celebração do olhar

algumas considerações sobre a existência

Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]

O repúdio da música erudita

Por que o brasileiro não tem o hábito de ouvir música erudita e ainda chega ao ponto de repudiar quem o faz e promove?


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Quando se deve elevar um brinde portando taças com espumante, seja brut ou demi séc, e posar para um fotografia estas devem estar precisamente posicionas um pouco para baixo do peito, mantidas pelas mãos que as seguram sutilmente com o braço quase todo esticado, inclinadas aproximadamente vinte e cinco graus em direção ao fotógrafo, cheias até uns dois ou três dedos da borda e, claro, no caso de haver mais de duas pessoas, os participantes da foto devem fazer com que suas taças levemente rocem umas nas outras ao centro, convergindo como se desejassem completar um aro de uma bicicleta infantil.

A fotografia perfeita de um brinde em comemoração por uma conclusão de uma etapa ou pelo iniciar de uma nova é uma daquelas estranhas complexidades necessárias que facilmente passam aos nossos olhos incautos como moscas. Errar o brinde no momento da fotografia pode ser tão trágico quanto o enólogo e os chefs de caves da Veuve Clicquot se equivocarem no assemblage do espumante. Ou até mesmo tão tenebroso quanto um tenebroso erro de produção no cartão SD classe 10 da Kingston de sua Canon 50D que deixasse de armazenar as trezentas fotografias tiradas nos rápidos cinco segundos da indispensável e gloriosa pose.

Mas nada seria tão horrendo quanto a fraca memória da zeladora daquele salão (alugado) que havia se esquecido de limpar um pequena poça de azeite de oliva espanhol, causando a queda daquele distinto senhor de idade que havia apenas concluído mais uma chata etapa da sua fastidiosa carreira acadêmica, que, por fim, acabou não ficando tão monótona assim - bom, ao menos não para seus amigos.

Tal suposta excelsa situação, nem de longe algo simples, mostra claramente que há alguma coisa que está longe de estar bem clara para o brasileiro comum. Se chegássemos a este homem e lhe explicássemos exaustivamente por horas e em folhetos a inaudita rede de situações que tem de “dar certo”, ou seja, estar em harmonia, confluência, alinhamento, precisão cirúrgica e quase perfeito enquadramento com a realidade objetiva para que a foto, sacrossanta exigência social de última chatice, talvez aquela fotografia jamais teria sido tirada. Ele se contentaria com um selfie em seu banal iPhone 5S démodé.

É precisamente deste modo que grande parte das pessoas que conheço percebe a música erudita: como algo de uma complexidade tamanha que parece ser inabarcável; totalmente desnecessário. Quando pelo gigantesco esforço mal orientado ele tenta compreender todas as suas distintas características isoladamente, sua sintonia e sincronia, harmonia, matemática e expressões que elevam o espírito humano além da capacidade da expressão verbal, acontece o esperado: desistência e repúdio.

Claro! Quando percebo este repúdio afetado da música erudita como “coisa de gente velha” ou “é demais para mim!” é exatamente isso que está acontecendo.

Ninguém jamais tiraria uma fotografia de um brinde sequer caso se tentasse compreender como se dá a fotografia de um brinde. O mesmo é com a música erudita. Ela não serve para que você a compreenda, mas para que você a ouça e a perceba.

Aqui não considero, nem de longe, compositores como John Cage e Alfred Schnittke, que estão para a música assim como, respectivamente, estão o senhor Marcel Duchamp e o nobilíssimo Samuel Beckett para a pintura e o teatro - não é por menos que Cage compôs Music for Marcel Duchamp, que bem poderia ser chamada de barulheira non sense.

p01bqh8m.jpg John Cage

Nos casos de Cage e Schnittke o que acontece é exatamente tudo aquilo que poderia ter dado errado naquela banal fotografia. O próprio Cage admitiu que sua filosofia de vida baseada no acaso, ou melhor, sua filosofia de música, a qual o inspirou a compor aquilo que eu chamo de não-música, o teria levado a morte.

Ele era um exímio micólogo, mas um compositor inescrupuloso. Cage bem disse: “Então eu me dei conta de que, se eu colhesse os cogumelos com o mesmo espírito que usava nas minhas experiências com o aleatório, eu morreria em breve.”

Ao invés de partir de uma filosofia de vida que o mantivesse em vida para então aplicá-la na sua música, ele parte de uma filosofia que não pode fazê-lo subsistir cinco minutos em uma feira livre e tenta, depois disso, aplicar o seu “acaso” na sua música, matando em menos de um segundo qualquer bom humor e qualquer chance de bom gosto musical.

A necessidade de voltarmos aos eruditos para os eruditos brasileiros parece coisa de aristocracia pedante e esnobe que deseja se elevar acima das massas e impor a sua inalcançável compreensão dos aspectos das teorias musicais de Schubert, Léo Delibes e Dvořák. Isso, como já se sabe, não passa de mera retórica da insistente teórica crítica do Maternal de Frankfurt.

Na verdade, o apelo para voltarmos aos eruditos é simplesmente um apelo para ouvi-los em contemplação, ter os nossos ouvidos limpos de tanto caos, o nosso espírito elevado de tanta confusão e o nosso cérebro amadurecido de tanta falta de criatividade e competência, como sugere com veemência o médico franco-vietnamita Minh Dung Louis Nghiem.

As tentativas de compreensão dos naipes, expressões e demais coisas virão depois. Tentar abarcar tudo de uma só vez seria como tentar compreender todos os escritos de Mário Ferreira dos Santos em uma hora e meia.

Carecemos abrir um pouco a mão de ouvir o quase sempre igual Pop e suas variantes e provar navegar em águas mais profundas para achar peixes maiores.

picture221329000865855.jpg "Escultura 'Deus' de Morton Schamberg (1917)"

A simples tentativa de querer chamar de música o descompassado Tango Polifônico de Alfred Schnittke, e também chamar de música o excelso Panis Angelicus, escrito por Aquino e musicado por César Franck, torna-se uma anedota tão grande e risível quanto tentar categorizar como escultura o Davi de Michelangelo e o Deus de Morton Schamberg, “uma caixa de corte e sifão com 26 centímetros de altura”.

Apesar do título Deus ser algo muito mais sublime que o mero homem histórico rei Davi, há grande diferença: entre o Davi de Buonarroti e o Deus de Schamberg: o tamanho da humildade e a humilde reverência.


Bernardo P. Küster

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