas existências. Mas, ficar estacionado em nossas zonas de conforto não é a melhor saída. Vai ficar aí estacionado ou vai desenvolver algo criativo? Aqui você encontrará pílulas de inteligência embaladas em recortes dos mais variados temas para sacudir o cotidiano e preenche-lo de cores bonitas.

uma revisão sobre o feminismo

Uma revisão sobre o feminismo é uma crônica para repensar o papel da mulher na sociedade atual. Falar um pouco a respeito dos costume, os abusos sofridos por quem sofre pela dominação masculina e o que de fato estamos fazendo ou não em relação a tudo isso.


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Sou dona do meu corpo. Sou dona dos meus pensamentos. Sou dona das minhas escolhas. Sou dona do meu destino. Sou dona da minha alma. Sou dona de mim mesma. Sou dona da minha história. Sou dona dos meus defeitos. Sou dona dos meus deslizes. Sou dona dos meus acertos. Sou dona do meu próprio nariz. Mesmo sendo dona de mim, a cada volta na rua, a cada esquina cruzada, a cada lugar encontrado, esbarro com “homens” que insistem em fazer o que sempre fizeram dominar, impor seu machismo sob as mulheres.

Cantadas baratas, olhares agressivos, gestos obscenos e tantas outras atitudes arcaicas e fora de contexto. Independente da cor de pele, estilo ou comprimento da roupa, é mulher e isso basta. Parece que nascemos condicionadas a sermos escravas dos olhares masculinos desde muito cedo, sou do tipo que não leva desaforo para casa. Desde muito cedo, compreendi que o poder de não baixar a cabeça, nem o de pessoa alguma bancar seja: as minhas contas, meus atos ou os meus desalinhos. Aprendi a ser protagonista e não coadjuvante da minha existência, graças a minha mãe que me deu um valor precioso chamado democracia. Tudo isso me fez pensar em uma letra do Renato Russo chamada Primeiro de Julho, imortalizada pelo timbre contundente e a interpretação sublime de Cássia Eller. Os versos que dizem: Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher. Sou minha mãe e minha filha, minha irmã, minha menina Mas sou minha, só minha e não de quem quiser. Justamente isso as mulheres devem pertencer apenas a si mesmas, parar de ficar procurando a metade da laranja ou do que quer que seja. Nós mulheres somos inteiras demais, intensas demais para sermos metade de alguma coisa, somos por si próprias um universo, apenas nos deixamos esquecer o quanto somos felinas, guerreiras, heroínas e mais um dicionário inteiro de adjetivos. Recordei do primeiro filme que assisti neste ano, As Sufragistas, um drama histórico que retrata a luta das mulheres ao direito ao voto no Reino Unido durante o século XX. Apesar de trabalharem tanto quanto os homens ou até mais, passarem por situações precárias de trabalho, serem molestados, ganharem menos e uma série de abusos, elas não tinham direito ao voto. Pensar que a Arábia Saudita concedeu o poder do voto para as mulheres em 2015 e no Brasil achamos que o Bolsonaro é apenas um cara polêmico. Apesar de podermos votar, apesar dos países mais ortodoxos e radicais começarem a ter representantes femininos, de termos conquistando muitas coisas, ainda somos dominadas pelos homens. Hipocrisia não perceber que os homens dominam historicamente, é uma questão comprovada e não dá para negar. Outro fato que não dá para negar o quanto os abusos ainda existe, sejam aqui no Brasil, nos países mais radicais ou no lugar que for. As mulheres são assediadas e muitas vezes os finais são trágicos. Muitas entraram para história, outras deram a vida para entrar na história e a maioria é esquecida com apenas uma notícia de rodapé de um jornal qualquer, afinal mulheres são vítimas de violência o tempo todo, nenhuma novidade, parece que já virou banalidade.

Outro dado para contrapor ou complementar, estava esperando o ônibus quando me deparei com uma cena curiosa. Uma moça com curvas avantajadas, usando um vestido extremamente curto, resolveu não esperar a sinaleira fechar e se pós no meio do corredor de ônibus, pedindo que este parasse para ela conseguisse chegar do outro lado da rua. A senhora ao meu lado, estava perplexa e demonstrava uma indignação tamanha que me fez observar uma segunda cena, também bastante curiosa. Na nossa frente havia uma mãe também de curvas avantajadas, roupa apertada que mostrava mais do que deveria mostrar, estava acompanhada por três meninas pequenas que se vestiam tal como sua genitora, sentadas todas de pernas abertas, conseguiram captar atenção de todos que passavam. A senhora começou a me perguntar onde aquilo iria parar afinal as gaúchas já foram consideradas as mulheres mais bem vestidas e também as mais bonitas. Não é a questão da roupa me disse ela, mas sim a mensagem que ela passa. Essas mulheres mostram demais, acabam por chamar os olhares para si e por vezes passam a serem percebidas como fúteis. Fiquei pensando que de certa forma ela tem razão, se queremos ser valorizadas, devemos começar a nos valorizar. Infelizmente a forma pela qual nos vestimos traduz e passa mensagens aos outros, essas muitas vezes podem estar em contraponto com a nossa essência. Mas, refleti e pensei que estranho à gente ter que se arrumar de acordo com os que os outros vão pensar, ficou complicado. Fiquei mais um tempo escutando aquela desconhecida, fiquei dosando o que pensava a respeito das mulheres, do machismo ainda em voga e dos costumes.

Enquanto isso, pensei o quanto é complicado ser mulher. Se a gente se veste de uma forma que nos parece normal, chamamos a atenção. Se nos vestimos um pouco decotadas ou da forma mais ousada , também somos notadas. Se respondermos e revidamos aos insultos, passamos por más educadas e por vezes tememos por agressão. Acredito que o segredo seja: tenha um corpo, tenha uma mente, tenha um estilo, tenha personalidade e saía de casa do jeito que você for. Afinal o seu corpo, as suas roupas são a sua embalagem, o seu cartão de visita, os homens devem se encantar com isso ou não, mas se apaixonar pela nossa inteligência, nosso caráter e a nossa essência. Ainda torço por um mundo aonde as estantes serão maiores que os guardas roupas, a inteligência seja percebida como afrodisíaca e as atitudes serão mais valorizadas do que as palavras.

Enquanto isso não acontece, vou ser dona de mim mesma, cultivar a minha liberdade. Afinal, nascemos livres e vamos criando prisões a medida que vamos fazendo escolhas. Optamos por relacionamentos onde queremos ser bancadas financeiramente, emocionalmente e clamamos por democracia. Optamos por nos calar durante o cotidiano, engolimos a seco as piadas, os elogios e tantos outros abusos, acabamos por colecionar ressentimentos. Optamos por reclamar e falar sobre feminismo em todos os lugares, mas não saímos de cima do muro e nem revisamos nossas atitudes.


Bruna Girardi Dalmas

Não existe uma pílula para cada problema de nossas existências. Mas, ficar estacionado em nossas zonas de conforto não é a melhor saída. Vai ficar aí estacionado ou vai desenvolver algo criativo? Aqui você encontrará pílulas de inteligência embaladas em recortes dos mais variados temas para sacudir o cotidiano e preenche-lo de cores bonitas..
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