celebração do olhar

algumas considerações sobre a existência

Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]

Dor, uma janela a ser aberta

O assunto dói, mas está aí. A dor é o credo comum do homem que certamente você já declarou. Mas já pensou em abrir esta janela? Poucas coisas aumentam tão bem o contraste deste credo que uma ópera julgada como "sem manchas". Parece trivial e boboca, mas não! É, ao mesmo tempo, um aviso e também uma chance.


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[Don Giovanni] Sobre a alma me rasgar? Que atormenta o ventre? Que tormento, infelizmente, que loucura! Que diabos, que terror!

[Leporello] O que um olhar desesperado! Que gestos do maldito! O que chora, geme isso! Como isso me faz terror! [1]

A dor certamente é uma daquelas coisas que leva todo ser humano a congregar na mesma sinagoga. É uma espécie de credo humano. Talvez até mais ecumênica que a homônima igreja e menos respeitosa que o ar que podemos escolher negar inspirar. Parece-me que fechar a boca a seu respeito ou negar-se a contemplá-la com o devido assombro é cometer a mesma bobagem de reprimir um “uau!” quando, em uma fazenda longe da cidade, enxergamos o borrão da Via Láctea em tempo de Lua nova: simplesmente não dá.

Na observação do brado de Don Giovanni vemos a máxima expressão de agonia, terror e, como ele mesmo diz, "Que tormento, infelizmente, que loucura!". Nesta pródiga expressão de dor três coisas saltam aos olhos. A sensação psicofísica da dor, o seu descontentamento por vivê-la e, por fim, a comum ideia que se tem da insensatez aparente da dor. Uma espécie de inevitável revolta contra o sequestro de significado que a dor é acusada.

É um grito bem alto, o grito de Don Giovanni, personagem da ópera formalmente intitulada Il dissoluto punito ossia il Don Giovanni (1787) escrita por Lorenzo Da Ponte e trazida à vida pela inconfundível música de W. A. Mozart: tão apreciada por sir George Bernard Shaw. A história do próprio Lorenzo aparenta escapar-lhe do íntimo e compor o devasso personagem. Segundo a temida Enciclopédia Britânica, Lorenzo havia sido expulso da província italiana de Vêneto oito anos antes do lançamento do seu capo lavoro. Ironicamente o bastante, a causa da sua dramática defenestração da Itália, que o levou finalmente à Nova Iorque, era aquele mesmíssimo comportamento que levou o dissoluto Don Giovanni e seu acólito, Leporello, a gritarem as oito estrofes que nos trazem aqui, ao ato segundo, décima quinta cena: a dor.

Já foi dito pelo dinamarquês Kierkegaard que a obra Don Giovanni era “um trabalho sem manchas, de perfeição ininterrupta". Apoiado. Como já disse, a dor é o credo comum humano e, se é ecumênica, mesmo o Don Giovanni, que parece ser a sombra de Da Ponte, não poderia não ser sua vítima. Chamem Gautama Buda e ele dirá na primeira de suas verdades que "o nascimento é acompanhado pela dor, envelhecer é doloroso, a doença é dolorosa, a morte é dolorosa" [2]. Disponha um copo de uísque on the rocks e verá o poetinha versando que tem tudo para ser feliz, mas há uma questão: acontece que ele é triste... [3] O gemido de Paulo de Tarso é triste e verdadeiro quando se considera portador do "corpo desta morte", e, antes, "miserável homem que sou!" [4]. O poeta da morte, Augusto dos Anjos, pôs em versos claros a respeito da dor: "És suprema!", comemorou ele [5]. Lewis tentou dissecar a anatomia da dor [6]. Nietzsche sofria com o que chamava de décadance. Platão considerou o mundo como sombras e até o vitoriano autor de Macbeth cunhou que a "a vida não é mais que uma sombra errante", e "uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria" [7].

Isto já nos é mais que suficiente para abrir um panorama daquilo que chamo de credo humano. Voltemos, antes que nos percamos no mar de tantos lamentos, ao choro de Don Giovanni. Não quero por hora tentar dissecar as causas de seu grito ou mesmo propor uma espécie de Caminho do Meio para tudo isso. O que temos diante de nós é um grito palpável de quem sofre e uma reação quase igual de quem contempla aquele que sofre, aqui chamado de Leporello, o lacaio. Seria insensatez negar que sentimos a dor ou que isso nos cause pesar, como diz ele: "infelizmente". Mas o ponto que com esforço quero mostrar é a sua inevitável revolta quanto à dor. Don Giovanni é assim porque nós somos assim. A peça só se torna assim perfeita e sem manchas porque encontra abrigo em nós. Nunca deixo de notar que quando alguém sofre, imediatamente após sentir a sensação da dor e um descontentamento, chega ao ponto que quero mostrar: a percepção da insensatez da dor e um sentimento de revolta. A ópera é única aqui: só ela possui a inconfundível característica de expressar o êxtase e a dor em muitas cores, assim como só um órgão de sopro é capaz de alcançar simultaneamente os dois opostos, agudo e grave. Onde Bach fez sua Toccata e também sua Paixão.

Toda vez que estamos na dor sempre olhamos seu lado sombrio e achamos que, porque não achamos razão num primeiro momento, jamais a acharemos. Os cristãos culpam a rebeldia humana contra o Criador; os hindus, a ignorância do Absoluto; os budistas, o desejo; e os naturalistas parecem não ter muito do que reclamar, pois as coisas são como são, porque, afinal, não há um plano.

Bem, olhe toda essa indignação de Don Giovanni quanto à dor e perceba como nele, assim com em nós, não passa pelos olhos qualquer aspecto positivo da dor. Apesar de concordar com Nietzsche quando ele, na sua típica ironia, critica a tirania do bem-estar físico, vejo na busca por esse mesmo bem-estar uma pequena janela que nos leva a acalmar os ânimos quando sofremos. Certamente há diferentes níveis de dor. Quando tenho em mente Usain Bolt, tenho em mente a glorificação da dor. Quantas horas, anos e dores não formaram aqueles menos de dez segundos que o emplacaram na história através do no pain, no gain? Percebe a janela de oportunidade? Ainda mais, observe a dor de um enfarte e, então, o subsequente transplante de coração e verá a glorificação silenciosa da dor.

Você quer ocasião ainda mais gloriosa da dor? Veja aqueles que sofrem de insensibilidade congênita à dor e você ouvirá orações diárias a fim de receber a capacidade de sentir dor. Friamente os darwinistas explicariam: "É pela seleção natural! A sobrevivência do mais adaptado!" O próprio grito de lamento do dissoluto de Da Ponte é a oração do resoluto insensível a qualquer dor física e a vontade do leproso com seus nervos carcomidos. Percebe a janela de oportunidade? Sonde o psicopata e verá a dor advinda da insensibilidade à dor emocional. Há quem julgue o sofrimento como redentor do carma e outros que, por uma crucifixão sofrida, se redima o universo.

A dor de um acidente, caso não seja mortal, é a prudência que o preserva do próximo. O choque emocional da infância é um padrão de como não ser. A repreensão do inadequado é a salvação da sua adequação. Lembre-se desse nome: John Howard e verá que tenho razão: prisioneiros de um mundo foram beneficiados pela quase incompreensível penúria que ele passou. Aquele que somente vê a dor na dor acabará como Giovanni, consumido pelas chamas, execrado da existência. Afinal, querer sair desta sinagoga humana, o mundo, cujo credo comum é a dor, é querer ejetar-se da existência e entrar numa espécie de nirvana. Não seríamos quem somos caso não fosse a dor; ela é componente básico, por favor!

Estou tentando somente abrir os nossos olhos para menos lamúrias e mais esperança apesar da dor, apesar da chatice. Elas são inevitáveis. Viemos parar aqui através do prazer orgástico. Houve a gravidez − o nome denuncia que é grave. A gestação é oscilante nas suas alegrias e termina, quando há êxito, num parto penoso e muito chato. Quanto a esta dor, porém, foi dito que "depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem."

Apesar de Leporello sofrer com a dor do seu mestre, ele acaba, por fim, mostrando com grande ironia as tais janelas de oportunidades de que tenho falado e que Don Giovanni nunca abriu; nunca sequer arrependeu-se de nunca tê-las sequer buscado. Os outros integrantes da ópera se indagam onde pudera ter ido o galante Don Giovanni, cujo fim é resumido pelo servo como "para longe foi" e também que "a sombra o encontrou". Como quem dá de ombros e contempla a janela de oportunidades que se abre a cada dor, Leporello, de quem recomendo que se siga o exemplo jocoso, abre a janela, contempla o sol, vê os campos a verdejar e exclama, sem notar a sanidade de seu discurso, "E eu vou ao botequim buscar um patrão melhor". Eis o aviso. Este é o convite, esta é a chance.

[1] Tradução minha a partir deste libretto .

[2] Siddhartha Gautama, o Buda, Três Sermões de Buda, tradução de Nise da Silveira, em A Sabedoria da Índia e da China. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunais, 1955, p. 421.

[3] Ver Dialética, Vinicius de Moraes.

[4] Ver carta de Paulo de Tarso aos Romanos, capítulo 7, verso 24.

[5] Ver Hino à Dor, Augusto dos Anjos.

[6] Ler Clive Staple Lewis, Anatomia de uma Dor, um luto em observação. Tradução por Alípio Franca. São Paulo : Editora Vida, 2006.

[7] Ver Macbeth, William Shakespeare, Ato V, cena 5.

[8] Ver Don Giovanni, texto de Lorenzo Da Ponte e música de W. A. Mozart, Ato II, cena 18, clicando aqui.


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