celebração do olhar

algumas considerações sobre a existência

Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]

A Velha ideia do senhor Lovelock

James Lovelock, o aclamado ecologista, está longe de ser um grande revolucionário com suas ideias de Gaia. Ele não é um homem que trás ao presente imaginações futuras. O que ele faz é simplesmente nos alertar, sem saber, que são justamente as velhas ideias que mudam o presente.


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Uma das grandes falácias modernas é justamente achar que coisas modernas são corretas e melhores, e antigas são erradas e inferiores. Tem sido bem comum a mania de bradar que grandes cidades organizadas são melhores que uma pequena aldeia rural que não é capaz de sequer fornecer qualquer padrão óbvio de desenvolvimento habitacional. Até mesmo uma moderna religião sincretista passou a desejar não ser categorizada como religião, mas como uma espiritualidade sem dogmas ou preceitos.

É quase incontrolável deixar de notar coerções modernistas para nos fazerem crer que um valor antigo, quem sabe esquecido ou deturpado como o celibato, deve ser tomado como algo que permanecerá eternamente no passado sem chance de ser novamente um valor positivo. Dizem que por uma navalha perder o fio ela já não poderá ser mais sujeitada ao desconfortável desgaste de uma chaira de ferro.

Acho isso altamente cômico.

Veja, por exemplo, a moderna concepção de Gaia relida pelo senhor James Lovelock (e Lynn Margulis). Ele parte de uma antiga ideia grega e transporta de um futuro inexistente suas justificativas para alterar o presente. Os gregos, no entanto, buscaram numa mitológica, e ainda mais possível, ideia passada a Gaia como deusa primordial, talvez a primeira habitante do Olimpo. O Olimpo de Hesíodo pelo menos existe como montanha tanto no passado dos helênicos quanto no presente dos céticos. A sua complexa e nevada formação está lá para quem quiser ver. Parece não haver mais os deuses de outrora lá em cima, mas certamente o mito de Gaia baseou-se num monte que existia. O futuro não nos garante que ele estará lá em dois mil anos para anunciarmos hoje uma religião baseada na planície do Olimpo.

Lovelock, entretanto, justifica sua jornada no presente a partir de uma revolta de uma deusa que sequer tem uma montanha existente para habitar. Ela, na verdade, é a própria montanha e toda a Terra: Gaia é deusa somente de si mesma. Ele considera o próprio planeta como sendo um organismo vivo que, numa confusa descrição do futuro, se vinga dos seres humanos que a destroem. Não somos todos nós também pequenas células ou, quem sabe, mitocôndrias de Gaia? Seu câncer talvez?

Eis a insistência moderna a qual descrevo sendo combatida por ela mesma. Lovelock não criou uma nova ideia moderna para preservar o presente mundo; ele simplesmente tomou uma antiga e bela ideia do passado e atualizou-a. Apesar de parecer um grande progressista, como todo bom militante ecologista, na verdade ele é um grande conservador. Ele traz a ideia de Gaia, nascida, segundo ele, há aproximadamente 4 bilhões de anos.

Aquelas antigas noções e ideais que mais se mostram eficazes em restaurar o mundo e conservar tanto o ser humano como o próprio planeta, supostamente a esférica Gaia, foram justamente as que recuperaram belas e antigas ideias do passado; não foram, de modo algum, um adiantamento parcial do incerto porvir. É como se recuperássemos os bons hábitos viris de nossos avós em vez de fazer, num passo de mágica, com que a equilibrada dieta dos nossos bisnetos, que ainda não nasceram, fosse totalmente adequada para regular nossos intestinos ainda hoje.

Jesus, por exemplo, jamais quis implantar um Reino futuro imaginário; pelo contrário, ele anunciou que Deus desejava retornar ao Éden, e não criar um Éden que nunca existiu. Sua ansiedade diária caminhava na direção de restaurar, não em rebelar-se. Anunciar que Cristo foi um revolucionário é um grande disparate; ele foi, na verdade, um tradicionalista querendo conservar as tradição da relação de Deus com o homem. Ainda que julguem sua moral e seu anúncio como errados por serem antigos e inaplicáveis, eles abriram as portas para os valores que mais amamos. O próprio ateu metodológico J. Habermas reconhece esse fato simples.

A beleza da escultura do renascentista, melhor que qualquer meleca exposta no M.A.M., foi insuflada em seus pulmões pela recuperação dos pergaminhos gregos conservados pelo orientais. Foram velhas ideias atualizadas. Os abolicionistas, quase sempre cristãos ortodoxos como Wilberforce, Wesley, Spurgeon e John Newton, buscaram recuperar a antiga ideia de Paulo de Tarso: Deus “de um só sangue fez toda a geração dos homens” à imagem dEle mesmo. As feministas, também cristãs na sua origem mais remota, quiseram recuperar a velha ideia de Gênesis: Eva foi criada ao lado de seu parceiro; não acima, nem abaixo e muito menos na sua diagonal, mas ao seu lado como uma igual. A sua equivalente.

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E a democracia? Bem, a democracia parece ser uma das únicas ideias antigas que menos sofreu com a confusão de que o tempo torna as coisas erradas e piores. Ela é a vaca sagrada do mundo profano.

Sei que velhas ideias possuem, em quase todos os tempos antigos, muita poeira sobre si e teias de aranhas que por vezes nos espantam. Há ideias grandes demais e nobres demais para ousarmos recuperá-las. Tememos não sermos capazes de fazer o mesmo hoje que se fez ontem. O futuro não bate a nossa porta, ele corre de nós e nunca chega. Quem nos persegue como os egípcios atrás dos judeus é o passado.

A preocupação não deve estar em sermos modernos, atualizados e desejarmos um mundo que nunca houve, mas em estarmos corretos em recuperarmos boas e antigas ideias, atualizá-las para o mundo que aqui está. Um bom e velho lápis que perdeu a ponta não nos deve desapontar somente porque não temos um moderno apontador elétrico. Uma moderna faca de inox manuseada por um velho artesão apontará a solução.


Bernardo P. Küster

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