carpinteiros do universo

Fatias das delícias e insanidades do nosso cotidiano.

Bruna Girardi Dalmas

Não existe uma pílula para cada problema de nossas existências. Mas, ficar estacionado em nossas zonas de conforto não é a melhor saída. Vai ficar aí estacionado ou vai desenvolver algo criativo? Aqui você encontrará pílulas de inteligência embaladas em recortes dos mais variados temas para sacudir o cotidiano e preenche-lo de cores bonitas.

João sem Deus


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Hoje o tema é polêmico. Peco desculpas para quem se sentir incomodado, mas é necessário falar a respeito deste João sem Deus.

Vou falar do João Teixeira de Faria. Aquele menino pobre que abandou os estudos e fundou um lugar para realizar cirurgias ditas espirituais. Aquele guri que se diz médium desde os nove anos idade. Arrastou multidões de desconhecidos e famosos provendo a suposta “cura”. Ele que nem sabia ler, se dedicou as profissões de alfaiate, garimpeiro e pedreiro. O João filho da cartomante do qual deve ter herdado o seu lado espiritualista. Há relatos que seu pai não batia bem da cuca, vai ver que daí ele herdou a maluquice. Seja como for, este homem humilde, se muda para uma cidadezinha no interior de Goiás, Abadiânia. Em 1976 funda a casa Dom Inácio de Loyola. Onde começa o lado excêntrico da história ele começa “curar utilizando instrumentos domésticos sem esterilizar ou anestesiar. A cidade passou a girar em torno dele e misteriosamente ele se torna um homem muito rico, poderoso que ate intimida pela sua suposta grandiosidade. Será que não tem nada errado por detrás deste “dom”?

Sabia pouco sobre o tal João que adotou o sobrenome de Deus. Achava uma enorme petulância tal gesto, me dá verdadeiros calafrios pensar em alguém brincando de ser deus. Ainda mais quando mexe com o psicológico de pessoas desesperadas. Afinal quem o procurava estava acometidos de toda espécie de sofrimento. Foi assim, que não só a fama do agora homem João cresceu e com ela todo tipo de atrocidade. Neste clima a mini série intitulada em Nome de Deus pela Rede Globo costura um novo olhar frente a vida deste João que de Deus não tem nada. Os relatos reais de mulheres que denunciaram os assédios acometidos pelo médium, curandeiro e sabe se lá mais ou que, arrepiam. Entre elas uma mulher chama a atenção, sua própria filha. Ela diz que sofreu abusos e ameaças desde a sua infância. O que mais apavora é que ele tinha uma espécie de ritual para que as transgressões ocorressem. Ele dizia que tudo fazia parte do processo de cura, em quase todos os relatos há a afirmação que ele rezava e entoava orações como a ave maria enquanto o abuso acontecia Em alguns havia penetração, em outros manipulação das genitálias. Seja como for, é abuso. Já petrificado o espectador descobre o tal João que era um ninguém, tinha um lado monstro.

A maioria das denúncias nunca foram adiante. Ele comandava dese a policia até as pousadas. Tudo levava o seu nome e a cidade girava ao seu redor. O comércio de pedras ditas preciosas e benzidas, água benta, tudo virava comércio. Ele era famoso entre as pessoas comuns e até mesmo as celebridades. O documentário mostra a sua fama internacional, pessoas que foram assediadas no exterior por ele, O preço absurdo dos eventos e até mesmo o entro construído no Rio Grande do Sul em três coroas.. Arrastou multidões até que o relato de um abuso de um filha de alguém importante ocorreu, João foi fugido daqui. Percebemos que quando uma mulher se manisfestou, outras vieram a tona. De uma, passaram a dezenas de mulheres que ao longo dos anos foram assediadas. Algumas juradas de morte, outras torturadas e sabe se lá alguma não foi morta. A série é dura, densa, mas necessária.

Fico pensando quanto vale o silêncio. Como podemos nos calar? João é um monstro condenado por crimes sexuais, porte de armas e deveria ser bem mais que isso. Como afirma pessoas na série dizendo que ele é perigoso, que chefia quadrilhas e está ligado a instituições criminosas. Mas ele compra o silêncio das pessoas com bala ou dinheiro, tudo em nome de uma suposta fé. Que fé é essa que assedia? Violenta? Usa as palavras de Cristo em vão? Mas, como Drauzio Varella comenta somos vulneráveis e sugestionáveis. Diante da dor ou da perda nos submetemos. Confiamos e acreditamos quase de forma cega. Queremos aliviar a nossa alma, nos deixamos levar. Não estou dizendo que a culpa seja nossa, mas temos uma parcela de culpa. De acreditar em milagres feitos com aparelhos domésticos. Objetos benzidos. Discursos fanáticos, sem falar de todo dinheiro que doamos. Ajudamos de certa forma que o império de João crescesse. Mas, se há esperança as mulheres da reais representadas na série, conseguiram que ele fosse preso. Só que veio a pandemia, ele está preso em casa. Será? Será que não irá ser o momento oportuno para retomada de tudo?

João poderia ser Maria, mas a maior parte são homens. Vem aí o problema do patriarcado. Exemplificado na série pelos homens da cidadezinha. Com seus discursos machistas, acham que a culpa é da mulher, que elas se oferecem e merecem pelo que aconteceu. O assédio não passa de um defeito, quem não tem defeitos? O homem muitas vezes mede seus atos pelo seu falo e acha que este é o detentor do poder. A mulher assediada se torna vitima de um sistema opressor, não tem froca para lutar fisicamente e muitas vezes tem medo de denunciar. Com isso, se cala e seu silêncio grita. Mas, pode ser rompido por mulheres reais que tem a coragem de desafiar este sistema machista, opressor e preconceituoso. Me tornei fã destas mulheres retratadas na mini série. Romperam o silêncio a fim de poderem tentar desmanchar de alguma forma os acontecimentos. Sabem que nada vai voltar a ser igual. Os seus corpos foram violentados. Sua fé abatida. A sua mente estuprada. Sabem que jamais serão as mesmas depois do acontecido, juntas se tornam mais fortes.

Enquanto escrevo há mais algum João estuprando em nome da fé e pregando a cura. Há um João ali na esquina assediando. O assédio é bem mais do que um ato físico de penetração. São as palavras, os olhares, caricias, jogos psicológicos, perseguições e tudo que envolve a perturbação do feminino. O abuso está nos locais religiosos, na rua, no trabalho, nos relacionamentos e dentro de casa. Os homens em busca de se satisfazem não medem esforços para conseguirem seus objetivos. Em sua maioria são mais fortes, mas o que as mulheres têm é medo. Este paralisa a ponto como mostra o documentário que demora um certo tempo para perceber o trauma. Algo totalmente aceitável porque quando estamos passando por algo extremamente perturbador, bloqueamos. Demora um tempo para juntarmos as partes e começar a agir.

O desfecho da história não sabemos Se o João vai parar brincar de Deus a gente não sabe. Pode ser que de novo ele drible a justiça e volte para os seus fiéis.Sm, muitas pessoas ainda o seguem e acham que ele é inocente. Que o que aconteceu é que ele foi acometido por uma entidade, não foi ele, foram as entidades ruins que se apossaram de seu corpo. As pessoas se apegam nas mentiras confortáveis a fim de negarem a realidade. Me preocupo com a alienação das pessoas, mas temo pelo silêncios das vítimas.

Infelizmente aqui no Brasil ou lá fora há mais Joãos estuprando em nome da fé.

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Bruna Girardi Dalmas

Não existe uma pílula para cada problema de nossas existências. Mas, ficar estacionado em nossas zonas de conforto não é a melhor saída. Vai ficar aí estacionado ou vai desenvolver algo criativo? Aqui você encontrará pílulas de inteligência embaladas em recortes dos mais variados temas para sacudir o cotidiano e preenche-lo de cores bonitas..
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