celebração do olhar

algumas considerações sobre a existência

Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]

A imagem de Jesus no Brasil

Um francês do século 19 não seria - eu suponho - a pessoa mais adequada para falar sobre a imagem de Jesus no Brasil. Seria algo como chamar Don Pedro II para falar a respeito da imagem de Jesus na França de hoje. Mas creio que, apesar das suspeitas que estas distâncias podem suscitar, ele tem algo a dizer para aqueles que não sabem o que dizer.


jesus fresco_0.jpg

A consciência de Napoleão, exilado numa ilha longínqua há 1.800 anos do evento Cristo, parece dinamitar com sua clássica potência a vasta maioria das percepções de quem é Jesus no Brasil que infelizmente temos sido obrigados a conviver nestes últimos anos.

Exilado na ilha de Santa Helena, ele redigiu uma carta ao conde de Montholon inquirindo sobre quem era Jesus Cristo. Ele desejava saber. Todavia, em resposta à ausência da resposta do conde, Napoleão tomou a decisão de informar ele mesmo quem havia sido o Nazareno.

Disse ele que "Alexandre, César, Carlos Magno e eu mesmo temos fundado grandes impérios; mas do que dependem essas criações do nosso gênio? Dependem da força. Só Jesus fundou seu império sobre o amor [...] Creio que entendo um pouco a natureza humana; e lhe digo: todos eles eram homens, assim como eu sou homem: ninguém mais é como ele; Jesus Cristo era mais do que um homem..."

Não é esta uma impressão muito mais acurada sobre quem é Jesus? Cristo tem sido vítima da morte de mil qualificações equivocadas neste país. Parece que ele é exposto novamente à ignomínia com o rótulo dos cambistas que ele mesmo expulsou dos canais de televisão; ele é constantemente levantado na cruz por aquela mesma hipocrisia que o levou a inquirir dos religiosos hipócritas como fugiriam da ira vindoura.

É aqui no Brasil que ele tem recebido o cuspe das bocas que trazem o possesso ao palco e exilam para fora da casa da misericórdia aqueles que são confessos; ele é vestido por aqui em ternos caros por aqueles que negam os ternos afetos de misericórdia, juízo e fé e se vestem com folhas de figueira - nada menos que o produto de suas próprias mãos.

Quem é Jesus no Brasil de hoje? Procure-o nas bocas, nos becos, nos pequenos grupos, nos corações sinceros, não com visível aparência nem em longas orações para saquear viúvas e abusar dos pequeninos. Você o achará onde ele sempre esteve: entre aqueles que professam o seu nome no serviço anônimo, nos pequenos atos de alimentar, vestir, dessedentar, visitar os acamados e confortar os aprisionados. Estará nos milagres.

Ele será manifestado, em última análise, quando, seja de longe ou de perto, presenciarmos o amor que é demonstrado uns pelos outros, como ele mesmo disse. Ali ele estará na presença da ausência do conformismo com a mentira que é este mundo e aquilo que se faz e se esconde sob os tapetes.

Quem é o Jesus no Brasil de Hoje? Ele continuará sendo aquele cujo caráter o historiador W. E. H. Lecky descreveu como não somente "o mais elevado padrão de virtude, mas também o mais forte incentivo de sua prática, e exerceu uma influência tão profunda que podemos dizer com verdade que o simples registro de três anos de atividade fez mais em prol da regeneração e da suavização da humanidade do que todas as reflexões dos filósofos e todas as exortações dos moralistas."

Jesus não sofre influência pela perversão que divulgam sobre seu caráter, como assistimos na cultura brasileira hodierna. Ele sempre será, perante nós, o mistério que James Stewart chamou de "o mistério da personalidade divina".

Jesus Cristo está sendo visto no Brasil através de um caleidoscópio de cosmovisões confusas, sem qualquer consciência histórica e totalmente isolado do que já foi chamado de "mundo da vida" do judaísmo palestinense do Segundo Templo.

Não é Jesus que tem de adequar-se às necessidades e percepções dos brasileiros, mas somos nós, os brasileiros, e principalmente aqueles que professam o seu nome, que são chamados a adorar o seu Deus não só com o coração, a força e alma, mas também com o entendimento. É a velha ausência do conhecimento das escrituras e do poder de Deus.

Graça e verdade o encheram na sua vinda. O Brasil, em geral, tem professado um evangelho sem qualquer lampejo da verdadeira graça como dom, e tem negligenciado patentemente a verdade que Jesus veio manifestar: ele mesmo e a sua denúncia a respeito deste mundo - o que, é claro, inclui o Brasil.

Quem é o Jesus que o Brasil precisa conhecer hoje?

Napoleão abarca a graça e a verdade dizendo que "todo aquele que crê sinceramente nele experimenta este amor memorável e sobrenatural para com ele [...] O tempo, o grande destruidor, é impotente em extinguir esta chama sagrada; o tempo não pode exaurir suas forças e nem limitar seu alcance. E é isso que me afeta mais; muitas vezes penso sobre isso. E é este fato que me prova, sem sombra de dúvida, a divindade de Jesus Cristo."

O Jesus Cristo cheio de graça e verdade permanece e há de permanecer. Os postes-ídolo que fizeram dele devem ser (e serão) destruídos. Que esta nação possa ser, assim como aquele que a amou até o fim, uma testemunha graciosa da verdade, um mártir do amor.


Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @obvious //Bernardo P. Küster