celebração do olhar

algumas considerações sobre a existência

Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]

Pare de viver em fatias, por favor

É ali no Facebook que escolhemos parecer cool, decidimos omitir os medos, optamos por publicitar o “estar bem”, selecionamos ocultar os erros. Propagandeamos nossas convicções políticas, selecionamos o que curtimos, curtimos o que até nem gostamos, denunciamos algo que nos cativa de certa forma, expomos quem não conhecemos, e pronunciamos tudo isso corajosamente somente através do perfil que nós criamos para nós mesmos. (E se alguém fosse criar um perfil seu, como seria?)


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Na profunda voz de Maria Bethânia aquela música de Arnaldo Antunes parece fazer ainda mais sentido. “Debaixo d'água tudo era mais bonito, mais azul mais colorido, só faltava respirar, mas tinha que respirar… Debaixo d'água protegido salvo fora de perigo aliviado sem perdão e sem pecado, sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar, mas tinha que respirar.”

Ainda que tudo fosse mais bonito, azulado, colorido, protegido, aliviado, sem perdão e sem pecado, sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar, só faltava respirar. Pois é! Só faltava respirar. Só faltava o que sustenta a vida: estar onde se tem de estar; e ser quem se tem de ser. Faltava o sopro vital.

Viver debaixo d’água é querer viver uma mentira. Nosso lugar é no ar onde respiramos, e não onde cremos ser um lugar ideal para nós, onde nos sentimos salvos, protegidos, fora de perigos, sem medo e sem pecado no fundo do mar. Mas temos de respirar! Temos de sair do azul do mar.

Viver uma mentira é morrer, porque vida acontece na verdade.

Muitos de nós provamos viver num mundinho ideal que projetamos e certamente você já pensou sobre isso. Aquele mundinho das ideias é onde tudo é ideal, perfeito e absoluto e que acaba, de alguma forma, dando significado aos particulares

Vivemos, segundo essas ideais, aqui na terra, no mundo das sombras da realidade real; nas distorcidas percepções das ideias ideais. Vivemos nas sombras ansiando pela realidade última que projeta somente suas sombras.

Nada mais. Não desejo dizer algo novo, mas reforçar um ensino antigo. Sem preocupações de ser moderno, desejo ser verdadeiro.

O mundo virtual no qual investimos grande parte do nosso tempo é aonde, por muitas vezes, está o que queremos ser ou o que nos fizeram acreditar que deveríamos ser. Compramos esta ideia assinando um contrato com letras miúdas que nunca lemos.

Damos crédito à mentira. Criamos, no aconchego daquela pagina azul do face , essa espécie de mundo ideal aonde cremos ser algo que não somos.

Queremos mudar a realidade segundo nossos anseios, somos deuses de nossos perfis de acordo com a nossa falsa percepção de nós mesmos e, por consequência, dos outros também. Planejamos o que não tem conexão total conosco e queremos viver na água e não no ar.

Nas amizades do Facebook temos um euzinho virtual que se relaciona com outros eu-virtuais. E todos estes eu-virtuais dificilmente são representações fidedignas da verdade de quem fala, porque vivemos, uns mais e outros menos, a crise da pizza: vivemos em fatias. São fatias do eu verdadeiro que escolhemos expor no poleiro virtual para sustentar quem achamos que somos.

É pura loucura mentirosa e maligna. É ter uma estação em A.M. e querer transmitir seu conteúdo em F.M.; transmitir você no meio virtual é comparável a tentar transmitir tudo que um bolo de chocolate é por livros, receitas e descrições de seu indizível sabor. Simplesmente não é realizável.

A internet não exprime a realidade, ela a espreme e deforma. Ela nos fatia. Há ruídos, ausência de compreensão, descontentamento, insegurança e desconfiança escondidas atrás das fotos e comentários.

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Escolhemos parecer cool, decidimos omitir os medos, optamos por publicitar o “estar bem”, selecionamos ocultar os erros. Propagandeamos nossas convicções políticas, selecionamos o que curtimos, curtimos o que até nem gostamos.

Denunciamos algo que nos cativa de certa forma, expomos quem não conhecemos, e pronunciamos tudo isso corajosamente somente através do perfil que nós criamos para nós mesmos. (E se alguém fosse criar um perfil seu, como seria?)

Por que mundinhos tolos e distorcidos como o Facebook fazem tanto sucesso? Alguém já chamou de fakebook... Talvez seja pela dificuldade que todos temos de ser quem somos e pelo prazer que temos em selecionar o que achamos adequado expor. Será por isso que a revista Caras e bobagens afins fazem sucesso?

Ainda que todos estes nossos pedaços sejam fatias minhas ou suas, eles não são a gente. Somente a totalidade da sua vida é você; e não parte dela. Vivendo em fatias e despedaçados como Tiradentes fajutos, assumimos o risco de matar e morrer para poder viver, em vez de viver para viver.

Matamos um lado nosso para salvarmos outro. Ou matamos o outro para salvarmos ainda outro lado. Viver somente o que selecionamos viver é vivermos fatiados. Não há plenitude se nos dividimos em partidos de alma.

Não vivemos a vida em abundância e acabamos, por fim, departamentalizando sentimentos, percepções e nos tornamos franksteins idiotas.

Pare de tentar viver debaixo d'água azul onde tudo pode ser perfeito e bonitinho, mas é impossível viver. Pare, por favor. Pare de viver em fatias e vá comer uma pizza.


Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]
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