celebração do olhar

algumas considerações sobre a existência

Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]

Verdadeiro demais para ser bom

Dizer que uma ideia está errada se tornou um disparate. A única coisa errada é dizer que há algo de errado, não é mesmo?


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Há esta ideia fixa: ideias e obras que romperam os padrões, conceitos e percepções das suas respectivas épocas são, em si mesmas, boas, justas, louváveis e devem ser defendidas a todo custo como uma espécie de bem maior pelo simples fato de terem rompido com algo e proposto um outro algo de novo.

É mera imaturidade e patente falta de amor na busca pela verdade fixar um compromisso emocional partidário com grandes ideias somente por serem aparentemente grandes e aparentarem uma superioridade semi-divina somente por serem semi-humanas.

O Iluminismo alegava defender a ferro e fogo a igualdade, liberdade e fraternidade, mas fez da igualdade uma desculpa para o relativismo, da liberdade uma ocasião para a autonomia e da fraternidade um chance para a fragmentação. Shaw em Too True To Be Good, na boca da velha personagem, constatou que o movimento francês "foi a disseminação de um câncer: seus conselhos, que deveriam ter estabelecido o milênio, desembocaram diretamente no suicídio europeu". Por fora bela viola…

O poeta menor, Nietzsche, crendo ser ele mesmo o summum pontificem e o primogênito dos Super-homens, inspirou centenas de “heróis” altivos a criarem livremente seus próprios valores, impossíveis de serem julgados no presente. Criou em si mesmo uma verdade incontestável e absoluta, fazendo-se de si deus no seu ínfimo cosmo particular. Daí provêm também autolatrias, egocentrismos exacerbados, autoglorificação despropositada, solidão justificada como autonomia e carências de alma incuráveis.

É um homem tão super-humano que não tinha ideia de qual homem ele estava falando, se é que ainda teria algo de humano para ser chamado de homem. Talvez fosse melhor fazer do Super-homem o que Nietzsche quis fazer com o bem e o mal: ir além, só não sabemos muito bem aonde. Chamemo-lo de Além-do-Homem. Ainda melhor, Homem-do-Além!

Outro dia conversava com um aluno de cursinho sobre a relação do homem com o Estado e afirmei que Rousseau estava errado e dei as razões. Foi então que ouvi toda a sua indignação e empáfia típica de alunos do cursinho:

- Quem você pensa que é para dizer que Rousseau estava errado?

- Rousseau é Deus? - perguntei.

- Não!

- Então Rousseau pode errar?

- Claro que pode.

- Mas é isso que estou tentando mostrar, menino.

Seria o excelso prestígio histórico conferido aos proponentes das ideias o único meio de perscrutar seu valor e autoridade? Rousseau professava o estado da natureza humana como sendo informe e indeterminado; que o homem, naquele estado de graça, era nada mais do que um animal dócil, pacífico e feliz - talvez nem fosse homem. Para retornar ao seu estado ele invocou o Estado, atomizou os homens, individualizou as mentes, os fez perder o senso gregário natural do ser humano e propôs um homem que nascia com 22 anos de idade: sem pai, mãe, avós, bisavós ou Criador num paraíso. Esta ideia só aconteceu no estado da natureza delirante de Rousseau. O estudante surtou em raiva.

Aquele regular funcionário alemão de um escritório de patentes na Suíça e sem grande reconhecimento internacional postulou que Newton estava equivocado em muita coisa - não em tudo. Era Albert Einstein, é claro. Um zé-ninguém que deixou "a ideia" falar por si. Uma bela ideia fez dele um paradigma da inteligência recente; com língua de fora, olhos estalados e alvos cabelos alvoroçados.

A lógica e os fatos já parecem não falar mais por si mesmos caso não forem proclamados por uma personalidade louvada no rol do beautiful people. A verdade e a opinião se confundiram e a busca pela verdade tornou-se, na verdade, uma escolha de uma opinião, ou seja, é apenas uma questiúncula de uni-duni-tê.

Uma ideia não é vista somente pelas suas próprias propostas, mas sobretudo pela sua realização efetiva, pela prática que ela inspira, por sua relevância existencial, pela coerência da sua lógica interna e, claro, pela sua correspondência com a própria realidade na qual ela está inescapavelmente inserida.


Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]
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