celebração do olhar

algumas considerações sobre a existência

Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]

a mendiga de domingo

Uma velha mendiga virou crônica e, por que não, um símbolo de fé, esperança e amor?


Thumbnail image for 35.jpg A Velha Mulher Italiana, Edgar Degas.

Moro próximo ao mercadão municipal de minha cidade onde ali, em meio a todos os carros que buscam rápidas – porém deliciosas – soluções para seus almoços dominicais quase completos, vejo todos os domingos, sentado em minha sacada no segundo andar, a sempre mesma encurvada mendiga em busca de um troco. De aparência fraca, cabelos grisalhíssimos desarrumados e presos por qualquer curioso artifício como é de costume das mulheres, portando uma bolsinha surrada cheia de apetrechos caindo para fora, Deus sabe o que ali existe.

Veste também uma saia surrada e muitos panos nela pensos. Parada, a tal velhinha parece não conseguir caminhar e o vento forte sugere que desabá-la um mero cicio. A sua aparência débil também sugere que ela seria incapaz sequer de atravessar a rua antes de o semáforo terminar seu ciclo do vermelho para o verde ou mesmo o tempo incerto de um abraço de despedida: a velhinha é débil e franzina; sugere toda a fragilidade dos maltratos da vida. Ela é a cara da ruga e do desespero da velhice sem esperança. Carros que buscam estacionar freneticamente na avenida em busca de uma vaga sob uma fresca sombra são exatamente o motivo de ela estar ali em toda a sua decrepitude que pesa o quilo dos anos. Ela sofre. É claro que sofre. A velhice é sofrida e por que não desgraçada? Dizia minha vó que a velhice é o sarro da vida, que na juventude você ri da vida e na velhice a vida ri de você. Ninguém, julgo eu, ri da pobre velha, mas a ignoram. Talvez apenas a vida ria dela em toda a sua ironia. Ela busca apenas uns trocados e, Deus sabe verdadeiramente o quanto ela os busca.

Um asilo de velhinhos está plantado exatamente em frente do lugar para onde ela, paradoxalmente, caminha veloz em curtos passos na busca de uns centavos pra comer algo simples depois, alimentar os netos ou, sei lá, tomar uns tragos. Ela poderia estar ali dentro do abrigo ouvindo o barulho do silêncio sentada em frente a uma outra velhinha esquecida, mas não aos domingos. Sob o sol dominical ela troca passos rápidos e certeiros com aquelas pernas tão finas que parecem os galhos de outono. A velhinha se esforça para “ajudar” motoristas estacionarem seus veículos e espera, no retorno, umas sujas moedinhas. Domingo é dia de trabalho para aquela estranha velhinha.

É possível que a velha seja um atraso para aqueles entediados motoristas que ali param seus automóveis sobre a calçada, canteiro ou estrada. Ela é toda uma confusão de gestos e causa constrangimento aos incautos clientes por apenas levarem na carteira um cartão de crédito e não esmolas.

Eles podem crer piamente que dar uma moeda é a sua boa ação após o culto ou missa, mas não vêem na velha senhora encarquilhada o estranho amor que nela repousa. “O verdadeiro amor não consiste em dar”, disse Pierre Lachièze-Rey, “mas em se dar, e o dom de si implica sempre um risco, aquele da ausência de resposta, aquele da ausência da acolhida, aquele da recusa e da negação”. Quantas vezes ela sob o sol e dentro dos panos não busca apenas, com a ressequida mão direita estendida, uma resposta, uma acolhida, um bom dia ou sorriso? Quantos “não tenho nada” e vidros fechados ela não vê até que alguém a abençoe pelo inútil serviço que presta sem impostos e patrão?

Longe, a velha esforçada, sem saber que intuito tem, rompe o caminho fadado; ela de todos é ignorada e para (quase) todos é ninguém. Foi, decerto, para uma estranha mulher, talvez até velha, em um domingo qualquer que o Amor a acolheu. As mulheres, segundo os Evangelhos, foram as primeiras a receber o dom daquela boa notícia de que o Nazareno havia saído da tumba para a vida. Elas tinham sido escolhidas para receber, em troca do inútil serviço de embalsamar um vivo, o melhor de todos os trocados: a vida eterna.

998797292.jpg Duas Mulheres: Marta e Maria, Vincent Van Gogh.


Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]
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