celebração do olhar

algumas considerações sobre a existência

Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]

A Ciência não explica a felicidade

Dizer que a causa da felicidade se reduz aos hormônios serotonina, dopamina e noradrenalina correndo em nossas veias pode parecer muito promissor, mas é um erro. Já pensou sobre isso?


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Certa vez ouvi uma pessoa afirmar que não há como negar que a causa de nossa felicidade se reduz por fim, e em última análise, aos segunites hormônios: serotonina, dopamina e noradrenalina correndo nas veias. Isto pode até parecer verdadeiro, todavia, além de reducionista, é um clássico erro de categoria. Estas substâncias são agentes que estimulam neurotransmissores, mas não agem por conta própria. É uma confusão entre mecanismo e agente.

Seria mais ou menos como afirmar que o motivo pelo qual o marido matou a esposa foi o excesso de adrenalina e a escassez de serotonina em sua corrente sanguínea, e não, na verdade, o fato dela ter sido inconsolavelmente infiel e ele não poder suportar esta agonia interior e resolver isto da pior forma possível.

Jogar a responsabilidade apenas em substâncias químicas parece muito promissor e hightech. Chega ao ponto de conferir ares de sabedoria moderna recém saída dos laboratórios da Caltech, contudo ignora que para uma bala ser disparada é necessário que o gatilho da arma seja puxado. A pólvora como o hormônio, a bala como a expressão externa, mas a pergunta emerge: quem puxou o gatilho afinal?

Não são as substâncias que causam o bem-estar, mas são elas que acionam a manifestação estética do bem-estar. Se você me pergunta por que lhe dei um soco, eu poderia responder que meus músculos do braço, ante-braço e ombro foram tencionados e acertaram a sua face. Mas outra resposta, que não exclui necessariamente a primeira, poderia ser dada, a saber, que eu estava impedindo você de violentar a minha esposa.

Será então que uma situação chata e triste, como uma grave doença familiar, seria solucionada pela simples química corporal? Injetam dopamina nos parentes e acabou? É o fim da tristeza? Parece que não.

Vejo este reducionismo ser feito por muitos poetas, artistas e amantes de arte. Essa gente, que muito aprecio, seria capaz de dizer redondamente que todas as emoções, percepções, toda a sua música, toda a sua poetização da vida e criatividade são, mais uma vez em última análise, apenas um subproduto de encontros atômicos e de partículas aleatórias em seu cérebro? Não! Por favor, não.

O geneticista e biólogo J.B.S. Haldane coloca, o que para mim é muito irônico: "Parece-me imensamente improvável que a minha mente seja um mero subproduto da matéria. Pois se meus processos mentais são totalmente determinados pelo movimento de átomos em meu cérebro, eu não tenho razão alguma para supor que minhas crenças sejam verdadeiras. [...] E, portanto, eu não tenho razão alguma para supor que meu cérebro seja composto por átomos."

Estas situações hormonais de fato mudam o quadro completamente ou simplesmente me fazem vê-lo com muito mais opacidade? O uso da aerodinâmica jamais anulou a gravidade que força um avião para baixo. Maquiar a minha tristeza não impede a causa da tristeza, mas apenas me impede de percebê-la e manifestá-la e vivê-la.

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Claro que não excluo e muito menos condeno o uso de certas medicações para auxiliar em processos depressivos, psicóticos e de casos particulares. Sugiro aqui a revisão de algumas de nossas visões. É uma espécie de calibragem dos instrumentos.

Portanto, sinto-me confortável em dizer que a visão materialista aliada a este tipo cientificismo muito difundido em jornais e revistas de "ciência" negam a alma humana e acabam reduzindo o ser humano a um relógio desalmado que marca as horas sem saber o porquê ou para quê. Apenas isso. Tenho a impressão de que nunca saímos do modernismo (tenho a convicção de que jamais entramos no pós-modernismo).

Nada impede você de tomar da caneca da ciência. Não digo impedi-lo. Pelo contrário, digo isto: se você é como eu que gosta de bons jantares, fique sabendo que além da limitada caneca da ciência que frequentemente (e por vezes com exagero) bebemos existem copos de suco, taças de vinho e champanhe, xícaras de chá, louças e travessas com muitas possibilidades de pratos, talheres de todos os tipos, várias configurações de mesas e cadeiras e muita gente interessante e acessível ao redor para aprendermos e nos relacionarmos.

Há também uma casa enorme e bela construída por um Grande Designer muito interessado que você não só descubra meticulosamente, e com toda liberdade, a imensa variedade das mobílias da sua casa, mas principalmente que você O conheça por meio d'Aquele que tomou da caneca que ninguém mais poderia ter tomado.

É daqui em diante que poderemos ser, como já disse o escritor inglês, surpreendidos pela alegria.

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HALDANE, J.B.S. 'When I am Dead', em Possible Worlds and Other Essays. Londres : Chatto & Windus, 1927, p. 209.


Bernardo P. Küster

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