Luísa Aranha

Luísa Aranha é gaúcha, nascida em Porto Alegre. Formada em jornalismo pela Universidade Federal do Pampa e autora do blog Causos & Prosas.

O tabu da virgindade e a literatura new adult

O tabu da virgindade, os rótulos dados as mulheres e as reflexões que os livros da série Meu Romeu e Para todos os garotos que já amei fazem a gente ter sobre tudo que a gente deixa de falar para as nossas filhas sobre algo que um dia vai acontecer com qualquer mulher.


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A sociedade que me perdoe mas falar de virgindade é preciso. Não sobre ser virgem (o que também é necessário) e tão pouco criar uma lista com as 10 formas de perder a virgindade sem dor em qualquer blog da moda. Mas vamos falar sobre virgindade, tabus e todo esse peso emocional e social que é jogado em cima das mulheres?

Nas últimas semanas me dediquei a ler duas séries que estão em voga nas prateleiras das livrarias e são as queridinhas dos blogs literários. Uma foi a série Starcrossed escrita por Leisa Rayven, composta pelos títulos Meu Romeu, Minha Julieta e Coração Perverso e a outra foi a série da escritora Jenny Han composta por Para todos os garotos que eu já amei e PS ainda amo você. Essa série tem um terceiro livro que está previsto para sair em abril de 2017. Para entender as duas obras vou tentar situar o leitor, caso não tenha lido (e se não o fez vale a pena).

Na série Starcrossed Cassie e Ethan se conhecem nos testes para entrar em uma escola de teatro. Ela nunca namorou e ele não quer mais namorar por ferrar a vida das garotas que ele já namorou. Eles vivem um romance cheio de turbulências, cenas quentes e bem descritas sexualmente. O livro vai misturando passado e futuro de forma a se complementarem.

Já na série Para todos os garotos que já amei Lara Jean tem suas cartas secretas enviadas para todos os meninos que já gostou, sendo que um deles é o namorado de sua irmã mais velha. Para disfarçar ela começa a namorar de mentirinha um dos meninos para quem suas cartas foram enviadas. A partir dai ela começa suas descobertas amorosas, passando a ser o centro das atenções quando um vídeo seu é divulgado.

Ambas as séries falam sobre a mesma coisa: amor, virgens, primeiras vezes e histórias enroladas. Porque se a gente for jogar limpo, por mais que a gente não queira uma história de amor enrolada em nossas vidas, adoramos ler uma nos livros. Quanto mais desencontros e confusões, tornam o final do mocinho e da mocinha bem mais água com açúcar e deixam a gente mais contente.

Em ambas as histórias temos uma menina, que nunca teve namorado, que já gostou de alguns garotos mas não foi correspondida, que tem uma auto estima baixa (apesar de não ficar explícito em nenhuma das séries) que conhece um garoto, se envolve com ele e da os primeiros beijos de sua vida, tarde demais se comparado as amigas, e começa uma série de novas experiências.

Basicamente o que diferencia as duas obras é como o assunto sexo é tratado e a linguagem é usada. Enquanto Leisa Rayven trata o sexo como algo gostoso (o que realmente é), descreve cenas picantes e traz uma personagem ansiosa por perder a virgindade, Janny Han romanceia as descobertas, não mostra expectativas com uma personagem que ainda não está pronta para o sexo. E ambos os livros são deliciosos e a questão não é essa.

A questão é que como as duas histórias tão similares e diferentes ao mesmo tempo em suas abordagens, somos milhares de mulheres tão similares e diferentes em suas essências. Mas todas, em algum momento da vida, passam pela mesma primeira vez. E independente de como foi a sua história, você será julgada e receberá um rótulo. De santa ou galinha, não importa. E isso porque simplesmente você, um dia, perdeu a virgindade.

Perder a virgindade pode, ou não, ser um marco. Pode ser com o amor da sua vida ou com aquele garoto que é puro tesão. Pode ser que seja romântico ou pode ser no suto. Num universo complexo como esse pode ter mil possibilidade, situações e sentimentos diferentes. E ao analisar ambas as obras é isso que fica bem claro. A forma como isso acontece ou vai acontecer está muito mais ligada a sua visão de mundo do que ao que deveria ser correto. Até porque não existe um protocolo pré estabelecido de como se deve perder a virgindade.

E sendo assim, por que ainda recebemos rótulos? Por que permitimos que as pessoas nos julguem, marginalizem algo que é natural e pontual na vida de uma mulher. A forma como você perde ou decide perder a virgindade não tem nada a ver com o que você ou deixa de ser. É apenas um momento, uma parte de sua história, onde ninguém tem nada a ver com isso. E apesar de termos evoluído em tantos aspectos culturais na sociedade, ainda tratamos tal assunto como tabu, deixando as meninas pensarem que estão fazendo algo errado quando resolvem transar pela primeira vez.

Histórias de virgens e de descobertas adolescentes continuam reverberando pelas prateleiras das livrarias e mesas de cabeceiras de leitores e mesmo assim ainda não falamos abertamente sobre isso com nossas filhas e ficamos constrangidos de mostrar que perder a virgindade é algo natural, que um dia acontece. Mas lemos com vigor e elogiamos publicamente os romances que tratam do assunto, vai entender?


Luísa Aranha

Luísa Aranha é gaúcha, nascida em Porto Alegre. Formada em jornalismo pela Universidade Federal do Pampa e autora do blog Causos & Prosas. .
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