celebração do olhar

algumas considerações sobre a existência

Bernardo P. Küster

Ou a vida acaba se tornando um tédio ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar. Contato: [email protected]

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Bernardo P. Küster

É notável como nestas horas temos o ímpeto sutil de submeter todo nosso conteúdo às intenções que o precedem. Pensei em escrever muito prolixamente sobre como escrevo, ou descrever aqueles que creio que descrevem bem a própria realidade, ainda mesmo com os lindos devaneios da fantasia ou até, veja só, da poesia. Ainda me veio a sugestiva intenção de divagar austeramente sobre minha personalidade, a qual merece toda atenção pelo simples fato de ser tão insana no íntimo ainda que tão ordinária cotidianamente que seria necessário abrir o receptáculo de Pandora para fazê-los crer que não sou tão 'obvious' assim. Tudo me parece, como de fato é, demasiado óbvio. Mas o próprio óbvio por vezes me assusta. E este assombro que me leva a celebrar o olhar. Tudo começou quando percebi que ao perguntar "olá, tudo bem?" se demonstrava uma insanidade na boca de toda gente todo dia, não pude fazer outra coisa que fazer uma breve insanidade ainda maior: pensar sobre essa pergunta ordinária - entendam ordinária em todos os seus sentidos. Não é um assombro notar como o absurdo povoa o dia-a-dia? Nós o bradamos e sussurramos e se torna, então, habitual ser absurdo - o homem é um absurdo! Para alguém que é um rio com seus afluentes sírios, germânicos, lusitanos e itálicos (sem qualquer inclinação), ou a vida acaba se tornando um tédio maciço pela sua excessiva regularidade e tons pasteis ou, como espero, uma explosão de encantamento pelo olhar; coisa que aprendi com minha mãe: educadora do olhar, como se intitulava.

Já havia certa vez sustentado por um ano e meio uma coluna cultural na rádio universidade de Londrina, onde fazia breves ensaios sobre como a gastronomia denunciava a sociedade assim como uma proeminente barriga masculina nos leva rapidamente ao boteco com roll-mops e rabo-e-galo às seis e quinze da tarde. Concomitantemente a este espetacular empreendimento da rádio, eu transformava experiências entre a cozinha (por vezes como gerente de restaurante) e a sociedade (por vezes como mero cidadão) em textos e mais textos para o jornal O Diário até que culminei em uma carta das cabeças de alface ao 'homem que sabe sabe'. Passei pelos estudos de administração, economia, MBA em projetos e no meio de tudo isso pude encaixar um intercurso na Itália por cerca de um ano. Hoje poutei minha embarcação na filosofia, na história, na religião comparada e, chocantemente, no evangelho. A gastronomia foi posta aqui como apenas um claro exemplo ao leitor atento desta mensagem para dizer aquilo que um grande jornalista inglês já disse, "não existe assunto desinteressante, o que existe são pessoas desinteressadas."

Espero que tenha notado que ironicamente realizei tudo aquilo que hesitei no princípio desta descrição. Tudo isto para demonstrar que, ao menos, eu tinha razão ao dizer, no início desta inusitada apresentação, que a intenção precede o conteúdo.

Espero que tenha sido óbvio o bastante,
Bernardo P Küster.

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