carpinteiros do universo

Fatias das delícias e insanidades do nosso cotidiano.

Bruna Girardi Dalmas

Não existe uma pílula para cada problema de nossas existências. Mas, ficar estacionado em nossas zonas de conforto não é a melhor saída. Vai ficar aí estacionado ou vai desenvolver algo criativo? Aqui você encontrará pílulas de inteligência embaladas em recortes dos mais variados temas para sacudir o cotidiano e preenche-lo de cores bonitas.

Não Seja um Panetone

Uma reflexão a respeito das relações ou não que estabelecemos com os outros.


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Os panetones são vendidos e lembrados nas épocas natalinas. Depois disso, quase ninguém se lembra deles, alguns ficam mais um tempo nas prateleiras dos supermercados e logo depois desaparecem. Muitos não gostam, mas os comem porque combinam com o Natal ou porque ganharam de presente. Mas a maioria tem verdadeiro pavor de uvas-passas, frutas cristalizadas e da textura seca que muitos panetones têm. Por isso, as empresas investem pesado nos mais variados sabores, como os de doce de leite, gotas de chocolate, os trufados, mas, mesmo assim, em muitos o recheio é escasso e nem sempre bom. Ou seja, panetones são como visitas indesejadas com que temos que conviver nas épocas festivas; logo depois, elas dão no pé.

Não seja um panetone, que é apenas lembrado nas datas de final de ano, que faz visitas aos familiares por pura obrigação, fica o tempo mínimo ou, pior, finge se importar com as pessoas à sua volta, enquanto ao longo do ano pouco liga, pouco corre atrás, pouco se informa e pouco presta solidariedade. As pessoas panetones estão sempre em alta nos meses de dezembro, já que toda família que se preze tem uma porção de parentes que só aparecem para a ceia de Natal e todos ficam se entreolhando um tanto espantados como se aquela pessoa fosse uma assombração. Elas pouco ajudam no cotidiano, sempre estão ocupadas com suas vidas e não têm uma brecha na agenda, nem que seja para ligar ou escrever uma mensagem perguntando se estamos bem, se precisamos de alguma coisa ou simplesmente para dizer um olá. Pessoas panetones são o tipo de visita que sabemos que está de passagem, que nem adianta implorar que fiquem um pouco mais, elas têm uma única preocupação: se livrar o mais rápido possível da família, dos amigos e de quem quer que seja.

Triste pensar que essas pessoas um dia foram legais, muitas eram bem diferentes quando crianças. Elas te defendiam no colégio, passavam as tardes brincando, iam ao cinema, enfim, tinham tempo, respeito, vontade e amor. Quem já conviveu com uma pode perceber que a infância era uma época extraordinária recheada de sonhos e em que acreditávamos que um dia, quando a vida nos transformasse em adultos, não perderíamos o contato e muito menos os hábitos de gentileza. O problema é que acabamos por idealizar as pessoas da nossa infância, que eram verdadeiros super-heróis, quando não tínhamos a capacidade de enxergar o seu lado humano, o mais frágil e defeituoso.

Com isso, crescemos e esperamos que elas continuem sendo incríveis, que elas se importem conosco e que sintam a nossa falta. Só que elas sempre foram egoístas, autocentradas e voltadas apenas para seu próprio bel-prazer. Os anos passaram, nós crescemos, a vida muda, nós mudamos com a vida e percebemos o quanto é duro aceitar que as pessoas que mais amamos se transformaram em panetones. Elas não mandam mensagens de feliz aniversário, não compartilham segredos, não fazem questão nenhuma de ficar ao seu lado e fingem se importar. Triste perceber no olhar de quem apenas está de passagem que o amor é interesse, que as conversas são vazias e a amizade é apenas fachada.

Cruel pensar que pessoas panetones já foram íntimas, já nos conheceram do avesso e nos protegeram quando tudo ficou escuro. Hoje em dia, elas vêm uma vez por ano, passam no máximo três dias e voltam para suas vidas em forma de bolhas. São apenas conhecidos, quando já foram parte da gente. Pessoas panetones sempre estarão em moda nas festas de final de ano, são esquecidas ao longo dos meses e aos poucos vão perdendo a graça.

Não seja uma pessoa panetone, você não será lembrado, não será notado e suas “boas ações”, que são recheadas apenas para descargo da sua própria consciência, não fazem a menor falta para quem recebe. Quem é abraçado por você é tratado apenas como uma visita comum, daquelas difíceis de digerir e que assim não faz falta. Não seja uma pessoa que finge se preocupar, finge amar e finge se importar. Não seja apenas um produto na prateleira que poucas pessoas apreciam, a maioria degusta por educação e presenteia por ser mais bonito ou por combinar com a estação. Não seja apenas uma uva-passa, uma fruta cristalizada ou um recheio esquisito dentro de um pão doce, seja o principal ingrediente na vida daqueles que realmente se importam com você, a sua família e os seus amigos.

Acredito que pessoas que não têm a capacidade de despertar empatia, de serem generosas ou desenvolverem gestos altruístas ainda não encontraram plenitude em si mesmas. Isso foi negado a elas no momento em que escolheram se afastar de quem sempre esteve ao lado delas, são pequenas demais para entenderem o significado da palavra família ou amizade. São infladas de egos narcisistas, recheadas de egoísmo, amargas de coração e têm a mente tão vazia e repleta de superficialidades que fica complicado pensar que um dia elas mudem.

Mas prefiro acreditar no poder das mudanças, vou ficar aguardando que um dia a minha pessoa panetone saia da bolha que ela mesma construiu e se dê conta das cores bonitas, das almas coloridas, dos sentimentos sinceros e da bondade genuína que sempre a rodearam, mas para as quais seu egoísmo a cegou.


Bruna Girardi Dalmas

Não existe uma pílula para cada problema de nossas existências. Mas, ficar estacionado em nossas zonas de conforto não é a melhor saída. Vai ficar aí estacionado ou vai desenvolver algo criativo? Aqui você encontrará pílulas de inteligência embaladas em recortes dos mais variados temas para sacudir o cotidiano e preenche-lo de cores bonitas..
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