cem mais palavras

Observando o mundo ora através de um telescópio, ora através de um microscópio

Laura Maria

Estudante de jornalismo que, contra tudo e todos, abandonou o curso de publicidade na hora certa para seguir o sonho de unir a paixão pelas palavras à paixão pelas pessoas. Do encontro, nasceu a vontade escrever. Seja amenidades ou questões filosóficas, quando o assunto é se expressar me recorro às palavras, aonde nelas me encontro por completo.

Em tempos líquidos, é preciso ser sólido

As crises, ao invés de serem superadas no relacionamento, servem para por um ponto final em uma história que poderia ser de amor. Afinal, não tem ninguém muito disposto a ter uma dorzinha de cabeça quando se tem uma variedade enorme de remédios disponíveis às mãos.


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Se um adolescente de 16 anos escutar de sua avó que, no “tempo dela”, namoro se limitava a ficar de mãos dadas sob o olhar severo dos pais, é provável que o rapaz fique chocado, imaginando que matriarca viveu na Era Paleozoica. Entre a juventude dele e a idade da avó, porém, passaram-se em aproximadamente 40 anos.Tempo foi suficiente para existir uma completa revolução nos relacionamentos afetivos.

As bodas de ouro deram lugar à troca de beijos e, às vezes, de telefone na balada. A cumplicidade do casal que se via apenas por um buraco na parede foi substituída pelo sexo casual a cada quinze dias. Essa inconsistência nas relações, tão presente atualmente, foi prevista pelo sociólogo Zygmunt Bauman, em “Amor Líquido”. Na obra, o polonês discute os relacionamentos na contemporaneidade, em que nada é feito e que escorre pelos vãos dos dedos.

Bauman faz uma metáfora das relações com um vaso de cristal, que quebra na primeira queda. As crises, assim, não são mais para ser superadas, e sim, tornam-se o motivo para o fim do relacionamento.

Esse tipo de comportamento, no entanto, não é nenhuma aberração. Ele simplesmente reflete o tempo vivido pela sociedade hoje, em que não há dificuldade para quase nada. Tudo está sendo feito para facilitar a vida do homem e da mulher que não precisa, por exemplo, se demorar em um dicionário para achar uma palavra, basta jogar no Google a dúvida. Ou então que não precisa mais enfrentar a fila do banco pra conseguir pagar a conta, afinal, o aplicativo está a apenas um clique de distância.

Há quem diga que o avanço da tecnologia é irreversível. Uma vez iniciada, é impossível pará-la. O problema, porém, não é esse. É preciso, acima de tudo, refletir sobre o que está sendo feito com isso. Não é porque há uma enxurrada de informações que é necessário abraçá-las todas. Desacelerar talvez seja o caminho. O mundo é grande o suficiente para existirem vasos de vidro e de barro.


Laura Maria

Estudante de jornalismo que, contra tudo e todos, abandonou o curso de publicidade na hora certa para seguir o sonho de unir a paixão pelas palavras à paixão pelas pessoas. Do encontro, nasceu a vontade escrever. Seja amenidades ou questões filosóficas, quando o assunto é se expressar me recorro às palavras, aonde nelas me encontro por completo..
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