celebração do olhar

algumas considerações sobre a existência

Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: bekuster@gmail.com

A incoerência do relativista

O relativista sempre conclamará que todos sejam abertos para tudo, contanto que sejam abertos para tudo que ele é aberto e concordem com tudo que ele concorda. Incoerência acaba sendo o credo do relativista. Contudo, por trás talvez haja algo mais.


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“Testei o homem. É inconsistente.”, reclamou Einstein na velhice. Claramente isto não quer dizer que ele tenha enchido tubos de ensaio com gente e executado um sem-número de testes a fim pormenorizar “o homem”.

A inconsistência da qual ele falava é um fato fácil de se comprovar, porém muito resistido. Trata-se da incoerência. Ela nos incomoda e, por alguma razão, evitamos duramente isto – este escritor também a teme.

É raro sermos seres íntegros. Talvez seja por isso que Paulo Francis tenha dito com toda a sua verve: “Oras, toda pessoa inteligente é contraditória!” Creio nunca ter me encontrado com alguém que se mostrasse, após algum tempo de convívio, uma pessoa totalmente consistente. E por consistente falo do problema com duas incoerências. A primeira é bom que aconteça. A segunda, porém, é grave.

É um sinal de desenvolvimento da inteligência e da sabedoria que, em certos casos, se perca ideias e atitudes ao longo da vida. Este é o caso do garoto que deixa de crer em qualquer patarata que lhe ensinam.

Em anos de escola jamais ouvi os nomes de Newton, Galileu, Babbage, Mendel e muitos outros serem associados à sua profunda confiança em Cristo e em Deus como criador e sustentador do cosmo.

Por outro lado, abandonar convicções como a sacralidade da vida, do sexo, da propriedade, do trabalho e o amor à família já não se trata de uma inconsistência saudável, mas trata-se de flacidez cognitiva (ou moral).

O segundo caso, menos lembrado e mais sério, é a (in)coerência lógica entre crenças e atitudes e suas decorrências que, por vezes, são inevitáveis. Esta é muito mais penosa de confessar, porque na maioria das vezes esconde algo ainda pior e inegociável.

Falo aqui do "cético sem limites", como dizia Chesterton. Aquele homem pós-moderno relativista, exemplifica ele, que "denunciará um político por matar um camponês, e depois, pelos mais elevados princípios filosóficos, provará que o camponês deveria ter-se suicidado; [...] no seu livro sobre política ele ataca os homens por atropelarem a moralidade; no seu livro sobre ética ele ataca a moralidade por atropelar os homens".

É exatamente esse tipo de auto-contradição que evidencia o ponto da inconsistência humana mais comum na política e naqueles que se auto-intitulam pensadores. Como políticos eles confirmam que todas as religiões são igualmente boas e verdadeiras; mas como pensadores dirão que todas elas são construções sociais sem relevância alguma. Sacrificam a verdade no altar de uma falsa tolerância.

O relativismo seletivo já tomou proporções grandes demais. O mero ensino das três regras básicas da lógica aristotélica limparia muito dessa confusão. Contudo, suspeito que o verdadeiro problema não esteja só na incoerência discursiva, mas também numa motivação moral para ser incoerente. Há tremor diante da palavrinha moral.

“Não se deve meter o bedelho na vida sexual de ninguém”, dizem eles, enquanto condenam o primeiro padre de batina por ser reprimido sexualmente. “Temos todos de sair dos armários ao som de Não se reprima”, aconselham, sob condição de que unicamente signifique assumir o desejo pelo mesmo sexo ou ambos – jamais o contrário.

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Por fim, quando você encontrar um cético sem limites - esse tipo bem comum - pergunte se o seu relativismo funciona bem numa farmácia quando ele está com hipertensão. A relatividade dos remédios poderá ser fatal. Pergunte se é possível relativizar alternativas numa prova de vestibular.

Sugira, por fim, relativizar a travessia de uma complicada rua de complicadas disposições como a rotatória do Arco do Triunfo. Ali não haverá relativismos, nem ceticismo sem limites.

"A verdade é universal. Somente a mentira é particular" (Jürgen Moltmann). No chão da história o credo humano sempre será o da Ortodoxia.


Bernardo P. Küster

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