celebração do olhar

algumas considerações sobre a existência

Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]

Vai um aborto aí?

Não se trata de gênero, nem machismo contra feminismo, ou mesmo de uma longa luta por mais tolerância. Esta é uma questão ética e, claro, humana.


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Deborah Nucatola, chefe de serviços médicos da Planned Parenthood nos EUA, estarreceu o mundo com um vídeo expondo abertamente o comércio de órgãos, braços, pernas e cabeças de bebês abortados. Embora discutir o aspecto econômico pareça tentador, seríamos, entretanto, levados a um círculo sem saída. Urge sair deste círculo fechado e focar no âmago.

Há quem brade que o aborto nada mais que uma questão de saúde pública, e há aqueles que cancelam o debate por achá-lo sem saída no frigir dos óvulos. Mas não é assim. Precisamos responder à duas perguntas.

A primeira: os seres humanos possuem valor moral intrínseco?

Por valor moral intrínseco entenda algo ou alguém como tendo um fim em si mesmo, em contraste, por exemplo, com o dinheiro, que é apenas um meio para fins específicos.

A gigantesca maioria concorda com o valor moral intrínseco do ser humano. É isso que enaltece, p. ex., a Declaração Universal de Direitos Humanos. O próprio artigo quinto da nossa Constituição declara a “inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Aqui caberia relembrar a ontologia humana segundo o que dizem os preceitos judaico-cristãos, a saber, a imago Dei.

Negar, portanto, o valor do ser humano seria abrir as portas para o caos em que tudo seria permissível, e falar de direitos humanos seria uma piada tão imbecil quanto falar de direitos das pedras.

E a segunda pergunta é: o feto em desenvolvimento é um ser humano?

Henry Morgentaler, médico pró-aborto, conclui que “se, de fato, existe um ser humano presente desde a concepção, então interferir em seu crescimento ou removê-lo de seu sistema humano de apoio seria equivalente a matar um ser humano”. Ele tem razão. Assumir que o feto em desenvolvimento é um ser humano, abortar seria equivalente a um homicídio.

É óbvio que o ser no ventre não será, a seu tempo, um ácaro, um dromedário ou um colibri. Ele será humano, pois o feto é da espécie humana. A palavra feto quer dizer “pequenino”. É uma distinção de desenvolvimento e não de natureza.

Qualquer tentativa de delinear quando um ser é ou não humano se torna totalmente arbitrária e sem fundamento biológico; é uma convenção pedagógica.

Este pampeiro repousa na confusão entre (1) ser humano e (2) existir em algum estágio posterior de desenvolvimento.

Morgentaler crê que por um feto não ser um bebê, ele não é humano, logo o aborto é permissível. Mas isto é uma falácia, pois poderíamos facilmente sugerir, com igual justiça, que por uma criança não ser um adulto, ela não é humana, logo o infanticídio é permissível. Ou que por um adulto não ser um idoso, ele não é humano, logo o geriatricído seria permissível.

Por acaso um feto se torna um doce bebezinho ao sair do ventre?

Aos 18 dias após a concepção o coração é formado e, em três dias, inicia seus batimentos. A grande maioria dos abortos ocorre após esse período. Isto implica a interrupção dos batimentos de corações humanos. Com 30 dias após a concepção há cérebro e com 40 dias ele já emite ondas. (Em relação ao princípio da vida clique aqui)

Em resumo, o ser humano não é determinado por seu estágio de desenvolvimento, mas por ser humano. A vida de um humano normal se transforma através de mudanças contínuas, contudo nenhuma delas muda sua condição humana. Se infelizmente uma criança cessa seu desenvolvimento normal, isso faria dela menos humana por não chegar em outro estágio que denominamos de adulto?

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A respeito da questão “não legisle meu corpo”, ou então “meu corpo, minhas regras” vale uma reflexão.

No processo gestacional há, no mínimo, dois seres. O feto não é um apêndice do corpo ou um corpo estranho como um cisto no ovário. Além de metade do material genético feminino é preciso uma outra metade masculina proveniente de outro ser humano para haver vida (humana!).

Claramente o feto não é “o meu corpo”, mas o corpo da mulher é o abrigo perfeito para o desenvolvimento de um ser que não é ela mesma. Do contrário, não diríamos “olha, ela vai ser mamãe!”; diríamos “veja, eis uma mulher que carrega algo que quando sair poderá ser humano”.

Relembro Abraham Lincoln dizendo que temos de “ajudar aqueles que não podem ajudar a si mesmos”. Desumanizar o feto faz com que apelemos somente à mulher, e esqueçamos do feto, que é exatamente aquele sem poder algum.

Mesmo que se suspenda a segunda pergunta, o mero duvidar da humanidade do feto significaria lutar a favor de uma concepção com 50% de chance de estar errada. Isto é tão perigoso quanto sociopático.

Sugiro brevemente que, em caso de gravidez não planejada ou indesejada, se faça três coisas: não aborte, procure ajuda. Dialogue com mansidão com mulheres ou casais nesta condição e, por último, torne-se envolvido tanto para mudar leis, como atuar diretamente na vida de pessoas, não num corpo abstrato chamado “sociedade democrática”.

Certa pessoa disse que se ventres tivessem janelas, não haveria abortos.


Bernardo P. Küster

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