cem mais palavras

Observando o mundo ora através de um telescópio, ora através de um microscópio

Laura Maria

Estudante de jornalismo que, contra tudo e todos, abandonou o curso de publicidade na hora certa para seguir o sonho de unir a paixão pelas palavras à paixão pelas pessoas. Do encontro, nasceu a vontade escrever. Seja amenidades ou questões filosóficas, quando o assunto é se expressar me recorro às palavras, aonde nelas me encontro por completo.

Meus olhos não veem mais Bento Rodrigues

Relato fictício de uma criança sobre a tragédia que assolou o distrito de Mariana, em Minas Gerais.


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Eu tinha acabado de voltar do recreio, e a professora Amélia tinha pedido silêncio pelo menos umas três vezes. Claro que ninguém a ouvia porque a Fernandinha havia trazido pra sala um pintinho escondido dentro da mochila. O trato é que se ela conseguisse fazer com que nenhum professor ouvisse os piados, seria eleita a nova líder do MME (Meninas e Meninos Espiões). Mas quando os gritos da diretora invadiram o corredor, ninguém mais se importou com a maior atração de segundos atrás. Fiquei lembando do pintinho depois, pensando se ele morreu sufocado, ou se conseguiu escapar e acabou morrendo soterrado.

“Estourou tudo! Tirem os meninos da sala! Saiam da escola agora! Pelo amor de Deus!”

Nunca tínhamos ouvido a diretora gritar. As professoras, sim, ela, não. Então, isso só fez com que a gritaria na sala fosse maior ainda, e eu quase fui atropelado. Ainda consegui pegar minha mochila que estava no fundo da sala. O boneco do Ben 10 estava lá e era o único presente da minha madrinha de Belo Horizonte. Minha mãe tinha deixado que eu o levasse pra escola com uma condição: “Deixe ele sempre na mochila, e se perder, apanha!”. Não tava a fim nem de levar chinelada nem perder meu presente novinho.

Nunca vi tanta lama.

Nunca.

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Era um rio gigantesco! Sujo! E a água descia a mil por hora! Lembro que de onde vinha a água era o Montante, morrinho perto da barragem que a gente subia e fazia manobras na bicicleta do Pedro. A gente sempre brincava de pular os buracos com a bike dele e não podíamos desequilibrar. No sábado, já tínhamos combinado de ir pra lá. Pra falar a verdade, só estou lembrando disso agora, porque sebo nas canelas! Subimos disparados fugidos do rio. Vi que a Marcela levou um tombão e machucou a bunda. Mas na mesma hora, ela se levantou e correu também.

Nunca corri tanto.

Nunca.

Sempre fui bom em corridas, por isso, nunca liguei muito pra quando as pessoas me chamavam de magrelo. Lembro de quando apostávamos corrida perto da barragem, já que lá perto tinha um descampado. Uma vez caí a esfolei o corpo todo. Fiquei uns três dias sem ir a aula. Mas vi na TV como ficou o Pistão e tudo em volta. Tudo era lama. A casa de tia Dirce sumiu, assim como a de Antônio, assim como da maioria do povo de Bento. Ainda assim, consegui ver o telhado da minha.

Nunca tive tanto medo.

Nunca.

Depois que conseguimos escapar, cadê pai? Cadê mãe? Cadê Priscila? Me deu uma aflição daquelas. Nem as histórias de terror que o Patrick contava pra gente me deu tanto medo. (E por falar nele, fiquei sabendo que sua mãe, a dona Marta, teve um ataque de nervos ao vê-lo snedo arrastado pela lama e está até hospitalizada. O Patrick virou um rejeito de minério no mar de lama). Fiquei cinco horas sem saber de ninguém. Ver todo mundo se encontrando com os pais me dava mais agonia. A professora até tentou me acalmar, mas alívio me deu mesmo quando vi os olhos da minha mãe cheios d’água, meu pai com cara de preocupação, e até a chata da Priscila estava chorando.

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Nunca senti tanta sede.

Nunca.

Depois que encontrei minha família, nenhum helicóptero veio nos tirar de lá. Nenhum caminhão de bombeiros apareceu. Aprendi a nunca mais confiar nos filmes. Passamos a noite inteira sem comida e com frio. Todo mundo estava fedendo. Mas o pior mesmo foi ficar sem água. Água limpa pra beber, igual a do corrégo do fundo da minha casa. Lembrei das piabinhas que começavam a aparecer, e nunca desejei beber tanto daquela água com peixe e tudo.

Nunca tinha visto Bento Rodrigues na TV.

Agora é tudo o que ouço.

Depois da noite mais longa da minha vida, fomos levados para Mariana. Em uma escola de lá, consegui beber água, comer e ainda arrumar umas roupas. Meus pais e a Priscila também e muitos dos meus vizinhos. Improvisaram uma TV na escola e de lá tudo o que ouço é: “Bento Rodrigues desapareceu”. Na minha cidade, nunca aconteceu algo que alguém achasse importante de ir pra TV. E agora que descobriram, não posso mais vê-la, pois ela virou lama.

Publicado originalmente aqui. Crédito das fotos: Douglas Magno


Laura Maria

Estudante de jornalismo que, contra tudo e todos, abandonou o curso de publicidade na hora certa para seguir o sonho de unir a paixão pelas palavras à paixão pelas pessoas. Do encontro, nasceu a vontade escrever. Seja amenidades ou questões filosóficas, quando o assunto é se expressar me recorro às palavras, aonde nelas me encontro por completo..
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