celebração do olhar

algumas considerações sobre a existência

Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]

O massacre do aborto

As mulheres sofrem muito em relação ao aborto e a realidade é mais ampla e temerosa que supomos. Os fatos são duros e acirram o debate. Conheça mais sobre o massacre do aborto.


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Proclamar-se a favor de algo ou alguém nunca significou objetivamente estar a favor de alguma coisa ou quem quer que seja. Certamente um soldado mudo, quase surdo e ainda cego de um olho valia muito mais do que cinquenta oficiais em pleno funcionamento físico e burocrático na Batalha do Contestado. Uma fatídica e inútil metralhadora do lado aliado perde totalmente o sentido perante um efetivo facão cego no front inimigo.

Cinquenta oficiais burocráticos autoproclamados meus aliados funcionariam, na verdade, contra mim. Justamente quando precisasse de mais contingente, além de atravancarem a reposição dos soldados, eles jamais iriam vestidos ad hoc a fim de seguir o Gen. João Gualberto na querela. Apenas friamente contabilizariam as mortes e noticiariam o fato no ainda mais entediado jornal.

Perfeitamente deste modo se comportam os que se declaram a favor do aborto porque se autoproclamam existir em favor das mulheres. O que efetivamente um aborto realiza de tão bom, belo e verdadeiro? Manifestamente cristalino foi Ítalo Calvino quando afirmou em uma carta que "no aborto a pessoa massacrada, física e moralmente, é a mulher"[1]. Bravo!

Tão inesperadamente como o pente inchado naquela metralhadora que tornou-se inútil na batalha do Contestado, orgulhar-se em ser a favor (da legalização) do aborto em nome das mulheres em breve será tão ridículo quanto declarar-se um vegetariano absolutista sentado num banco de couro. Ambos sentam sobre a mesma hipocrisia.

O magro vegetariano sobre o bicho morto esticado sob seu traseiro. A histérica abortista sobre mulheres entrando na fila do câncer e do suicídio. Sobre o último trago a importante análise realizada pelo American College of Pediatricians[2] (Colegiado Americano de Pediatras) publicada em dezembro de 2013 considerando diferentes estudos a respeito da relação entre o aborto induzido e o câncer de mama[3]. O Dr. Den Trumbull, presidente do Colegiado, afirmou que "quando se considera a anatomia e a fisiologia normal das mamas femininas, fica claro que esta ligação é causal e não meramente correlacional".

Prontificando-se em favor da liberdade, emancipação e empoderamento da mulher, os movimentos pró-aborto, na verdade, libertam a mulher da "penalidade materna"[4] para a penalidade capital. Louvando e lutando pelo empoderamento da mulher, eles, de fato, a empoderam somente para que possa chorar emancipada no Outubro Rosa e servir, careca, de propaganda em ônibus de linha pública.

São tão inúmeros os males catalogados causados pelo aborto induzido que a sua mera recomendação, quiçá sua defesa pública ou execução, deveria ser comparável à promoção de uma antiga lobotomia seguida de choques para curar uma persistente dor de cabeça. Após o aborto induzido, a mãe, quando não acometida por câncer de mama, males psíquicos, desde a culpa imediata até a densa síndrome pós-aborto, assume o risco de elevar em pelo menos seis vezes as suas chance de cometer suicídio.[5]

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Eis, senhoras e senhores, todo o apelo em favor das mulheres. Buscando salvá-las, as aniquilam e proclamando beatificar a prática beatificam também as suas consequencias. Amo as mulheres e é por isso que abomino a prática e a promoção do aborto. Isso as machuca por dentro e por fora. Aborto não é profilaxia, é violência e morte. Já argumentei isso em outro lugar. O embriologista da Universidade Descartes em Paris, Dr. Jerome Lejeune, acertadamente pôs que "se a saúde da mãe está ameaçada, se mata a criança; se a saúde da criança está ameaçada, se mata a criança; se a saúde pública está ameaçada, se mata a criança." Mas agora parece que se mata a criança e a mãe tenta ir junto. Suas células se rebelam contra si próprias; é a autorrevolta. É a culpa celular. Isto é o aborto.

E seus defensores são, por um lado, tão rápidos em denunciar os males de uma suposta sociedade misógina opressora e lentos, quando não inertes, em alertar os efeitos colaterais do aborto, de outro. Cardeal Sin, das Filipinas, foi brilhante ao assentar em nossos corações que "o lugar mais perigoso do mundo é um ventre"! Quando o ventre se torna um sepulcro, a mãe entra em clima de enterro e, simbolicamente, sepulta a fonte da vida: os seios. E este fato horrendo da vida, ou melhor, da morte não está em nenhum lugar que vemos e lemos justamente por estar no mesmo lugar que a voz das crianças mortas. Este lugar é o silêncio do esquecimento, do ignorado e obumbrado. O silêncio dos culpados e o grito dos inocentes.

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NOTAS

[1] CALVINO, Italo. Italo Calvino: Letters, 1941-1985. Princeton: Princeton University Press, 2013.

[2] ANDERSON, Jane. Abortion and the Risk of Breast Cancer: Information for the Ado”lescent Woman and Her Parents, dezembro 2013.

[3] Jane Anderson observa que, desde 1957, setenta e três estudos em todo o mundo demonstram uma forte associação entre o aborto induzido e o aumento do risco de câncer de mama, estando de acordo, por exemplo, com a Dra. Jane Orient, diretora executiva da Associação Americana de Médicos e Cirurgiões (AAPS).

Ver “Epidemiologic Studies: Induced Abortion and Breast Cancer Risk,” Breast Cancer Prevention Institute, 2013.

HOLLY L. Howe et al., Early Abortion and Breast Cancer Risk among Women under Age 40, International Journal of Epidemiology 18, no. 2 (1989): 300-304. ;

BRIND, J. et al., Induced abortion as an independent risk factor for breast cancer: a comprehensive review and meta-analysis, Journal of Epidemiology & Community Health 50 (1996): 481-496. ;

LAING, A.E. et al., Breast cancer risk factors in African-American women: the Howard University Tumor Registry experience, Journal of the National Medical Association 85, no. 12 (1993): 931-939. ;

BERAL, Valerie et al., Breast cancer and breastfeeding, The Lancet 360 (2002): 187-195. ;

MELBYE, Mads et al., Induced Abortion and the Risk of Breast Cancer, New England Journal of Medicine 336, no. 2 (1997): 81-85.

[4] Ver a entrevista com Phumzile Mlambo-Ngcuka, sub-secretária-geral da ONU e diretora executiva da ONU Mulheres. https://nacoesunidas.org/anne-hathaway-defendera-igualdade-de-genero-em-casa-e-no-trabalho-como-embaixadora-da-onu-mulheres/

[5] MORGAN, C., et. al. Mental health may deteriorate as a direct effect of induced abortion, letter section, Brit. Med. Journal 314:902, 22 Mar 1997. E ver também MOTA, N.P.; BURNETT, M. e SAREEN, J. Associations between abortion, mental disorders, and suicidal behaviour in a nationally representative sample. Canadian Journal of Psychiatry, vol.55(4): 239-247, abr 2010.


Bernardo P. Küster

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