celebração do olhar

algumas considerações sobre a existência

Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]

A humanidade não precisa do seu amor

O amor pela humanidade é a grande causa da sua própria destruição. "O sentimentalista, disse Oscar Wilde, é simplesmente uma pessoa que deseja possuir o luxo de uma emoção sem pagar por ela."


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O amor destinado à humanidade abstrata proporciona um sofrimento universal sem razão de ser. Explico-me a partir da literatura. O homem doente e mau de Memórias do Subsolo, de Dostoiévski, asseverava que para abraçar “toda a humanidade” era preciso, segundo ele mesmo, “contar ao menos com uma pessoa que existisse realmente”. Na vida da personagem o homem que existia realmente tinha endereço, personalidade, posição social, emprego, profissão, hábitos, conhecidos e até – vejam só! – um nome: o homem mau anotou em suas memórias que ele se chamava Antón Antônitch Siétotchkin, seu chefe de seção.

Apesar do estado de personalidade doentio e peçonhento da personagem isso nunca lhe proporcionou um escotoma perceptivo e intelectivo. Pelo contrário, ainda que houvesse a sua quase incontrolável vontade de abraçar a humanidade, como se isso fosse possível, ele instava a necessidade óbvia de abraçar um humano que “existisse realmente” no espaço-tempo. O homem nocivo não dá qualquer razão pela qual devesse abraçar um humano real para abarcar o conjunto imaginário contemporâneo de todos os humanos. Ele apenas diz que tem de ser assim. É senso comum.

A nossa era é esta do amor destinado à humanidade abstrata divergindo, contudo – sabem os caldeus o porquê! -, de Dostoiévski. Este último sabia que carecemos ao menos de humanos reais para abraçar o todo abstrato. Não, a nossa era esqueceu-se dos humanos reais e abraçou aquele estranho conjunto, pelo qual matamos e morremos e sequer conhecemos, como num súcubo em polução noturna. Como após todo intenso súcubo todos acordam sujos, desapontados e a sós, da mesma maneira quando os humanos reais tentam abraçar a humanidade, eles acordam de seu sonho numa cama cheios de sangue dos homens que realmente existiram, inconsolados e desapontados por, após tanto amor universal, restarem factualmente sozinhos.

É esta a nossa era: a era do sentimentalismo difuso sem concreção. É a mesma era dos rebeldes. A era dos cor incurvatus in se ipsum, dos corações encurvados em si mesmos, já uma antiga cantiga Lutero; dos sentimentos dobrados sobre si, encarquilhados, e nunca eretos olhando acima de suas cabeças, mas para o próprio coração confuso pelo amor difuso sem direção.

A nossa era é aquela descrita por Robert Fitch: "afogada na compaixão; evaporada na estética e recuada perante o relativismo". O amor é universal abstrato, enquanto o ódio tornou-se um particular concreto. A ética tornou-se obsoleta e rarefeita. O chororô reina. Nem mais o politicamente pode estar correto.

Ao tentarmos reduzir a dor, reduzimos nossa felicidade, e “buscando a felicidade cada vez mais ardente”, clareou M. Muggeridge, encontramos “o desespero cada vez mais certo.”

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A busca por sanar o coletivo sacrificou o particular. Sacrificamos todos os indivíduos no altar da democracia e afogamos a necessária expressão individual humana para promover uma sociedade mais humana. E na esperança de evitar a culpa, a dor e a morte, coisa própria de quem existe, reduzimos nossa própria humanidade particular. Moltmann já alertou: “uma realidade vale mais que mil possibilidades.”

É por isso que o amor destinado à humanidade abstrata proporciona um sofrimento universal sem razão de ser. É o íncubo de não abarcar o todo que gera o ódio. É a zombaria maligna, sem piedade, de um coletivo jamais conhecido e nunca concreto que faz indivíduos cativos do negativo.

O próprio homem doente de Dostoiévski declarou que as zombarias criaram nele uma repulsa súbita fechando-o em si mesmo. Disse ele, “passei imediatamente a odiá-los e me encerrei, fugindo de todos, num assustado, ferido e imensurável orgulho.” Eis as memórias do solo dos paladinos modernos: desejam abraçar o mundo inteiro para salvá-lo sem perceber o mundo que jaz a cada dia ao alcance dos seus braços e longe dos seus corações.


Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]
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